sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Costelas IV


Sereno severo silêncio
Alento à alma
Saúdo à calma e me sento
Sagrado sortimento
Qual amálgama!

Prefiro aos tons pasteis
Romances em papéis
Capa dura, coração mole
Emoções são montanhas russas
Relacionamentos são carrosséis

Sou um parque de diversões fechado
Em um porquê de dimensões extensas
Cordas tensas, coração calado
Desfruto meu manjar, alheia aos pecados,
Faço jus à minha crença

Sou esfinge e sou quimera
Sou Bela e Fera sem bula
Adula & Venera:
"Decifra-me ou devoro-te!"

Eis a GULA.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Décimo Terceiro Ovo


De repente aquela súbita vontade de comer omelete. Dez horas da manhã e eu nunca gostei dos americanos, mas hoje é um dia à parte. E quando abro a geladeira para pegar os ovos noto a bizarrice: um deles brilha.
Nada muito chamativo ou fosforescente, mas era um ovo nitidamente diferente dos demais, um pecado. Pego o ovo com cautela pensando poder estar podre, e qual a minha surpresa também com seu peso estranho. Que ovo pesado! E apesar de tudo, não tinha qualquer cheiro diferente dos outros.
Fico pensando se ele não é de outra granja, se a Paula, minha esposa, não quis fazer uma gracinha e comprou alguns produtos mais finos para alguma receita especial ou algo do tipo. Descarto a hipótese, é a Dona Júlia, nossa secretária, quem vem fazendo as compras alimentícias e ela não gosta de coisas caras, quem dirá ovo chique.
- Alô, Dona Júlia?
- Ô Seu Luiz! Tava mesmo pensando no senhor. O trânsito agarrou aqui, ônibus cheio, mas eu já tô chegando, viu?
- Sem problemas. Mas me conta uma coisa, Dona Júlia, você quem comprou os ovos essa semana?
- Foi sim, quê que houve?
- Tem um ovo esquisito aqui, pesado que só ele.
- Ah, Seu Luiz! Esse ovo aí foi o Dom André quem mandou pro senhor!
- O Dré?
- Vixi, a Paula não te avisou?! Dom André trouxe esse ovo aí ontem e pediu para te entregar, que era para te dar em mãos e que não era para colocar na geladeira! Será que estragou?
- Não tá fedendo não...
- Ô, Paula tava no telefone, nem me ouviu falar. Eu já to chegando aí, Seu Luiz!
- Até logo, Dona Júlia.
Peguei o ovo, presente de Dom André, e tirei-o da geladeira e pus-me a olhá-lo. Já havia perdido o apetite tanto era a minha intriga. Que seria aquele objeto? Já duvidava ser de comer, duvidava de suas utilidades, mas estava abismado com a coisa.
Dona Júlia chegou e lá estava eu empoleirado, encucado com o ovo.
- Ê, e aí, Seu Luiz? Quê que esse ovo tem?
- O que ele tem eu não sei, mas que é pesado é...
- Dá aqui – e tirou da minha mão o ovo que eu tratava com tanto cuidado e sacudiu-o bem, deixando-me indignado!
- Cuidado Dona Júlia!
- Seu Luiz, isso aqui tem que ir pro sol!
- Para o sol?! Por quê?!
- Por que não era para ir pra geladeira. Já que foi, vão levar pro sol.
Dito e feito. Foi Dona Júlia colocar o ovo no sol que sua coloração começou a vivificar e ele foi ficando mais bonito. De fato eu pensei que a qualquer hora o ovo ia chocar e ia sair um pássaro dali, mas ele só se tornou muito dourado, reluzente até.
Eu e Dona Júlia estávamos num silêncio mortal, fascinados com a transformação do objeto e ela me jurando de pé junto que quando Dom André entregou aquele ovo no dia anterior ele não parecia mais do que um ovo comum.
- E agora, Dona Júlia?
- E agora o quê? Você tem um ovo dourado, Seu Luiz. Quer mais?
- Mas é só isso?
- Uai, falta a galinha.
- Quê que eu faço?
- Seu Luiz, só quebrando...
- Mas e se eu o quebrar e não acontecer nada?
- Aí você perdeu seu presente. Mas, ó, Dom André disse que você ia saber o que fazer com isso.
Saiu uma Dona Júlia com cara de charada resolvida e eu fiquei ali, embasbacado com a situação. Mas, como a vontade do omelete, subitamente tudo fez sentido: O que mais poderia haver num Ovo de Ouro?! E quem melhor do que Dom André para me presentear assim?!
A resposta era muito clara. Peguei um copo, rindo do aviso de não poder colocar o ovo na geladeira e me lembrando de como ele ficou vívido e bonito quando voltou à sua temperatura ambiente. Genial, Dré. Era CLARO que dentro de um Ovo de Ouro só podia ter UÍSQUE!
Bebi um gole e era dos melhores. Dom André sempre se lembrava das nossas conversas embriagadas, essa charada nós já tínhamos matado há muito tempo, numa dessas noites loucas da vida. Que bebida fascinante, eu tinha ganhado o meu dia ali!

Agora, a Paula vai pagar por ter colocado meu Ovo na geladeira. Ah, isso vai.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O mar não recusa o rio

Entrego-me às ruas da cidade sob o Sol da manhã.
A brisa leve conduz meu velejar em meio a outros navios, distraídos, mas não com a paisagem. Não digo que perdem o melhor, pois não sei deles. Aliás, não digo nada, nem mesmo o que acho que sei por que também acho que não vem ao caso. Nada é preciso, exceto navegar.
O vento da manhã não uiva, ele sussurra doce e suave, mas a maré brava ofusca seus dizeres com movimentos bruscos. O mar não está para peixe, quem dirá para banhistas.
Deixo o timão solto, livre de minhas mãos. Quem é o capitão perante a condução dos ventos?
Aprecio o velejo sereno. As crianças são meus cúmplices, elas navegam melhor do que seus acompanhantes, com um sorriso no rosto que me diz já terem voltado de meu destino com o tesouro que busco. Seu cumprimento silencioso é um presságio, a benção que dispensam àqueles de alma grande. Aos demais, sua indiferença típica, que dói estranhamente.
Já me doeu, não mais.
Retribuo um sorriso que é apenas um ensaio, elas sabem. É bom que se ensaie sorrisos para que a face se acostume com o que é leve, eis o mapa com o X que se estampa descarado.
Só se desfaz de máscaras aquele que encarna dores e delícias sem distinções de personalidades. Os pequenos mestres gargalham com a busca da naturalidade, me satisfazem com sua aprovação sutil e depois se despedem sem muita cerimônia, deixam que eu conduza meu barco com a certeza de que estou na direção certa.
O oceano é gigante e não me importa cruzá-lo, apenas navegar com a certeza da proximidade. Pressinto os bons ventos. Capitão é aquele que sabe conduzir com maestria seu navio sem brusquidão.

Até o fim da manhã já colhi sorrisos para encher meu baú.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Alforria


Segue teu caminho
Soprou-me o anjo da encruzilhada
Que não me revelou mais nada
E fez-me saber sozinho

Eis o livre arbítrio manifesto!
Fatalidade é o que acontece
Fidelidade à minha prece
De sobra o resto

Mas trai-se em tais excessos
Pois que suscita o incerto
Quando sucede, de perto,
Apenas a vida e teus processos

Explico em meios-termos:
Há o justo e o incompleto,
Há Deus além do feto,
São caminhos um tanto ermos...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Exconjuro


Quem dera ao descuido ser significativo
Ai de ti! A vontade é o crivo
Pois há amor; e há sucesso
E há verdade nestes versos

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Borrão


Caem os cílios, a tinta, a água
A mágoa permanece, não verte
O silêncio é ouro.
Mas também é prata barata,
Ou menos.

O absurdo é tudo em estantes
Mudos instantes
Mundos distantes
Antes
Depois.

A eternidade é curta
Se bem que
Inédita.
Pois
É.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Diário


Meu verso não vale ouro, é matéria comum.
Emprego-o diariamente sem distinções de contexto
ou vãs pretensões de guardar palavras
para discursos ou sermões.

Criação instantânea, ininterrupta.
As palavras dão vida aos sentimentos
e a saliva é o combustível da imaginação,
embora a vida só seja possível pelo silêncio.

O poeta só o é por saber caber;
mas e a poesia dos dias,
cabe-o apreciar?

Quanto de silêncio há na pausa,
e que é que regula o tom,
se não o não?

Pois,
de outra forma,
dicionários apenas.

Além de forma & gênero
há vida a ser floreada
não peço que não seja simples,
muito pelo contrário.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Costelas III

Nada por menos.
Tenho meus planos, plenos de detalhes,
Mapas à Vênus,
Entalhes artesanais
E meus venenos habituais.

Nutro pequenas relações comigo
Aceno às multidões, enceno perigos
Dramatizo questões as quais nem acredito
Personifico mitos
Em elaborados ritos de solidão.

Solidifico personagens
Importo paisagens em ilustrações ilustres
Lustro imagens que tenho de mim
Ao espelho torno-me afim,
Visto roupagens, proclamo festins, enfim!

Anfitriã em meu teatro ilusório
Forjo ontens e amanhãs, um divã, um laboratório
Do simplório ao titã
Artesã,

E não santa de oratório.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Tecido


De começos e tropeços a fins de fios mais espessos e entrelaçados.
O destino é uma bola felpuda, quase indecifrável, que pede delicadeza em seu manuseio para não se perder o fio da meada. Quem quer partir uma linha, iniciar uma rinha consigo?
Os fins até justificam os meios, mas quem vive de justificativas? A moral não cede à oratória, mesmo à de argumentos floreados e recheados, como uma persuasão intimista, invasiva.

Ter-se ao tecer: que sejamos maiores que o descuido.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Contratos


Canções cauções,
Compostas de convicções comedidas
Que é para agradar o coletivo
E não ao coro interior.

E um cortejo póstumo.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Costelas II

Servem-me ou sorvem-me?
O sutil se suscita, precipita-se, severo.
O delicado exige esmero;
detalhes nunca pecam por exagero,
desde que sinceros.

Dos contos,
os pontos primordiais,
as frases viscerais,
palavras com seus devidos sais e temperos.
Livrai-me dos demais números...

Do Belo e dos belos,
me melo e atropelo, atrapalho-me.
Mesclo sentidos e intentos,
tento me recompor, acalmar o tambor, aplacar os ventos,
ao relento!

Prazeres sem prazo, sem pressa...
Que me jure o acaso, mais nenhuma promessa!
A véspera grita o rio raso,
e eu prefiro o vaso cheio

a uma bacia e uma ilha ao meio.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Costelas I


Vim de um fim passageiro,
passageira dos sins e nãos da vida,
cortejada no centro
e esquecida na avenida
pelo motorista ávido.

Vim de mais um romance incerto,
certa de que por perto só quero a mim.
Enfim, mais um aperto no coração
e a sensação da sôfrega solidão,
porém alívio.

Vim vindo, vendo as paisagens.
Vendo mais do que imagens,
tudo o que me resta, que não é muito,
mas dá para saciar aos olhos.
E algo mais, talvez.

Vim de contos avulsos,
sou alvo de impulsos alheios,
prato cheio, acompanho passeios
com o certo receio
que todos têm na tez.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Calão


- Eu tenho vivido situações que se eu te contasse você não acreditaria.
- Por que você não tenta? Talvez eu acredite...
- Mas talvez, se eu partilhar minha fascinação, posso perdê-la.
- Ou talvez você possa contagiar-me. Seria interessante.
- A curiosidade tenta o casto. Há um tanto de luxúria em dizer mais que o necessário.
- Você já pecou hoje.
- Sim, perdoe-me pelo diálogo impertinente.
- Incômodos à parte, o perdão é arte. Eu só não entendo essa sua resistência em se abrir para os outros...
- Não é questão de me abrir, é questão de banalizar algo sagrado. Eu não sei se eu teria vocabulário para convidá-lo à minha galeria experiencial sem que a visita se tornasse algo tedioso. E a questão não é o que você vai experimentar, mas como a sua experiência afeta a experiência primária. É uma relação ambígua onde causa e efeito diluem-se, perdem suas definições.
- Mas, ao mesmo tempo, você sente esse impulso de querer exibir o belo. Seu belo. Sem saber se ele só o é, realmente, aos olhos dos outros. E o impasse transcende o silêncio, à beira do profano.
- Debruçar sobre o abismo nos suscita as questões relevantes de nossa existência. Por vezes nos deparamos com formas de cruzá-lo sem que deixemos muita da nossa bagagem para trás; outras, no entanto, exigir-nos-ia um sacrifício do qual não nos dispomos a cometer.
- É questão de vocabulário, então?

- Temo que sim.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

IV*

(*) O contexto acabou encorpando-se muito mais do que o esperado, portanto os títulos serão numerações em algarismos romanos. Fascículos anteriores: a conclusão de um capítulo,  passagens de uma história nunca escrita & outras passagens.

E nunca ousaram perguntar-lhe
quais as dores e as delícias
 de se poder fabricar sonhos.
 Mas ele as sabia bem.
 E as enumeraria
 assim que fosse necessário.
 Tudo em seu tempo.
 Estraño.

Dúvidas deixam sombras marcadas. Da mesma forma que o sol do meio dia o faz sobre a pele do trabalhador rural. E o imaginário popular inquieta-se diante das questões levantadas em voz baixa. Por que, nas vilas, gritam-se apenas os preços da feira, que já não interessam a ninguém. E quanto às fofocas, o alvoroço de uma cidade ávida por compartilhar aquilo que não lhes pertence. Afinal, de fato, o que é seu é meu, e esta é a lei da selva.
Quando adentrou à cidadezinha aquela figura inusitada a curiosidade se manifestou instantaneamente em olhares surpresos e línguas que não podiam ser contidas.  Os trapos surrados revelavam o rosto de um homem velho, de barba grisalha já comprida, e um modo de andar arrastado que tornava-o ainda mais excêntrico. Ele evitou a multidão e, sem sequer levantar o olhar, contornou os estabelecimentos para longe dos feirantes. O burburinho característico recomeçava e agora já tinha um novo assunto.
Passaram-se dois dias desde que o homem havia chegado à cidadela e a dúvida persistia: a quê viera tal figura? A população inquietava-se e especulava suas maldades enquanto outros, mais audaciosos, sondavam o que podiam. O dono da pequena estalagem que abrigava os viajantes menos abonados recebera o hóspede e com ele, as perguntas acerca de seus hábitos. Mas homem honesto que era não revelou qualquer segredo, pois prezava a ética acima de tudo e não se misturava com os porcos hábitos comuns, como dizia. Foi alvo de ofensas e ameaças, mas estava acostumado e não se deixou intimidar.
A cidade seguia em seu ritmo normal em que as pessoas sempre se ocupavam do nada e levavam sua vida lenta e desprovida de propósitos práticos. As preocupações não lhes pertenciam e talvez fosse isso que tornasse aquele ambiente amiúde tão agradável, mas, em essência, inquietantemente estagnado. O viajante recém-chegado, e permaneceria com esse título por algum tempo, já que a cidade não contava com muitas novidades, havia perdido alguma popularidade devido ao seu desaparecimento. Já havia mais de um mês desde sua única aparição pública e muitos já não davam tanta importância ao caso, querendo fofocar sobre quem se podia ver pelas ruas.  Mas também havia sempre quem suscitasse a questão e promovesse suas lembranças e estórias, dizendo que ele havia ido embora pela madrugada ou que ele havia morrido no quarto da hospedaria e que o velho dono não se pronunciou para não espantar a freguesia. Apesar de todas as maledicências o viajante permanecia hospedado na estalagem, e com o passar do tempo o povo o foi se esquecendo e suas memórias acabaram por se tornarem uma espécie de lenda urbana, se muito.
Certo dia uma moça com uma larga mala de mão cruzou os limites da cidade, despertando a atenção de quem estava na rua. Muito simpática e ligeiramente desinformada perguntou ao primeiro que viu ter uma feição prestativa onde se localizava o antiquário pelo qual aquele lugar era famoso na região. O caso era que o antiquário em questão havia encerrado suas atividades havia alguns meses e o dono da loja mudara-se da cidade, deixando apenas um estabelecimento vazio para ser ocupado por quem quisesse. A moça, desanimada, perguntou por sugestões de lugares em que ela poderia se hospedar e foi dessa forma que ela acabou por se instalar no quarto vizinho ao do velho viajante que já mofava na pequena estalagem.
O lugar era inspirador. Apesar do tamanho dos quartos, a casa possuía um corredor que os reunia e desembocava numa sala de convívio onde apenas os hóspedes podiam frequentar. No outro canto havia um pequeno refeitório e uma cozinha, livre para o uso de todos, e a recepção num cômodo ao lado que tinha as portas para a rua. A moça logo se sentiu encantada com o lugar e preencheu a última vaga disponível. De tão satisfeita chegou até a bendizer, em voz alta, o acaso por tê-la levado até ali. E o velho escutou. E foi quando começaram a conversa que embaralharia algo mais do que apenas os rumos dos dois.
- A senhorita quer um conselho?
- Eu?
- É.
- Bem... Claro... Acho que não seria polido recusar.
- Pois não fique atribuindo vida às suas escolhas. Você pode acabar perdendo o controle dos eventos que te acontecem.
- Perdão, eu não sei se eu te entendi...
- Entendeu. Não chame de acaso o que é decisão sua. Tínhamos um encontro marcado, essa conversa não é fruto de meras desventuras.
- Então o senhor está me dizendo que eu já sabia da falência do antiquário e que vim à cidade exclusivamente para vê-lo?
- É.
- Com todo o respeito, eu não sairia de minha cidade só para que o senhor me advertisse sobre acasos e contratempos.
- Mas não é sobre isso que vamos conversar. Esse foi só um ponto que me pareceu interessante adverti-la.
- Pois então, qual o assunto tão importante que me trouxe até aqui?
- O objeto que você veio buscar. De fato você não sabia do fechamento do antiquário, mas veio buscar algo e sabia que ia encontrar pistas por aqui. Pois então, eu tenho algumas direções para você.
- Desculpe-me por todas essas perguntas e, sim, alguma dose de descrença que possa ter transparecido, mas como o senhor sabe o que estou buscando?
- Não se desculpe, a gente demora mesmo para se acostumar com essas situações. Eu não vou me alongar, serei direto: sei que você não busca um objeto, mas sim uma pessoa. E sei o por quê de não ter perguntado informações quando soube do fechamento da loja. O interessante é que eu não vejo tanta decepção em sua feição, mas mais um contentamento, como se já esperasse por isso.
- Não... Eu não sabia... Mas...
- Talvez você não se desse conta. Mas, enfim, não me sonde, atenha-se ao necessário, devemos ser sucintos ao tratar sobre isso. Ele saiu da cidade pouco antes da loja fechar. Parece que ele sabia das complicações vindouras, voltou para a cidade onde a mãe foi velada.
- E a loja?
- Fechou. A curiosidade é traiçoeira. E as paredes por aqui parecem ter mais do que apenas ouvidos.
- Perdão.
- Mas você ainda não está satisfeita, há algo mais...
- As paredes...
- Entendo.
- Mas acho que te encontrei.
- Sim.
- Eu tenho um sonho.
- Eu sei, falaremos sobre isso.
- Quando?
- Em breve.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Informalidade

Amores de corredores passageiros como as cores do arco-íris quando cessa a tempestade

O céu aberto, límpido, revela a majestade; a moça um sorriso de quase-intimidade.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Emenda

Ponto em que duas peças se juntam.

As palavras que escrevo ondulam na folha branca.

Resolvi rascunhar como prova para posteridade. Acho a caligrafia mais sincera e romântica, então achei oportuno. Não garanto que seja mais bonito, mesmo por que as rasuras você não verá, mas as palavras ajuntadas na tinta azul, em meus traços tortuosos, me enchem os olhos e preenchem este vazio que as poesias de hoje possuem.

Tomo cautela com o simples, pois o sei voraz: síntese de tanto, palatável apenas ao apreço, custa caro. Assim se faz o Amor ao leigo de muitas palavras, inexprimível.
Mas eu tinha de rabiscar o papel.

Deixei marcado o seu nome nas entrelinhas, e só esta frase atestada – dispensável, eu acho.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Os Outros

Dizeis-me incompreensível
Ó, não achais que este é um privilégio apenas teu!
Não me entender é muito fácil:
Exige apenas um punhado de conformismo
E a ausência de empatia.

Viver para si é honrado
Mas, por vezes,
Resulta em indelicadeza.
E é preciso ser delicado para apreciar-se.

Entender-me, porém, também não é vantagem.
É pressuposta a liberdade que os arrogantes acham que detém
E liberdade diz respeito a uma profundeza de espírito tão aquém do mundo
Que diz muito sobre incompreensão.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Âmago Amargo

Severo, pois vês-me as sombras da face e lês as linhas dos calos.
Rude quando a voz é velada e a frase é curta.
Felizes os mistérios, que ganham o mundo sem desnudarem-se e povoam as bocas pelas fantasias.
Pois não seria o deleite mera provocação?

Íntimo, além de mim.
Quando desconheces-me é quando sou;

E quando sou, uivo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Desuso

Você não quer ser vulgar. Eu não quero ser trivial, posso ser usual. Precário. Há êxito em ser notável! Depende pelo quê. Diálogos são mais fáceis... Mas este não é um diálogo. É um monólogo. Não está vendo que não há aspas ou travessões? Mas por que isso agora? Você estava abusando das regras. Como abusando das regras?! Você estava criando muitas personagens e deixando-as soltas por aí. Ninguém quer vagar a esmo, ser personalidade errante. Você não pode simplesmente animar as palavras e depois desanimá-las... Mas eu não as desanimei! DESÂNIMO, tédio, ócio. Entendeu agora? Insatisfação? Sim, legítima. Como assim?! Como não? Questione suas criações, ó céus! Eu sei como elas se sentem! Ledo engano!  Sabe do contexto, não sabe do abandono! Enfim, elas alegam invalidade. É grave? É uma espécie de rebelião. Você sabe, as palavras são perigosas... Sei. Bem, eu poderia... ajuntá-las todas numa única história, meio que unificando o contexto delas... Uma intertextualização, literalmente! Em forma de diálogo? Sim, tornaria as coisas mais simples... E muitas delas não têm limites bem definidos, resumindo-se a formas de falar e posicionamentos ideológicos. Está vendo? É disso que estamos falando! É esse o motivo do tumulto! Simplicidade? DESCARACTERIZAÇÃO. Que tal? Bem... Pensando por esse lado... Não há lados, só há eufemismo da sua parte. Isso é abuso de linguagem, entendeu? Mas a gente gosta do jeito que você floreia! Um jardim suspenso então? Agora está falando a minha língua! Uma torre de Babel, enorme! Quase um trava-línguas! Isso! Talvez um quebra-cabeça monumental! Sim... Mas, afinal, quem é você?! O porta-voz deles?! Não, garoto. Essa parte não ficou clara, não é? Eu sou o seu porta-voz. Eu tenho livre acesso por aqui. Só estou tentando te livrar dessa enrascada. Sabe? Você deixa muitas sombras por onde passa...


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O que é, o que é?

A princípio era o mais distante dos distantes.
Posteriormente, foi o mais próximo dos próximos.
Agora já não usa de superlativos
E depois não se valerá nem de metáforas.

domingo, 28 de julho de 2013

Oratória



Os homens usam de palavras bonitas
para ilustrarem seus caprichos
contrários às leis da natureza,

mas calam-se ao depararem-se
com o silêncio universal,
que é a linguagem dos anjos -

tão bela quanto irrefutável.


segunda-feira, 22 de julho de 2013

Ritmo


- Houve uma época em que eu achava que tudo isso era um grande desperdício...
- Tudo isso o quê? A feira?
- Não só a feira, a vida como um todo. As pessoas, as artes, o trabalho, tudo. Houve um tempo em que eu não via sentido nas coisas senão em fazer exatamente o que eu quisesse, da maneira como eu quisesse e no tempo em que eu bem entendesse. Achava que a vida era muito curta e a última coisa que eu queria ser era um mártir.
- A inconsequência é o combustível da juventude. Isso é normal, as grandes personalidades passam por essas turbulências...
- As grandes personalidades são apenas mais um desdobramento dessa mesma mediocridade. Aliás, só o fato de serem grandes personalidades já é o suficiente para ridicularizá-las, quando a expressão ingenuamente nos diminui! Penso eu que quem é grande não subjuga ninguém, muito pelo contrário.
- Eu só quis ser gentil. Você sabe, não há neste mundo que justifique o remorso...
- De fato. Mas já parou para pensar o quão engraçada a vergonha é? Cumpre seu papel tanto, por oras, restringindo-nos, quanto, por outras, impelindo-nos a reviravoltas.
- E os tímidos nunca experimentaram um vexame, isso que é ironia!
- Pois nessa época eu pensava que as personalidades deviam ser equilibradas, quase como num comunismo emocional. E hoje vejo o quanto isso nos tornaria impessoais e, consequentemente, estáticos.
- Então me conta o destino do garoto niilista com seus desvairos hedônicos e qual a vergonha que marcou a reviravolta em sua vida.
- Bem, eu era apenas um rapaz que havia se deixado mimar pela vida. Não que eu tivesse condições de possuir muitas coisas, não foi no sentido material em que fui mimado, mas no filosófico estritamente. Eu me chamaria de idiota sem muitos rodeios. Sustentando uma espécie de arrogância universal, coletiva, um antropocentrismo maquiado de descaso. Eu vivia a minha existência limitada sem me dar conta de que a mesquinhez amargava o fruto que tanto me apetecia e do qual eu bem dizia sem de nada desconfiar.
- Mas o amadurecimento é inevitável. E faz com que provemos novos sabores.
- Ou pelo menos refina nosso gosto. Sim, isso era o que eu ignorava. Infeliz de mim naquela imobilidade que é superficialmente confortável. E eu não sabia, não enxergava a evolução inexorável, e por isso me deleitava vegetativamente. Sabe? A transformação é uma fatalidade cuja resultante é a liberdade. Mesmo os paradoxos respeitam a impermanência, quem dirá um verme pretensioso.
- Ei! Não seja tão rude consigo. Agredir o seu passado é amaldiçoar o seu porvir.
- Perdão, acho que eu me exaltei um pouco! Pois bem, talvez fosse radical a minha posição e talvez eu soubesse que era diferente dos demais. Eu me importava com o aproveitamento, eu cultuava o meu livre-arbítrio e eu não achava que as pessoas comuns pudessem entender a minha posição, até me dar conta de que a grande maioria da população partilhava das minhas ideias. À medida que isso se confirmava, o fruto que me era tão prazeroso apodrecia e já não me deleitava. Foi a primeira vergonha que me fez rever meus hábitos.
- E aqui temos a reviravolta?
- Sim, a primeira delas. Foi quando eu conheci o significado de responsabilidade social. Ainda muito teórica, mas já distante do dicionário e dos livros que tentam decodificar o termo, eu senti o primeiro sabor daquilo que nada mais era do que uma ramificação da compaixão simples e pura.
- Compaixão diz muito sobre evolução.
- Também sobre grandes personalidades.
- Acho que eu estou começando a entender a sua história. Continue, por favor.
- O antropocentrismo coletivo ao qual eu havia me referido foi começando a se diluir a medida que eu vislumbrava que a evolução tinha seu ritmo próprio e que eu começava a marchar em sinergia à ela. Eu começava a entender que a humanidade, em sua maioria, era arrastada por esse desenvolvimento que era a média entre quem se esforçava e quem se deixava levar. Finalmente eu começava a me sentir útil, pensando em como eu poderia auxiliar a sociedade do meu jeito.
- Aí vem a raiz da palavra política, não é? Relacionamentos, organização, administração...
- Sim. E eu comecei a me envolver tanto com a tal responsabilidade social que eu julgava conhece-la demasiadamente. Aí vem a época em que eu deixava de ser um arrogante passivo para me tornar um arrogante ativo, descriminando aqueles que eu não acreditava acrescentarem à evolução do mundo. Nesses anos, mais precisamente, foi que eu desacreditei nos demais. Foi a época em que eu era amargo e desgostava da feira, do trabalho, dos estilos de vida diferentes dos meus e, principalmente, das ideias opostas.
- Um “revolucionário”.
- Com ênfase nas aspas.
- Claro, só para ser simpático.
- Pois se antes eu era um idiota, agora eu era um chato. E essas descriminações atuais já deviam ter sido superadas, mas eu as coloco aqui apenas a título de ilustração da minha pessoa. De forma alguma eu gostaria de causar algum mal-entendido!
- Sim, eu lhe entendo! Só me dói que você criticasse a feira!
- A feira tinha lá seu papel social, e era um meio dos proletários sub-existirem, mas era uma atração estritamente burguesa. Falo no passado, por que essas seriam as minhas palavras da época. Eu não deixei de pensar isso, apenas não manifesto minha opinião com desgosto, com o descaso característico.
- E o que houve com o pseudo revolucionário materialista e prepotente?
- Esbarrou-se com a postura. Foi quando eu percebi que a responsabilidade social que eu venerava estava imposta a todo cidadão e participava de todo ato construtivo, seja no âmbito público ou privado. Foi quando eu percebi que o cidadão que eu chamava analfabeto político e que era inconsciente de sua exploração poderia contribuir mais à aclamada evolução do que um mero militante verborrágico, por que ele fazia jus à sua essência. É claro que eu vi que a grande maioria estava preocupada apenas consigo mesma e que não havia uma intenção de revolução ou ao menos de fazer algo pelos demais, mas eu vi que o desenvolvimento regia seus atos organicamente, mesmo que essa força não fosse do conhecimento deles.
- Como assim? Agora você está colocando Deus na história e atribuindo-Lhe méritos pela sua redenção? Você se converteu e agora vê propósito em tudo, aquele fatalismo do qual falávamos há pouco?
- De forma alguma. Quando deparei-me com a postura, eu senti vergonha de tentar ser o que eu não era. De fato eu me preocupava com os demais mais do que eles próprios, mas eu fazia um esforço descomunal para manter ideais e eu não estava me sentindo sincero comigo mesmo. A segunda reviravolta me fez perceber que há outras formas de atuar na mudança de concepção das pessoas e contribuir com a evolução sem precisar ser rude, prepotente ou preconceituoso. Foi quando eu percebi que havia algo que eu podia fazer que se encaixava perfeitamente nas minhas necessidades e vontades.
- Mas você atribui essa descoberta à providência divina? Você acha que isso é um sinal de Deus para você e essas coisas?
- Nós não estamos aqui para discutir crenças, e isso foi uma das coisas que eu aprendi quando deparei-me com a postura, mas como estamos apenas os dois aqui e já nutrimos, eu presumo, de uma certa intimidade, deixe-me esclarecer-lhe alguns pontos?
- Eu ficaria feliz.
- Se cada uma dessas pessoas da feira se encontrassem no exato estado de espírito em que eu me sinto, e talvez ele seja indescritível, mas você pode tentar imaginá-lo, você não acha que a convicção delas em estar movimentando harmonicamente a engrenagem do desenvolvimento é o suficiente para supormos que isso é realidade? Eu quero dizer: imagine que nada disso é real e que a única coisa que importa é o estado de espírito delas. Se todas elas vibrassem satisfação acho que isso seria o que a gente chamou de responsabilidade social, não é?
- Sem dúvida alguma.

- Acho que o livre-arbítrio se refere muito mais às suas crenças do que aos seus atos. Sabe? Você pode chamar do que quiser e mesmo as palavras são limitadas. Só não subjugue ninguém por que isso é colocar-se abaixo dos seus próprios conceitos.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sugestivo

Carlos havia se cansado da timidez. Eram companheiros, ele bem sabia, e honrava a dádiva da invisibilidade como podia, mas quando viu-se passar desapercebido até pelos seus próprios pais, viu o fardo que carregava.
Era um garoto bastante observador e não ser notado nos ambientes era um benefício, porém ele estava certo de que não queria ser uma sombra pelo resto da vida. O voyeurismo até tinha suas vantagens, mas Carlos buscava interação, algo mais dinâmico. E foi pensando em como poderia socializar-se mais facilmente que encontrou uma solução bem-humorada: incluiria o mundo que o cercava num jogo de esconde-esconde.
A decisão de Carlos não o fez mais perceptível, mas estimulou-o a lidar com as pessoas que só o notavam tardiamente no mesmo local que elas. Por vezes, ele já dividia o ambiente com alguém há horas e só então vinha o susto de estarem em sua presença: “Ó! Você está aí?!”.
A surpresa das pessoas o divertia e ele imaginava como elas podiam se distrair tão facilmente ao ponto de não o notarem de nenhum jeito. Havia quem entrasse e saísse de uma sala sem sequer vê-lo e estes ele tomava por perdedores. Quanto aos outros, os que se davam conta do garoto, considerava-os bons jogadores e respondia comicamente às suas interjeições: “Não há nada que se possa fazer, eu sou onipresente!”.
Dessa forma, Carlos, apesar de desapercebido, já era figura notável e comentada entre os frequentadores de bibliotecas, cafés, lojas e outros ambientes em que os olhos pudessem pregar peças e fazer estes truques de ilusões de ótica que são as distrações em geral. O garoto ganhou um tom desinibido e passava a expressar sua irreverência, sem se preocupar com sua timidez. Enfim, já não havia espaços para ser anônimo.

Foi em um belo dia, no entanto, desses em que as ironias se confundem com convicções, que Carlos acordou um tanto estranho. Alegava sentir-se em muitos lugares ao mesmo tempo.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Conduto

Quem foi que se perdeu em meio à minha selva e acabou emaranhado em meus galhos tortuosos? Fez-se mais selvagem que o mais estranho personagem e aderiu ao jogo perigoso.

Quem foi que, atordoado com a frase bem tecida, recriou a sua vida em detalhes rigorosos? E acabou por ver-se pontuado com esmero, e no que achava leviano viu o quão laborioso.

domingo, 30 de junho de 2013

Réplica


- Você se machucou?
- Não, eu estou bem. Até então...
- É uma pena... Digo, o espelho ter quebrado.
- Sim. Penso que as coisas vão piorar daqui pra frente, então um espelho quebrado é pontual para marcar o início de uma desgraça.
- É um começo... Mas acho que as grandes tragédias não devem principiar-se com a queda de espelhos, por que isso lhes tiraria o mérito. Além disso, marcos são exclusivamente voluntários, entende? Como os brindes: o estalar das taças só tem valor por que atribuímos a ele.
- Obrigada, mas você não está me animando.
- Pois bem, você acredita em acaso?
- Já acreditei.
- E o que a fez desacreditar?
- A lógica.
- Então tenho o prazer de conversar com uma desperta? Isso é bom!
- O que você quer dizer?
- Bem, a grande maioria das pessoas decide sua crença arbitrariamente, quase que irresponsáveis, e é isso o que faz de seus pensamentos meras crenças e dá à palavra o sentido denotativo que experimentamos hoje. No entanto, toda e qualquer concepção é uma crença. Até então estamos de acordo?
- Explique um pouco melhor...
- Concordamos que realidade é convenção? Que esta cena, esta conversa, existe de, pelo menos, dois pontos de vista diferente e que cada um deles é uma crença pessoal?
- Bem, sim...
- Pois então nada é verdadeiro, já que não existe uma realidade comunitária.
- De fato...
- E tudo é permitido se a crença é livre?
- Pode-se dizer que sim.
- Sim. E aí chegamos às experimentações. Essa é a melhor parte! Se eu sei que você desacredita no acaso pela lógica, então é por que acredita em causas!
- Isso. Por que não há fins sem início. E se a desgraça é um fim, o espelho é um início.
- Calma, não atropele as coisas! Veja bem, diante da ideia de causa e efeito e de inícios e fins, o que você pensaria da ideia de eternidade?
- Eternidade? Bem, dizemos que só o Senhor é eterno...
- Vamos colocar como o Maior é eterno, podemos? Pois bem, então o Maior transcende o tempo e o espaço. Eu diria que “eternidade” é uma figura de linguagem. Concordamos?
- Uma figura de linguagem? Você quer dizer que o Maior tem um fim? Seria uma blasfêmia...
- Ou poderia se referir à nossa capacidade sensorial limitada. Eu não coloquei final ou início algum, apenas insinuei que a linguagem é incapaz de descrever o sutil. As palavras têm sua utilidade, bem o sei: é uma das formas de fazer do espesso o sutil...
- A Grande Obra...
- Sim. Mas mesmo realizando-A, é impossível descrevê-la. Não é verdade?
- Eu seria incapaz de lhe dizer.
- Eu sei que sim. Por que, como dissemos, palavras não são suficientes. Mas voltemos aos marcos, agora que já não te vejo mais tão pessimista! Posso dizer que o humor de uma pessoa ou a tendência com que ela escolhe enxergar a vida altera suas decisões e o desencadeamento dos fatos?
- Definitivamente.
- Mas você concordou também quando eu disse que escolhemos nosso humor?
- Eu não havia parado para pensar nisso, mas faz sentido sim.
- Está vendo? É uma desperta! É muito bom conversar com gente assim! E você saberia me dizer o porquê de ser tão pessimista por vezes?
- Essa é uma questão pessoal?
- Não. É uma questão filosófica. E eu estou afirmando, mesmo não a conhecendo devidamente.
- Eu não sou tão pessimista assim.
- Por que não é tão observadora quanto deveria. O pessimista, como o otimista, o são por saberem observar oportunidades mais do que os demais. O que difere entre eles é a forma como vão trabalhar os fatos observados. Quando te chamo de pessimista, portanto, lhe chamo de observadora. Encare como um elogio.
- Encararei.
- Daí voltamos à questão dos marcos, lembra-se? Volto-lhe a afirmar que a existência de um marco depende da voluntariedade.
- E aí voltamos ao ponto de que cada um de nós é um universo.
- Exatamente, minha menina! Seus marcos só o são para você e não podem ser casuais, por que desfizemos a casualidade agora há pouco, não é verdade?! E seu humor é o reflexo do seu sucesso com suas escolhas.
- Escolhi mal, então. Eu sei, mas acontece que as coisas andam difíceis, e às vezes a superstição nos encontra na hora certa, não é verdade?
- É? Ou seríamos nós quem encontramos lugar para a superstição?
- Talvez eu seja muito abrupta...
- Não seja! Olha, uma vez eu conheci um moço que me contou um segredo a respeito das superstições do espelho...
- Você quer dizer a respeito dos sete anos de azar?
- Não, eu estou falando do reflexo do vidro, como eu te disse um pouco mais cedo.
- E o que tem o reflexo?
- Bem, o meu amigo diz que se na queda, ou pelo motivo que for o espelho não estiver refletindo sua face quando ele se estilhaçar, não há problema algum, não há azar.
- Mas como eu vou saber se o espelho estava refletindo o meu rosto quando ele espatifou?

- A questão é outra: você admite o azar?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Éter

Um dia nos damos conta
De que tudo é sobreposição

Aquém do íntimo, apenas ilusão.
O que é, afinal,
Um Teatro de Sombras,
Se não a própria imaginação?

As arestas podadas voltam a crescer,
Numa vã rebeldia pontiaguda.
E no aparo, o amparo.
Quando os ímpares vêm-se pares.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Inacessível

tentativa não é atentado.
& alienação de Vontade
é desejo frustrado.

Sorte: e nem assim.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Amanda e o Amando.

Não era lá um Amor,
posto que este pressupõe algo
muito definitivo.

Mas era um Amando,
com seu gerúndio indefinido
e seu prazo de validade
a contar...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Empatia

"Eu sou o que dá certo"

Palavras que nunca foram proferidas, mas que atribuo àquele que dialoga pelo espontâneo.
E se o faço, bem sei o que faço,
Pois eu também sou o que dá certo.
E este é, sempre, só mais um começo...



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Desaire



Imposições encurralam-nos em interjeições,
seja em expressões, vícios de linguagem, ou em bordões
não há mais espaço
para condimentos ou condições.


Vivemos em polaridades sem saber nos contermos e desconhecemos a comunhão conosco.
O deslize leva-nos às extremidades num desequilíbrio vicioso.
E sobram-nos conselhos, pois faltam-nos espelhos.


As frases publicitárias bordadas em blusas que se contradizem constantemente são a propaganda de um mundo em inércia que não sabe se "relaxa e goza" ou se "corre atrás de seus sonhos"...

Caso a indecisão persista, fique atento às etiquetas.


terça-feira, 14 de maio de 2013

Fértil


Somo quando semeio anseios de sermos como somos:
Mais que meios, mais que donos de pedaços, traços ou riscos.
Opero em equações diretas, equalizações de velhos discos.
Ópera em esfera popular, façamos de risos riscos!
Ricos em pedaços, recortes de tempo-espaço intato
Inato floreio ao Sol que nos cerca:
que eu me perca além da cerca...

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Esfinge



Decifra-me.
Ela sabe de alguma coisa que eu não sei.
A forma como ela mede o mundo com os olhos e o sorriso silencioso que dispensa a cada pessoa que cruza seu caminho me deixa intrigado. Sei que ela não quer nada com ninguém e sinto até algum desprezo pelos demais em sua postura que revela sua superioridade implicitamente. De simpatia sutil e distante de todos, ela passa despercebida diariamente. Introvertida em seu humor enigmático, a voz dela é quase um mistério. Seria uma ordinária garota tímida, não fosse pela segurança que seus passos lhe conferem. Seria, para mim, mais um rosto familiar do cotidiano, não fosse aquele olhar cauteloso que me desconcerta em especial.  Ela sabe de alguma coisa, eu sei.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Vulgar


 “[...] a experiência visionária é algo que transcende as palavras e deve ser evocada por percepção direta, sem estágios intermediários [...]”
Portas da Percepção Aldous Huxkley

Muito já foi dito a respeito de que os dizeres não chegam ao muito. Palavras nunca são suficientes e diz-se demais querendo se dizer menos.
O estado de síntese ao qual nos condicionamos, vivendo de representações e símbolos que imaginamos resumir nossa experiência é incompetente nas traduções de nossas situações cotidianas. Mas mesmo essa percepção não é inédita e a própria contradição já está instaurada estruturalmente em nosso padrão comportamental.
Digo isso para chegar às palavras importadas e aos conceitos que perdem seus sentidos quando tornam-se sintéticos – de tão sintetizados para serem transmitidos exotericamente.
Quando se especula de que existem conhecimentos presos e que não são todos que têm acesso a eles eu entendo como uma inferência à possibilidade de não possuirmos tudo o que necessitamos no exato presente, e disso eu discordo veementemente. Acredito em um conhecimento livre, ao alcance de todos por meio da confecção de pontes individuais, ou seja, uma auto capacitação. Não acredito, no entanto, em pontes coletivas que possam abranger aos leigos de forma definitiva, principalmente por pensar que essa relação viola a lei de troca da natureza, em que o atravessador faz um esforço solitário para um suposto resultado comum. Mesmo Caronte era afeiçoado ao ouro.
Somos levados à problematização peculiar que é os termos entrarem em moda, mas sua significação original permanecer obscura sendo substituída por um conceito mais palpável às massas, como é o caso do desapego que se tornou sinônimo de libertinagem – ou algo parecido...
Mas não me alongarei nessa questão por dois motivos: o primeiro, a ineficácia das palavras; o segundo, meu desapego. Afinal, ando em comunhão comigo e não com as palavras das bocas dos outros.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Achado


Eu só tinha alguns trocados no bolso e a vontade de levar-lhe alguma coisa.

Quando roubei aquela rosa, pensei que cometia o maior pecado do mundo. Roubava-a da praça para levá-la comigo ao meu amor. E me quedei a pensar que longe dos olhares do público ela encantaria somente à minha garota e que talvez este fosse um ato de egoísmo exacerbado e que fosse uma pena que os demais não pudessem vê-la depois de meu crime.
Mas pensei também que estes não poderiam ver o seu sorriso e a sua surpresa, tão mais sinceros do que os olhares dos passantes, que talvez nem notassem a solitária rosa, distraídos que são em suas caminhadas pela praça.
Então indaguei-me o por que de aquela rosa ter sido plantada ali. As flores cumprem seu papel estético? Tornaram-se meros elementos decorativos? E alguém chegou a pensar na função poética da rosa? Pois quando um amigo sugeriu-me este ser o ato mais romântico que ele podia pensar, soube que a dor da privação coletiva é a concepção da poesia.
E qual ápice mais lisonjeiro para a afanada rosa? Ainda que pertencesse agora àquelas mãos desajeitas, seu desfile era certeiro pelas ruas da cidade. Seja no ponto de ônibus ou na avenida principal até a casa da mulher que a receberia com estima, agora a rosa cumpria seu papel poético.

terça-feira, 16 de abril de 2013

terça-feira, 9 de abril de 2013

Opaco



O vidro da janela está extremamente sujo, mas ele só se dá conta disso quando interrompe seus pensamentos, olhando além do que há para ser visto em busca de inspiração. O horizonte turvo, mas pela névoa que impede o tato de seus olhos.
Não há muito para ser visto ali, mas a sensação de poder ter contato com o exterior é o suficiente para que ele elabore suas ideias em seu cubículo cotidiano. Ele não reclama da vida. Exceto quando não encontra ideias. Ele vive de ideias e precisa comercializá-las para continuar o seu trabalho, então ele acha chato quando se depara com essa situação de abstração, mas é apenas pelo fato de perder um pouco de seu tempo tentando reconstituir um estado de espírito que ele chama vulgarmente de criatividade.
Ele não é criativo de fato. E ele também não se sente mal por sua inação que marca os ápices de sua vida. Ele nem liga de referir-se à sua vida no singular, sendo constante demais em tudo para poder vivenciar outros túneis de realidade. Resume-se naquela criatividade trivial, da qual vangloria a conquista pelo hábito continuo de exercer sua imundice.
Ele não é desonesto, ou fanático, ou mesmo preconceituoso. Ele não foge do padrão do cidadão comum que acha que cumpre seu papel de responsabilidade social. Ele não cumpre.
O vidro da janela está extremamente sujo, e ele só o viu por que estava desperto. Às vezes essas epifanias ilustram a verdadeira criatividade, mas não nos damos conta disso. Confundimos com prorrogação ou incompetência da moça da limpeza.
O vidro sempre guarda um reflexo da gente, especialmente quando nos sentamos diante dele todos os dias.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Imemorável



Ao orador que não decorou o que havia de ser dito.

Logo eu, que não aprendo por repetências, mas na análise do conjunto. E quiseram fazer de mim o astro principal, com palavras anexadas à boca que deveriam ressoar mais do que minha própria voz.
Logo eu, que não abro mão de reticências, e em conformidade com minha essência, digo o que quero sem palavras de outrem! E ai de mim, das palavras minhas, que mesmo compostas, hão de ser mutantes: adaptam-se aos públicos.
Não, não sou eufêmico! Não me leve a mal, mas não me parece justa a proposta de amenizar a dor de quem escuta uma verdade. O que faço é aliar a vibração das letras com o que o ambiente pede. Não lido com estes discursos prontos, não sirvo de intérprete, nem sou mediador da experiência de uma plateia que não teve competência para chegar às suas próprias conclusões.
Exalto-me em altos e baixos e encaixo-me nas lacunas que vão chamar de silêncio, mas que vibram mais do que as curvas dos esses ao denominarem plurais e pecarem pelo excesso.
Deram-me parágrafos rígidos; falas falsas, dessas que falseiam mesmo no papel, quem dirá nos ouvidos de um público xoxo.
E eu nem sei quem são os convidados, mas descarto-os de antemão por que vim para fazer estardalhaço: não sou seu representante! Votem em si próprios! Eu vou dizer tudo, tim tim por tim tim, e com minhas palavras! Aguardem!

quarta-feira, 20 de março de 2013

A Conclusão de um Capítulo



Quando a história escreve-se a si própria.

- Conte-me sobre os vendedores de sonhos.
- Esqueça.
- Por que?
- É querer saber demasiado, jovem. Já não é mais data de falar sobre isso.
- Ouvi histórias de entusiastas pela vida fácil.
- Que seja. Todo mundo quer se livrar das dificuldades, isso não é pecado algum.
- Pois bem. Mas andam se afirmando vendedores de sonhos e eu soube que o senhor mantinha algumas estórias em sua memória. Eu gostaria de ouvi-las...
- Minha memória vai mal. E falam muito por aí, veja só o que você escuta! Considere ainda que vendedores por vendedores, deles o mundo anda cheio.
- O que quer dizer?
- Veja bem, há uma grande diferença entre os Fabricantes de Sonhos e estes vendedores dos quais você me fala. E, a não ser que você tenha escutado errado, vendedor de sonho é qualquer publicitário ou ilusionista, alguém que te estimule as expectativas com uma oratória boa.
- De fato. Constantemente tropeçamos nas palavras e alteramos sentidos.
- E “quem conta um conto aumenta um ponto”. Por isso faço-me mudo.
- Seus pontos me interessam. Por favor, eu tive alguns empecilhos em minha vinda e transpassei-os apenas para vir ter contigo. Quero saber tudo que você puder me dizer sobre, então, os Fabricantes de Sonhos.
- E já não lhe interessam os vendedores? Eu poderia, talvez, lhe ensinar a produzir fortunas apenas com a lábia e um traje chamativo... É mais fácil tornar-te ator do que deixar-te por dentro de assuntos complexos. E eu também me divertiria mais... Afinal, o que ganho perdendo meu tempo contigo?
- Você quer um incentivo?
- Sim.
- Eu não tenho nenhuma quantia significativa...
- E quem falou em moedas? Tampouco lhe exigirei o tempo, que é como os Antigos costumavam tratar suas negociações. Mas quero justificativas plausíveis. Se vou revirar os sigilos e levantar os véus dos mistérios sagrados, que eu saiba pelo quê estou me arriscando. E é bom que você seja plausível por que apenas o fato de estar interessado nesses segredos já é o suficiente para ser alvo de condenações e pragas do vilarejo.
- Mas nossa conversa não sairá daqui, não é?
- A minha discrição é notável, a delimitação desse diálogo só depende de você. Enfim, por que você não começa a me contar sua história e desafogar essa cabeça cheia de pensamentos inquietos?
- A primeira vez que eu ouvi a respeito dos Fabricantes de Sonhos, e até então eu não os conhecia por nenhum nome, eu ainda era pequeno. Na época, nos referíamos a eles como os Outros e eu lembro de sentir um certo medo quando falávamos deles. Meus antepassados tinham muito respeito ao abordar o tema e suas vozes eram sempre mais veladas ao contar os causos de pessoas conhecidas que tiveram algum contato com eles. Lembro-me que as histórias deixavam todos estupefatos e terminavam sempre com os conhecidos se dando muito bem, mas quem contava a história narrava este fato com uma infelicidade terrível em seu tom de voz e isso era o que mais me perturbava.
- Muito bem. E o que mais?
- Eu nunca soube dos detalhes e até pouco tempo atrás essas histórias haviam me caído no esquecimento, de forma que o tema realmente passou bastante tempo apagado de minhas memórias, assim como aconteceu com todas as pessoas com quem tenho tido contato. Mas houve um incidente que me despertou essas lembranças e desde então eu ando um tanto inquieto.
- Diz-me, que foi que lhe passou?
- Eu era vendedor de antiguidades num vilarejo um tanto distante daqui. E sei, sou jovem demais para lidar com antiquários, mas desde novo eu já me interessava por histórias e personalidades do passado. Meu fascínio me levou a colecionar objetos de diversas partes do mundo e das mais variadas épocas e foi assim que acabei nesse ramo. Mas certo dia havia um estranho de passagem pela vizinhança e ele me visitou em minha loja em busca de um determinado objeto o qual ele afirmava com muita convicção que eu o possuía. Tratava-se de um relógio de bolso que pertencera ao pai dele, mas ele não sabia me dar quaisquer detalhes sobre o relógio ou sobre o porquê de ele achar que eu o tinha comigo. Fazia algum tempo que eu não tinha relógios de qualquer tipo em minha loja e sempre que me aparecia algum modelo eles não duravam muito tempo em estoque, então eu me desculpei e disse que ele deveria estar enganado. Eu até poderia ter tido aquele relógio um dia, mas ele já fora vendido há muito tempo.
- Pois bem, relógios... Estamos começando a nos entender. Continue, por favor.
- Eu me interessei pelo homem. Ele não era nada familiar, não tinha nada chamativo em si, nem em simpatia, nem em algum destaque físico; não tinha um jeito de falar interessante e nem cara de ter muitas histórias para contar. Mas tinha o tom de voz que ele tinha usado comigo e que me dera uma impressão de uma sinceridade desesperada. Eu só queria saber de onde ele havia tirado a ideia de que eu possuía o que ele queria de volta. E, confesso, também queria saber a história do relógio... Talvez fosse a única que ele tivesse.
- Engana-se quando diminui os viajantes. Mas piora sua situação quando se envolve com a curiosidade. Nosso atrevimento, afinal, nos leva a caminhos muito estranhos...
- Sim, muito estranhos. Você sabe como termina a história?
- Faço uma ideia do desfecho. Ele conseguiu recuperar as memórias do pai dele?
- Pois aí é que está: o pai dele ainda era vivo, então quando ele voltou de sua empreitada mal sucedida ele se deparou com uma figura que o tratava ternamente, mas que ele não reconhecia. E foi nisso que as memórias foram se clareando e ele pôde eternizar seu pai. Mas o relógio ele havia perdido.
- Isso é bobagem. Memórias uma vez ceifadas não podem ser restituídas.
- Não foi o que ele me disse...
- Ele não lhe contou os fatos de forma específica. Ele não pôde reaver suas memórias, mas pôde reconhecer seu pai e partilhar das histórias que ele lhe contou. Ele não sabe quem foi o pai dele do momento do nascimento dele até o dia em que ele retornou à sua casa e foi apresentado a ele novamente.
- Mas por que apenas as memórias do pai?
- Por que era a pessoa por quem ele mais sentia afeto.
- Mas se ele não chegou a consumar o trato...
- Mas ele chegou a ter contato com o Fabricante de Sonhos e voltar atrás em seu desejo é provar indecisão. O Fabricante de Sonhos, cuja moeda é o tempo, não o perde em vão. Os Antigos, seus Outros, não costumam nem manifestarem-se para pessoas frívolas, mas este viajante do qual você me diz devia ter alguma excentricidade.
- O pai morrera dez anos antes da ocasião em que eu o conheci. Havia deixado um relógio de herança para ele e em uma de suas viagens posteriores ele perdera o objeto. Afirmou-me que a viagem em questão tinha sido a uma cidade próxima do vilarejo em que minha loja estava localizada e que o relógio poderia ter passado por minhas mãos, mas ele não soube nem me precisar a data em que isso ocorrera. Desde então vagava em busca daqueles ponteiros que carregavam o rosto de seu pai.
- E desde então ele nunca mais fora o mesmo.
- O que quer dizer com isso? Suas colocações são sempre muito vagas, eu fico perdido em suas palavras.
- Refiro-me ao modo como ele falava... Não era estranho? Como se ele vivesse em uma ilusão?
- Ele gaguejava demasiadamente e falava num nervosismo fora do comum. Possuía alguns tiques nervosos, mas nada muito alarmante. Eu não pude desconfiar como ele poderia ser antes da morte do pai.
- Não falo da morte do pai, falo da perda do relógio. E você sabe como são essas particularidades que adquirimos: passamos a conviver com elas tão costumeiramente que nos adaptamos a elas e as tornamos parte de nosso ser.
- E o sujeito era um trauma ambulante?
- Exatamente. Mas você tem um último pormenor que lhe aborrece demais. Qual é?
- Bem... Antes de sair da loja o homem se virou para trás e me confessou, em uma voz severa, que ele sonha com esse relógio todos os dias. E isso, ele ainda acrescentou, desde que ele se encontrou com o Fabricante de Sonhos... Muito, muito antes de o pai dele morrer.