sexta-feira, 5 de junho de 2009

Passagens de uma história nunca escrita


Diálogo entre um Fabricante de Sonhos e um garoto comum


- É o que você quer?
- Sim.
- Eu posso lhe conceder qualquer coisa. Aliás, você sabe com o quê está lidando.
 - Eu sei o que eu quero, tenho certeza.
- Pois bem. Mas isso iria lhe custar... algumas lembranças...
- Lembranças?
- É, histórias... Você não precisa delas. Apenas gente velha precisa de memória pra poder se situar no presente. Estes que ressuscitam passados, apoiados num vigor que já não existe. Você é jovem, possui anseios! Tem todo este instante infindável com o qual lidar sem ficar se limitando com causos. Lide com a possibilidade da vitória, ao invés de fatos vencidos. Que tal?
- Mas e os momentos que me alegram quando nada do presente pode fazê-lo? E a forma como eu me associo à realidade? Todo o meu contexto, minha formação! Não sei... Eu gostaria de me lembrar de algum passado...
- Mas por que?! A espontaneidade é o desdobrar do agora e é neste tempo em que tudo é possível! Se apegar à qualquer grão de areia de uma ampulheta dá no mesmo: ou tem-se a queda certa ou já se está tombado. E é este o vírus que compõe o medíocre: a perseverança em seguir para o abismo!
- Mas eu não pretendo ser absorvido por álbuns de fotografia ou viver de planos. Só quero o acesso à outras épocas, algo que me pertence!
- Tudo bem, eu entendo. Há oportunidades que batem em portas erradas. Você possui um desejo, mas não dispõe de cacife para concluí-lo. Mas, talvez, com todo este seu tempo você possa... fazer da sua maneira...
 - Não! Não é isso! É que... Não há nenhuma outra forma de eu te pagar?
- A minha moeda é o tempo. E tenho certeza que alguns anos de sua vida a menos ou uns bons momentos vividos não lhe fariam tanta diferença... Qualquer preço compensa um sonho!
- Mas não há nenhuma forma de descobrir que foram fabricados, não é? Ninguém vai saber, certo?
- Tudo exatamente como lhe foi garantido. E basta você assinar nesta linha.



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