segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Banho


A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi pegar todas as coisas que haviam passado pelas mãos dela e colocar no cesto de roupas sujas. Já não mais suportava seu cheiro.


Como sempre, nesses fins de noite que se confundem com o início de um novo dia, fui tomar um banho para esfriar a cabeça. Eu precisava lavar todas as marcas que ela tinha me deixado e a água quente do chuveiro é meu terapeuta preferido.


O estranho é que eu não quis mais sair do banho. E ali fiquei, olhando para o teto vendo a fumaça subir e a água descer. Pelo ralo. É, vendo a água descer pelo ralo.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Boneca

teus lábios tremem.
e tua garganta está inchada, entalada com o desejo de se explodir nas palavras nela amarradas.
teus olhos, suaves, fechados.
E eu vou lembrar-te mais uma vez que escorrem lágrimas pelos cantos...
teus cabelos com a essência do costume.
cheira-me bem.
e te sujas o rosto de preto e vermelho para sair e deixas aí eternamente.
Por que te borras?
Na fotografia, com esses pingos carregados com quem você luta para afastá-los.
E quem te deu corda hoje?
tuas frases decoradas, está preparada para dizê-las?
tuas frases decoradas, está preparada?
tuas frases preparadas, está?
está?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Orador

Discurso da Escola Técnica de Formação Gerencial de Belo Horizonte, Terceiro Ano B


Insaciável!

E eu poderia terminar este diálogo por aqui. As palavras cessariam e o silêncio duraria mais tempo do que o discurso propriamente dito.

Insaciável!

Que assim é o ser humano por si só e foi assim que os pude sentir, meus jovens amigos, durante os três anos de estudos que se concluem.

Insaciáveis por não se contentarem! Que o conhecimento nunca bastou e a necessidade sempre foi escandalosa para ser calada. E não me refiro à dificuldade de agradá-los, mas muito pelo contrário, à receptividade! Que todas as palavras - de nossos mestres, colegas, amigos - sempre foram muito bem-vindas, ainda que com a malícia da interpretação que nos foi cobrada logo no início do curso.

Insaciáveis, vocês, por serem empreendedores de si próprios. De estarem sempre buscando o melhor e de não medirem esforços ao se comprometerem a uma causa. E com toda essa perseverança se fizeram necessários ao mundo.

A cobrança aumentou e o desafio se tornou parte do cotidiano.E com essa rotina, que só nós sabemos o que é, hoje levamos nossa vida à frente. Seguimos em frente por que o mundo nos quer ali, seguimos em frente pela necessidade de novos desafios, por que nós somos o recomeçar constante, por que nós somos incansáveis.

Somos insaciáveis.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Incompleta

Olhei para a estante procurando o lugar de colocá-la ao lado de tantas outras... Mas não! Essa não! Quis levá-la para dar uma volta, tomar um café, apresentá-la a alguns amigos em uma quinta, nesses nossos encontros nada casuais, mas ainda assim divertidos.
Quis levá-la para sentir a chuva. Tive medo de borrar, manchar, desmanchar, mas chuva que se preza não respinga, só cai.
Contei-lhe sobre os livros que estava lendo, contei sobre os livros que estava escrevendo – e então ela me contou sobre os ciúmes, coisa que (eu) não imaginava. Mas continuei a conversa, assim, como quem deixa as indiretas escaparem. Não é que eu tinha medo de uma discussão – ela viria a qualquer hora –, mas é que não cabiam justificativas minhas, não cabiam pedidos de desculpa e nem promessas. Quero dizer, eu juraria amor eterno, mas não em um monólogo sem sal. Por que, veja bem, quem vê de fora suporta um homem falando sozinho sobre suas criações, apresentando-as às obras que lhe encantam e ensaiando discursos para o público, mas vai que abrem a porta e me vêm de joelhos pedindo-lhe a mão?
E mais, predileta, mas incompleta: ainda te escrevo e permaneces sem nome. Pois não o mereces.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Turista

Pediu-me um cigarro, eu disse que não fumava; Pediu-me um gole, eu disse que era água; Pediu-me, então, um segundo e eu quase disse que não tinha relógio, mas era ser egoísta demais, então me sentei.
Era um banco de madeira, que era para ser branco, mas descascado e imundo não fazia jus às pretensões dos cidadãos. Tudo bem, era só mais uma das inúmeras coisas que não seguiam o ritmo da metrópole: ele, o banco e ele, o turista.
A impaciência estampada em meu rosto logo se desmanchou. Não por que as palavras dele me interessavam – mesmo por que até este momento ele não tinha dito nada – mas pela feição que ele ostentava e que despertou-me alguma curiosidade. Era mais um personagem fruto do cotidiano apressado que se instaura no labirinto de concreto, e aquele fruto, mais do que maduro, jazia ao pé da árvore que eu adoraria dizê-la frondosa, mas a julgar por seus produtos preferi interromper minha caracterização.
"A vida pode ser estranha" foi como ele começou aquele diálogo. E continuou: "sabe, estar à margem da sociedade não significa nada, é apenas uma expressão. Não existe sociedade de fato, não existe um grupo que te exclua do convívio, o que existe é uma convicção comum, é um conceito enlatado e distribuído gratuitamente à quem tem alguma renda. As classes sociais nunca lutaram realmente, os ricos nunca se opuseram aos pobres e toda essa denominação comum, toda esta classificação dos outros simplesmente é fantasiosa por que os outros são uma reunião de projeções suas. Sabe, inevitavelmente está-se sozinho. Aqueles que pensam que esta vida à margem, desapercebido, é mais dolorosa do que a deles muito se engana. Chamam-nos carentes, consideram-nos privados de atenção mas só o fazem por que são eles quem querem a atenção! E nos culpam por não possuí-la! Eu não quero atenção, eu não quero ser classificado por índices e estatísticas, nem por interesses e valores. Eu não faço parte dos seus outros, apesar de que você pode me classificar como quiser. Você pode viver no seu mundo artificial e achar que suas convenções fazem bastante sentido. Você pode achar que alguém realmente tem alguma razão sobre algum assunto e pode até definir peritos para dizer quem é este alguém, mas você apenas está circundado de regras que você criou. Ou pior, apenas dispôs-se a jogar o jogo. Sabe, no fundo somos todos egoístas, radicalmente por possuirmos um ego. E, se dissolvido, nossas ações não poderiam ser classificadas, de forma que um ato meu seria um ato nosso e não haveriam fatos para serem medidos. Veja que a origem da desigualdade está na caracterização e quanto mais prolixos, quanto mais nosso vocabulário se expande, menos conseguimos nos comunicar. Pense que quanto mais grupos de outros você tiver como réus, e isso é um julgamento, maior é a sua terceirização da culpa e mais distante você estará do plural que somos. Eu não preciso do seu trago, eu não preciso do seu gole e eu também não preciso da sua atenção realmente. Eu lhe agradeço a sua pausa, pois sei que ela foi sincera. Agradeço-lhe também o sentimento de condescendência e piedade, mas recuso-o: volto a repetir, não sou dos seus outros. Falta-me algo a ser resolvido, falta-me algum esclarecimento, mas não é sobre as pessoas nem sobre a vida dos homens. Enquanto isso, vago por aqui e por ali."
Acabou seu discurso e eu estava boquiaberto, ainda perdido em suas palavras. Quando eu reparei que ele se preparava para deixar-me à sós comigo," inevitavelmente", como ele diria, passou pela minha cabeça a ideia de que eu não sabia o nome dele. Como que lendo meus pensamentos, deixou-me sua última saudação em forma de surpresa:
"Os homens e seus títulos... sabe, acho que turista é um eufemismo que me agrada."

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Egocêntrica


Saiu do banho e tomou outro. Dessa vez um de perfume. Vestiu o vestido que já estava quase empoeirado, por que passou a semana inteira sobre o sofá esperando por ela. E ela concorda que é uma grande sorte que as roupas não falem, ou pelo menos, que tenham a paciência que só elas possuem por que, de certo, ela não teria sossego ao abrir o armário, mas tudo bem.
Colocou as meias de renda e se olhou no espelho. Perfeito! Subiu no Scarpin e desfilou para si mesma e quase desanimou de continuar: queria se despir! queria se usar! desejava a si mesma – e isso era bom, era sinal de que tudo sairia conforme o planejado – e então foi em frente.
“Toalha posta, mesa arrumada, velas no lugar certo, música? Hmm... ok! bem baixinho...” a campainha toca e “Bem na hora! Acho que posso contratá-lo para esses favores mais vezes...”
Apaga as luzes, destranca a porta da frente, se dirige para a cozinha e então para a porta dos fundos. Sai de casa e para na frente da porta da frente e pergunta ansiosa “pode entrar?!”. Depois de dez segundos ela se permite girar a maçaneta e adentra pela sala de estar trancando a porta atrás dela. Aprecia o cheiro e pensa “Hmm... Velas!” e ao ver a mesa toda preparada para um jantar inesquecível, acaba se delatando:
"Mal pude esperar para estar a sós!"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As roupas no varal

-Parece que vai chuvê e num chove!
-E nuvem dessa cor? Cê já viu?
-Trem esquisito...
-Escuta? Né bão tirá as ropa do varal não?
-Sei não, viu? Patrão disse que precisa dessa camisa branca sequinha pra'manhã. Melhó dexá aí no chove-num-chove e tirá na hora da tempestade do que tomá uma bronca depois.
-É memo... E onti? Cê chegô em casa direitin?
-Cheguei mia fia! Mas óia pro'cê vê que já tava escuro quando eu pus os pés em casa.
-E cê saiu daqui umas cinco hora, né?
-Foi, com horário de verão, inda por cima.
-Tempo esquisito, sô...
-Estranho, né Doutor?
-Tens razão... Tempo Estraño.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Desconhecido Íntimo

Te decorei por completa. Já te vejo em todo canto e em cada esquina que decido virar e não sei se sou eu a te seguir ou você quem me acompanha. E justifico meus atrasos por essa competição de ver-te até que se perca no horizonte, longe de mim quando o sol está se pondo. E ter-te sempre tão misteriosa, a significar coisas que eu nem compreendo, coincidências que eu nem desconfio e que projeto em cada um dos teus gestos um sinal mirabolante. Encara-me mas prorroga as palavras para manter o silêncio que me atiça. Ou finge que não me vê, mas copia meus gestos, deixando-me intrigado. E está sempre tão próxima mas tão distante de mim que já não penso em fazer mais nada além de te admirar no seu sempre, e talvez único, traje negro.

Certa vez, meu fascínio compartilhei com um conhecido que disse nos ser um amigo em comum. Confessou encontrar-te também por todos os cantos e disse-me ser encantado contigo. Ah, pobre de nós apaixonados pela própria sombra!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Chuva

Abre o vidro por que precisa de ar. Está abafado e seu coração está disparado, portanto nada melhor do que deixar o ar fresco invadir aquele cubículo minúsculo, porém ele abre pouco para não molhar o estofado – chove lá fora.

Chuva fina, mas constante. Coreografia milenar! E apresentações espontâneas por todos esses dias de outubro. A graça do espetáculo sempre foi essa: pegar o público desprevenido e aí que se confere o que é arte de verdade! Apenas alguns sabem apreciar o espetáculo de ver o céu cair e se renovar em sua plenitude inatingível.

A brisa vem suave e envolve o corpo suado. Trás o frio da noite para dentro e em poucos instantes arromba os pensamentos acelerados e desperta o instinto humano. Ele precisa de uma blusa de frio, então se contorce no banco e estica a mão para pegar o agasalho no banco de trás. É uma blusa cinza e macia, uma de suas preferidas e, normalmente, em seu estado normal, ele ficaria em êxtase de usá-la, porém nesta noite ele prefere passar frio a vesti-la. É que o cheiro daquela mulher está impregnado na roupa dele.

No colo a carta. Ele a pega novamente e levanta na altura do olho contra a luz procurando algum vestígio de ilusão no papel. Ou isso ou qualquer outro detalhe que pudesse indicar que aquilo fosse uma brincadeira, um modo da vida lhe dar suas lições ou algo do gênero, porém, decepcionado, ele abaixa a carta e passa os olhos rapidamente nas linhas recém escritas à caneta:

A primavera trás as flores. Trás consigo a vontade. Vem curar minha abstinência e logo posso dançar.

A primavera tem suas cores. Tem suas extensões da tarde. Tem suas manias e essências e o charme do refrescar


Seus olhos terminam a releitura daquelas linhas bruscas e não têm onde pousar. As lembranças preenchem o pensamento e a nostalgia toma conta dele. Perdido em seus devaneios larga a carta sobre o banco do passageiro e procura um lugar para recostar os olhos na rua molhada sem que tenha que a assistir passar, mas nada: esta noite vai chover até o sol raiar.

E o que pode se fazer pelo homem que se apaixonou pela tempestade?

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Imprevisível

atualizado em 06/08/2012,
Raquel Guimarães.

De tanto te ler textos não escritos eles se vão, por que, antes deles, esvaem-se as possibilidades de concebê-los: perco a vontade.
Peco em adiantar-me! Tantas cenas que não serão filmadas por que eu li o roteiro para saciar tua ansiedade... ou seria eu o ansioso? Com a inquietação de quem sai à rua sempre como se fosse a primeira vez e faz com que contos clássicos soem inéditos, na avidez de ver o mundo com olhos diferentes. Renovar-me e ao redor! Ter mil possibilidades de personagens, pontos de vista, mil sensações para serem encarnadas!
Eu que abandono livros, filmes, músicas, até o velho lápis repousado sobre o abismo branco, apenas por que me escutas atenta e entretida. Ingênua, tomas meu tempo sem cerimônias e faz com que eu esqueça o papel. E meu papel, principal. Saibas: O lápis sente ciúmes de ti...
Há histórias em gestação eterna; um vazio não proposital que lamenta suas lacunas; um silêncio clamando reinar, como antes quando a criação era sagrada, ritualística. Há um mundo que deixei em espera quando simplesmente sumi.
Eu, que já era um universo tão vasto, estendido em linhas ilimitadas, numa facilidade de ir-e-vir, quase esquizofrênico, deparo-me, no fim do caminho que tomei buscando recompor meu fôlego, contigo.
É improvável que meus pés toquem novamente o solo do comum. Já não fito aqui ou ali...
E até tenho previsões do que está por vir, mas não mais me antecipo: se marco as cartas a vitória demora-se.

Sobre Escritores


É muita pretensão para um autor querer ser lido além da obra. Essa necessidade que os domina, permanece inescrita e morre com eles, sem que o leitor tenha uma noção sequer do tamanho da angústia com que este parágrafo foi escrito.

domingo, 18 de outubro de 2009

Sumidouro

Foi.
Eu não sei bem pra onde. Sem tempo, nem me despedi. O relógio parado, mas os ponteiros sempre em movimento. E me hipnotizam, e eu perco a hora, esqueço de despedir. Os olhos não fazem companhia à água que se vai no sumidouro - quem dirá ao barco. Esqueço até do último beijo, deixo passar, assim, distraído!

Marinheiro no cais, largado pra trás. A mão hasteada é a nova flâmula que dança pedindo atenção. Os olhos acompanham a água que por eles desce. No meio dos rios deste corpo, um dia cada gotinha desaguará no oceano sob seus pés e levará em líquido as palavras que não saíram pela boca. Gota por gota aumentando o rastro que deixa o meu barquinho de papel à caminho da valeta: rastro de tinta, tinta de uma carta de despedida. E despedida, ah! despedida que se faz dolorosa!
Tudo indo ralo abaixo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mais

Eu quero é mais! Eu não quero pedaços, nem aquela superfície exposta ao mundo, ou seus dados de interação social. Eu não quero ser um turista na frente da vitrine vidrada. Eu quero atravessar as fronteiras, ir no íntimo, sentir o que há para ser sentido. Eu quero provocar, desarmar, fascinar.
Chega de desculpas esfarrapadas, termos mal interpretados, indiferença nomeada de desapego. Chega de saber pouco de muito, chega de coleções intermináveis de quebra-cabeças incompletos, e de livros adquiridos e nunca lidos.
*
Eu não quero semi-conhecidos. Nem romances que durem uma única noite. Eu já estou farto de percorrer estes caminhos comuns, mediocridade sem limites. E que me limita. Eu quero é te vasculhar por completa por que você, simplesmente, me intriga. Eu não estou interessado em nenhum dos cento e cinqüenta canais da tevê a cabo, mas sim em cada um dos seus pensamentos, na diversidade dos sorrisos que você esboça quando eu sussurro o que você quer ouvir. E quero saber também dos sorrisos que você força quando eu digo o que você não quer ouvir. E eu não quero te testar, eu quero te sentir! Eu estou interessado na forma como suas mãos criam gestos novos enquanto você me dirige a palavra, na cor da toalha que você vai usar depois do banho de hoje e no modo como você vai atender o telefone às 19:43. Mas eu quero saber das toalhas e dos telefonemas de amanhã também e vou prestar atenção nestes detalhes, ainda que eu não diga nada. Eu me distraio contigo, mesmo estando tão ocupado em te captar. E fico leve, leve, leve. E mesmo que chamem-me obsessivo, eu respondo que a inveja é não ter sido tomado do que nos abate. Só assim para aprender a amar amando!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pequeno Descuido

Ela desce as escadas de mármore sem olhar para trás. A porta azul de vidro está aberta e sem hesitar ela passa por ela. Eu assisto tudo escondido por trás da fresta da porta de carvalho que ela deixou entreaberta quando saiu. Levantou-se, vestiu a roupa e chamou um taxi.
Os ventos assobiam alto e fazem a chuva colidir com a janela da sala escura, e fora isso, tudo no silêncio em que deixamos: intocável. Eu estive quieto, esperando por um beijo. Depois esperei por palavras e então por qualquer gesto. De olhos bem abertos, com o rosto apertado contra o travesseiro macio e o corpo ainda quente e suado debaixo dos lençóis brancos, eu me mantenho paralisado enquanto ela procura na gaveta o número do taxi.
Dois minutos de atuação: estátua! Cento e vinte segundos suportando um coração acelerado, a garganta seca e as suas palavras distribuídas para os outros gratuitamente [no telefone].
Contive-me sufocando gritos que sairiam roucos, se escapassem. Mas com tanta sutileza, seus passos quase que não ecoaram pelos tacos de madeira da casa e, se eu não estivesse tão desperto, não conseguiria acompanhar a distancia crescente que eles tricotavam de mim. No entanto, antes que minha voz a alcançasse, a porta de carvalho o faz e a leva de mim. E ela leva minhas palavras que não saíram, as lágrimas que não caíram e o coração que não parou de bater um segundo sequer. Leva meu humor escada abaixo logo pela manhã e deixa-me, enquanto a espreito inquieto, apenas seus olhos de menina como lembrança. A surpresa que desponta no olhar de quem confere o que deixa pra trás e se vê sendo assistida, mas se vai... por que o taxi já arrancou e, apesar de cedo, é tarde demais.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Impessoal


Amontoam-se inevitáveis.
Como vermes infestando páginas e desuniformizando-as com os diversos formatos que assumem.
Tombam ou espremem-se & acomodam-se sobre linhas: tão espaçosos que roubam o olhar!
Pensamentos registrados; sinônimos – como palavras-muletas – gravados ao lado do original; explicações de contexto; setas que se cruzam & confundem-se, e desembaraçadas são uma linha de raciocínio explícita. Termos quase ilegíveis, ou mesmo em letras bordadas! Cada um que consumiu aquele calhamaço deixa uma forma de acessar suas ideias, abrir o cadeado da mente que porta.
E as páginas, inocentes & ingênuas, parecem não se importar com o abuso dos leitores. Pelo contrário! Conforme envelhecem e dobram-se em amassos sentem falta do toque, de dedos as apreciando, o calor das mãos que transmitem o afinco de um fim de capítulo e o afrouxo do abraço do término & recomeço.
Acho charmoso o tempo que se instala tão característico em teu amarelar. Convidativos teus rabiscos, interessantes tuas expressões que te habitam tão fiéis, resistentes ao manejo. E eu até poderia te amar! Confesso ciúmes às tuas marcas, teus giros pelo mundo... Além de tudo, sou complicado! De um amor cheio de pormenores, intenso & exigente. Mas o tanto que sou detalhista daria certo contigo, com todas estas inscrições sobre ti!
O que não suporto é limitar-me! Ter data para amar-te, saber certa a despedida...
Sou, portanto, sutil. E deixo-te registrada a minha obsessão. Pública.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Gatunos não amam

Roubo rosas e as levo comigo.
Levo lembranças embrulhadas na mente, olhares da gente e uma cara de “eu não ligo”.
Roubo a cena e tento voltar com ela para o lugar.
Tiro mil fotografias e as faço peças, monto um quebra-cabeça, decoro o lugar.
Roubo as gotas da chuva que cai.
Roubo o ar que respiro, os nomes em que me inspiro, a presença de quem não sai.
Roubo seu tempo lendo asneiras, tantas besteiras de quem não sabe amar.

sábado, 22 de agosto de 2009

Reencontro


“Amas-me?”
“É assim que o nosso diálogo se inicia?”
“Eu não vi outra forma de abordar-te...”
“A sutileza é sempre bem vinda...”
“Mas rodeios não são. E penso ser uma questão urgente, impreterível.”
“E tudo se trata de perguntas e respostas? Vais corrigir-me quando eu pronunciar minha sentença?”
“Não vim aplicar-te formulários. Se soubesse que te encontraria, no mínimo teria me arrumado antes. O que coloco como questão é de fato um dilema e penso que sua solução é imprescindível para o início de nossa conversa de forma coerente, e não como ela tem se arrastado até então.”
“Então tu esperas uma permissão para começar um diálogo formal? Encaras-me por quase dois minutos e quando decides dizer-me algo atropelas-me o pensamento e esperas que eu levante ileso a desatar nós e confeccionar laços?”
“Queres ajuda para recompor-te? Me parece que o marinheiro tomou um caldo.”
“É que as ondas andam meio abruptas. Talvez eu estivesse em meio à calmaria e substimei a tempestade.”
“Talvez seja essa a palavra: subestimar. Não achas que tratas alguns assuntos com demasiada trivialidade?”
“Não achas que preocupas-te demais com as coisas?”
“Acho. Acho que planejo demais, que crio muitas expectativas e acho que nunca saberei lidar com essa tua indiferença.”
“Acho que tu fazes tempestades em copo d’água.”
“E te afogas em meus mimos.”
“Certamente por que nado em ti.”
“Nada.”
“É ridículo que me perguntes uma coisa dessas! A tensão  é explícita, minha resposta não precisa ser.”
“Precisa! Quero ouvir tuas palavras! De sinais, signos, indiretas eu estou farta. De olhares demorados e silêncio que não solucionam tuas aparições; dos arrepios que percorrem o meu corpo ao mencionarem o teu nome, ainda que seja apenas coincidências; a incerteza que é insone me basta, não me serve, não adianta.”
“E eu poderia esquivar-me de ti? Ainda que eu confesse a aflição de ter imaginado este encontro tantas vezes, e talvez tenhamos adiado-o demais evitando lugares e pessoas em comum, era-nos inevitável que as coisas se resolvessem de uma forma inesperada.”
“E até agora dissemos apenas verdades, mas novidade alguma. Que eu te amo, que tu me amas, disso tudo já sabemos. Quero saber se me amas. E não tome-me como prolixa, repetitiva, ou como um pleonasmo.”
“Ao responder cunho promessas? Qual o infortúnio de esculpir o próprio destino? E quão prepotente é o homem ao falar de livre arbítrio? E quem sou este que falo através de mim agora, selando vidas que nunca estiveram dissolvidas e proferindo profecias que já estão concluídas?”
“Com “apenas duas mãos e todo o sentimento do mundo”¹, o fardo há de se equilibrar.”
“É com poesia que se encerram as maiores conversas, ainda que sem ritmo, rimas, ou mesmo palavras.”
“Teus lábios doces não poderiam concluir melhor.”


Amo.”

_
¹Citação de Carlos Drummond de Andrade.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Nocivo

Siga as pedras que deixo pelo caminho.
E se por ventura se acabarem, há as pegadas.
Trilha marcada por um homem sozinho.
Cravada no asfalto das estradas.

Deixo as pistas, dicas, os suspiros...
Provoco-te! Incito uma perseguição.
E, cauteloso, à frente me atiro.
Medindo passos e escolhendo a direção.

Siga as pedras, querida, eu lhe imploro!
E dessa fuga já perdi o motivo.
Mas se me recomponho, logo coro:
Faço-te perseguir esse meu amor nocivo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Futuro

O pior de assistir a vida re-acontecer e só lembrar-se de alguns segundos após cada ação é a ansiedade de tentar evitar os erros que estão por vir e pensar na possibilidade de acabar piorando tudo.
É carregar o fardo de viver. De ser responsável pelo acontecido e pelo não-acontecido. É viver se surpreendendo com o rumo que as coisas tomam, mas, ao mesmo tempo, seguindo frustrado por descobrir que você já sabia o fim de cada história.
É te ter como insano por agir tão normalmente, sempre! É querer fugir de si próprio e nunca poder se perder por aí. É ser amaldiçoado como Deus de si próprio sem ter capacidade para administrar-se.
Mas a dúvida persiste: futuro?

sábado, 1 de agosto de 2009

Tédio

Eu vejo essas pessoas que carecem de atenção. Elas me cercam e me pedem um momento para satisfazerem sua necessidade de fuga: nenhuma delas consegue se suportar.
Elas precisam de algum barulho para preencher o vazio que seria ocupado pelo peso de sua consciência; imploram por minha voz, pois não conseguem ficar sozinhas consigo próprias, não conhecem sua companhia e são tímidas para se aproximar, então vivem em tédio.
O tédio nada mais é do que a falta de capacidade de se distrair consigo próprio, enfim, é a prova de que você se reconhece insuportável.
A partir disso eu te desafio a me provar que estarei melhor em sua companhia do que comigo mesmo, afinal, demora-se muito tempo para perceber que a solidão há de ser conquistada com cautela e não é qualquer idiota que pode roubá-la de mim e desperdiçá-la com um espaço a ser ocupado por um corpo vazio e meu silêncio quebrado por palavras preenchidas de frustração.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Cobertor de Estrelas

Me desarma, me enlouquece, me encanta.
Me nina com sua voz doce e trás toda a serenidade que há muito eu não conhecia.
E não preciso mais de livros, nem de canções decoradas, por que nenhuma delas é tão envolvente quanto as verdades que saem de seus lábios pelo espontâneo! Entre sorrisos vai me conquistando aos poucos e me tira do sério, e aí estou eu, novamente, sem saber o que fazer, o que falar...
Enquanto vêm as suas, as minhas recuam: palavras.

E sob este cobertor de estrelas não há o que se dizer.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Do autor


Não faço questão de ser uma dúvida, apenas a sou.
Devo me desculpar pelo fato de que não compreendes minha verdadeira essência? E se falo assim, alto, é por que sei de cada um.
Se o mistério é um pecado, pois já não fui julgado muito antes de ser lido? Pois teus olhos já não haviam me condenado antes que minhas palavras te perfurassem? Que cada cor da minha roupa já não tinha sido exageradamente extravagante, e o meu mau gosto já não tinha te assustado?
E para ti sou efusivo! De sorrisos largos que te enfeitam a face por serem contagiantes! Mas a ironia, seca, é sutil demais para ser percebida, não?
Eis meu vício: personagens sorridentes.
Acordo todo dia decidido a interpretar, mesmo sabendo que sérios mesmo são os palhaços.

domingo, 5 de julho de 2009

Em trechos particulares



Sinto como se tivesse vivido uma eternidade, e agora, parto para a segunda. Mil anos de solidão preenchidos por histórias de amor inventadas e a verdade é que essas minhas personagens nunca conseguiram se realizar.
Alguma dificuldade para respirar, quiçá por este coração que ocupa todo o peito. Tenho medo de ser perpétuo. E é este o motivo do meu pedido por perdão, afinal, como posso escolher se minhas escolhas são tão definitivas? Se a cada passo que marca este solo milhões de nomes me vêm à mente. E logo todos morrem, cada um em seu devido tempo, porém eu.
Continuam as lembranças de cada passado individual.
Porque eu nunca me fiz tornar real? Porque eu inventei tantos sentimentos com nomes diferentes e nomeei cada noite que passei acordado se delas eu queria me esquecer?
Faz muito tempo que estou fechado para visitas e não há chave extra escondida em lugar algum. Não há quem possa, venha, me acordar enquanto me atraso para a vida. Um universo ilimitado, mas extremamente só. Individual em cada mínimo detalhe e cheio de vida, mas de pessoas feitas de palavras.
Acabo me perdendo na multidão.  Cada momento são frases e frases, compostas de palavras convenientes e convincentes, costuradas em linhas coesas que dão um tricô belo de se ver.
Visto este novo robe: só as roupas que me agradam quando ocupo-me de meu hobby.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Baixa Caixa Alta

-E por que essas letras maiúsculas aí são tão minúsculas?
-É para que ninguém consiga ler o tamanho do meu amor por você, por que é algo tão grande que eu só consigo dizer gritado. Me expresso com palavras devido ao vinculo forjado entre nós que exige de mim o tamanho, a entonação e a sinceridade. Escrevo baixo para que algo que é nosso não fuja por aí, de bocas em bocas que não sabemos por onde passam. Escrevo, pois aqui explicito toda a essência e acabo com qualquer subjetividade ou dúvida que possa ter permanecido.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Amanda

amanda amava o cheiro da chuva.
e amando,
ela se senta debaixo da janela para observar a tempestade.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Segredos

Me contou que a discórdia era um passa-tempo e que os garotos eram sempre previsíveis e que a rua em que morava era muito calma para se viver no ritmo em que levava as coisas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Ambição

Eu queria que as histórias que conto por aí fossem reais.
Eu queria que os velhos do boteco da esquina estivessem sóbrios para se lembrarem das memórias que implanto em suas mentes corroídas pelo tempo. Fizeram-se escravos dele, hoje remediam-se com álcool.
Eu queria mesmo que minhas desculpas fossem sinceras, ou ao menos, não tão medíocres. Para que eu pudesse vangloriar-me não da lábia, mas de minha palavra.
Eu a queria, toda, só para mim.
Mas queria também o universo de vidro e a confiança da vizinhança.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Passagens de uma história nunca escrita


Diálogo entre um Fabricante de Sonhos e um garoto comum


- É o que você quer?
- Sim.
- Eu posso lhe conceder qualquer coisa. Aliás, você sabe com o quê está lidando.
 - Eu sei o que eu quero, tenho certeza.
- Pois bem. Mas isso iria lhe custar... algumas lembranças...
- Lembranças?
- É, histórias... Você não precisa delas. Apenas gente velha precisa de memória pra poder se situar no presente. Estes que ressuscitam passados, apoiados num vigor que já não existe. Você é jovem, possui anseios! Tem todo este instante infindável com o qual lidar sem ficar se limitando com causos. Lide com a possibilidade da vitória, ao invés de fatos vencidos. Que tal?
- Mas e os momentos que me alegram quando nada do presente pode fazê-lo? E a forma como eu me associo à realidade? Todo o meu contexto, minha formação! Não sei... Eu gostaria de me lembrar de algum passado...
- Mas por que?! A espontaneidade é o desdobrar do agora e é neste tempo em que tudo é possível! Se apegar à qualquer grão de areia de uma ampulheta dá no mesmo: ou tem-se a queda certa ou já se está tombado. E é este o vírus que compõe o medíocre: a perseverança em seguir para o abismo!
- Mas eu não pretendo ser absorvido por álbuns de fotografia ou viver de planos. Só quero o acesso à outras épocas, algo que me pertence!
- Tudo bem, eu entendo. Há oportunidades que batem em portas erradas. Você possui um desejo, mas não dispõe de cacife para concluí-lo. Mas, talvez, com todo este seu tempo você possa... fazer da sua maneira...
 - Não! Não é isso! É que... Não há nenhuma outra forma de eu te pagar?
- A minha moeda é o tempo. E tenho certeza que alguns anos de sua vida a menos ou uns bons momentos vividos não lhe fariam tanta diferença... Qualquer preço compensa um sonho!
- Mas não há nenhuma forma de descobrir que foram fabricados, não é? Ninguém vai saber, certo?
- Tudo exatamente como lhe foi garantido. E basta você assinar nesta linha.



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quarta-feira, 27 de maio de 2009

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Página Solta

De modo que seria insensato continuar ostentando seus luxos e não-me-toques, pois dera-se conta de sua estaticidade e invalidez. Então chegara a hora de abdicar-se de objetos e valores e dispor-se ao curso com espontaneidade.

Mas quais serão as palavras dos outros? Julgamento incisivo que norteia seus atos. E isso já é um tanto desmotivador.
E qual será o seu objetivo? E resta saber se será seu ou dos outros. Sua ascensão sempre esteve enraizada em seu ciclo social.
E que calçado te dará o passo firme? Pois a estética é imprescindível e você sempre prezou por aliar o útil ao agradável, ainda que tivesse de pagar mais por isso.
E, ainda, quem projetará teu caminho e quem o construirá? Pois não venha me dizer que você o fará. Você só pisa em estrelas! o teu tapete vermelho não toca o chão com medo da poeira!

E em um belo dia a vassoura não será nem transporte nem limpeza e o pó de arroz não será mais um entorpecente ou artefato para a beleza. E será tudo em vão:

Quem carrega jarros nas costas é por que não sabe dar vazão.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Calma

A mão que esfrega as pálpebras em busca de calma fere os olhos e estoura as veias.


e, quanto mais eu procuro por calma, mais eu estouro meus nervos.


terça-feira, 5 de maio de 2009

Um bilhetinho

"A sorte lhe faltou ao ter sido moldado com tanta inconstância”.
Foi um lembrete da noite anterior, fruto da insônia que reduzia minhas opções. E uma hora  nosso corpo desaba sem que sequer nos demos conta e é geralmente quando se diagnostica o estado crítico. Quando acordamos a amnésia já tinha nos envolvido novamente e tudo o que sobrou foi o saldo com nosso corpo, que já era negativo e agora passava a ser insuportável.
Álcool demais, distrações involuntárias como conseqüência das noites mal dormidas, músculos atrofiados, falta de higiene e refeições desequilibradas. E tudo resultava na falta de ânimo para as coisas novas e o sincero desejo pela nossa cama e a eterna solidão do sono. Transitamos entre o sonhar e a vigília sem saber exatamente onde nos encontramos. E, indiferentes,  nem esperamos a visita do extraordinário, já que nunca nos lembramos de nossos sonhos.
Acordamos cada dia um e por isso insistimos para que os verbos sejam plurais. Pois múltiplos, sentamos sempre na mesma cadeira a realizar sempre as mesmas tarefas numa rotina que não nos comporta, por sermos demasiadamente um. Excedemos o limite de um corpo e transbordamos nas atividades diárias e, derramados, sentimo-nos desperdiçados e, ainda assim, impotentes perante os demais. Somos ideias, e sentimentos, e planos, e atos, e não queremos ser contidos. Necessitamos ser controversos, paradoxos rumando à genialidade e desmistificando extremos, provando que a alinearidade se comporta e se complementa de uma forma intrigante. Queríamos solucionarmo-nos, mas não há espaço para isso.
Em decorrência das circunstâncias, nosso expurgo caprichoso. E nessa sublimação, acabamos por deteriorar constantemente o corpo que habitamos. Talvez dessa forma até faça mais sentido nossa existência múltipla, mas de fato não é tão confortável como parece.
Em desvairos esquizofrênicos caminhamos pela casa, de cômodo a cômodo, conversando em voz alta. Eis que, nesses dias passados, nos deparamos com um um bilhetinho no chão:
“A sorte lhe faltou ao ter sido moldado com tanta inconstância”
E no verso:
"Ou não."

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Retórica para auto afirmação


Mas vai que sou apenas fruto da minha imaginação. E, como um garoto pequeno, crio monstros em sombras e dou vida à aberrações.
Eis: Cria & Criador.

As conclusões tornam-se cada vez mais delicadas quando se alongam as linhas de um texto. Para que tornar o universo quebradiço, dando-lhe nomes & conceitos? Além do mais, não nos afastemos do que é primordial: a espontaneidade.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lábios Vermelhos

Lábios Vermelhos

Subo a escada de incêndio e abro a porta dos fundos. Entro em casa com passos delicados e ligo o antigo rádio. Toca “Friday I’m in Love” do The Cure e no mesmo instante me lembro de você, fecho meus olhos e começo a dançar sozinho, porém acompanhado de minhas lembranças e de uma expressão de êxtase.
Cato um lenço de pano e passo-o pela minha nuca para sentir a essência. É o teu cheiro que se instalou em mim, mais ou menos, como seus olhos se encaixaram nos meus e ali se acomodaram pelo resto daquela noite. Pego o lenço e passo-o nos meus lábios para capturar o que sobrou dos teus pintados de vermelho. Consigo ver a tua boca no borro que se formou.
Danço livre e levemente pela casa. Vou para a cozinha à procura de uma faca. Volto à sala com ela e de uma gaveta qualquer da dispensa trago em mãos uma boneca de pano. Corto-a toda, tiro seu cabelo fora, tiro seus braços, suas pernas, rasgo seu vestido xadrez, mas tudo em vão. O que eu quero mesmo são seus olhos de vidro que tanto me fascinam, então vou logo ao trabalho e os arranco violentamente.
Junto aqueles olhos brilhantes, os embrulho no lenço e guardo em uma pequena caixa ornamentada que tirei do meu bolso. Aumento o som e troco minhas roupas. Visto uma calça social preta com suspensórios e uma camisa branca velha e vou ao espelho olhar meu cabelo. Ele está bagunçado do jeito que você deixou. Foi quando você me disse que achava que eu ficava bem melhor com aquele cabelo e minha cara de bobo. Você sabia que era você quem me deixava bobo daquele jeito?
Arrumo os lençóis da minha cama e abro a janela. Dou permissão para que os primeiros raios do Sol que ainda vai nascer entrem livremente e compitam com a luz das velas. No total são sete. O quadro da parede está meio torto e a porta do guarda roupa não está trancada: perfeito!
Agora o telefone me chama, me chama, me chama e eu me esguio pelas paredes do quarto para que ele não me escute e nem me veja. Reviro a roupa usada no chão: fiquei com o número do telefone teu. E como posso suportar a ansiedade se não consigo sequer me esquivar do meu telefone sem me arrepender ou ao menos preocupar? Mas já é um passado morto enquanto não tocar novamente, por isso aproveito a brecha para fugir...
Então pego as chaves jogadas no canto da entrada, ao lado das teias de aranha que guardam a porta principal que quase nunca é aberta: não gosto de visitas, apesar de que adoraria te ter ao meu lado, ainda que o que posso te oferecer não seja muito. Passo pela mesa principal e tantos remédios para nada! Nada me proporcionaria algo semelhante ao que eu sinto durante toda essa madrugada... doente de ansiedade espero que você me cure.
Desço agora pelas escadas do prédio, passando pela porta dos vizinhos que se incomodam de me ver ali. Os morcegos vão me acompanhando e há alguns gatos em suas sinfonias solitárias e individuais a vaguear pelos pisos. Tudo que quero é ver te de novo e assistir você me contando de como foi o seu dia, e o que você quer fazer no fim de semana e seus planos para o futuro.
Pego meu Cadillac rosa e não tenho muito tempo, o sol está prestes a nascer e sua casa não é tão perto assim. Na verdade eu nem sei se sei chegar lá. Descobri seu endereço depois de tantas buscas, ligações, conversas... Tantas satisfações a anônimos, tantas chantagens e trocas de informações, mas sigo a avenida principal como deveria, e daqui a dois quarteirões devo virar à direita. A caixa está repousada no banco do passageiro, onde em meu sonho você se sentará em alguns minutos.
Parece ser seu prédio e parece ser você na janela, apenas uma sombra atrás da cortina, com insônia, mas se convencendo de estar sonhando acordada. Seu telefone acorda e te toca de que realmente te espero. E como espero! Por tantos meses... com tantas luas e tantas lágrimas.
Revira teu guarda roupa e em segundos vêm correndo me ver! Teus lábios tão vermelhos e teu cabelo ao vento, teu cheiro e tua risada. Rápido, entra e esquece o mundo! Fecha os olhos e esqueça tudo hoje!
Você pega a caixa e os dois olhos de vidro estão lá dentro. Você percebe o cheiro e o borrão e dá aquela gargalhada louca para me mostrar que é o mesmo perfume, é o mesmo batom e é o mesmo sentimento: nada mudou. Você pega um dos globos de vidro e guarda em meu bolso e amarra o outro em teu colar.
Então eu ligo o carro em direção à estrada e você liga o rádio e a música que começa a tocar é “Mint Car” e o Sol está nascendo no horizonte. Estamos indo...
...estamos indo para sempre.

domingo, 19 de abril de 2009

Slogan

Ataraxia e procrastinação andando juntas desde 1991.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Estilhaços

Ela sobe pela escada de incêndio e vislumbra os vestígios de quem passou por ali mais cedo. Há portas escancaradas e homens desmaiados com o braço sem mais lugares para as picadas do vício; Garotinhas, com tanto medo quanto ela, encolhidas em posição fetal no canto de uma sala escura; Mulheres de roupas rasgadas e maquiagem borrada, no corredor e no interior das casas. Putas ou amantes, desesperadas por um amor que já não faz mais sentido. Ela continua subindo, sem freios, em busca de uma luz.

Cada passo dado naquele corredor extenso é um ano de idade a menos e a vida se retrocede diante de si. Ela vê uma porta imaginária com os pais em uma discussão violenta e de repente ela tem sete anos de idade. No outro instante ela está segurando seu ursinho de pelúcias que fora tantas vezes costurado pela avó, porém desta vez ele está manchado de sangue e não há como remover. Fora sua irmã quem fizera aquilo, e, no entanto ela tem agora apenas cinco anos. Aos três ela se lembra da canção de ninar que o rádio tocava e toda aquela música envolve sua mente, logo há três mulheres cantando ao pé do seu ouvido cada uma das notas da melodia e seus passos não param. Vêm as moiras consolar-lhe.

Eis que ela chega à porta da cobertura e o acesso é restrito. Está trancada e não há meio de transpô-la. Já não há luz para os cegos ou fôlego para quem se aventura no oceano. Pode ser que tudo passe, menos ela: aquela porta permanece trancada, e a garota jazida no chão, em seus pesadelos.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Métrica


O peso da consciência não pode ser medido com ciência.

domingo, 15 de março de 2009

Cinderela

Tecida uma carta arrependida com linhas elásticas
Anexada a milhões de palavras plásticas
E enviada com um buque de flores artificial
E um vale presentes para um par de sapatos de cristal

mas a Cinderela se perdeu no labirinto de concreto. sem espaço para abóboras.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Notas de dentro do guarda roupa

Depois de tanto tempo dependurada...
A fantasia retoma teu lugar junto ao corpo do artista.
Velha e amarrotada, mas é exatamente esse o gosto da felicidade.

*

E agora o que sobrou do céu?
Pedaços de estrelas ao alcance das mãos.
Mofam em uma gaveta velhas fotos 3x4 de desconhecidos.
E todo homem e mulher era uma estrela, e eu despedaçava memórias de outrem em minhas mãos.

*

Seguro de que o fundo falso
nada mais era do que minha insegurança.

*

Sépia é a cor do fundo de um baú de memórias.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Tempo Estraño

O "estraño", estranho ao dicionário, é mais adequado à impermanência do que a ordem perfeita da gramática estática. Sutil na rebeldia e informal com tenção, encarna-se em personalidade intensa inexprimível: o curinga perspicaz.
Adotado por um tempo que o quer como adjetivo, mas que só o tem pois já é intemperado por si só. Seja clima, seja areia juíza de momentos divergentes (mas agrupados em categorias para a satisfação da lógica racional - e, assim, simplista), sejam "épocas" ou "prazos": o tempo é sempre estraño.
A complexidade do termo cunhado discorda de sua adequação, que se faz tão fácil de ser usado pois compreende plenamente o contexto e ressalta-o sublimemente. Pede-se não ser confundido com pleonasmo, ou mesmo com uma interjeição: o estraño é apenas a fresta para o vislumbre do abismo inefável, é uma ilustração, o resumo de uma outra linguagem num sentido literal, também um substantivo, portanto.
E por mais que não haja sua conjugação verbal, o ato de perceber o termo já é o próprio verbo em questão.

Não vos desejo portanto que vivam em tempos interessantes, mas estraños (e plurais), da maneira como mais vos agradar.
Passar bem.