segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Véspera


Você sorri.

Diz que o ano que vem vai ser bonito. Diz que vai ser bonito como o meu sorriso, e eu nem estou sorrindo. Diz que belas palavras selam compromissos e que você pode lê-las em meus lábios, mas eu estou calado. Diz que meus olhos te encantam, e eu os mantenho cerrados.

Estamos nus, deitados numa cama, deliciando o escuro, e eu estou refletindo: ou se intimida ou se intimida.

O escuro é assim: diante dele, ou estreitamos laços num ímpeto decisivo que nos põe à parte de quem somos, e aí há intimidade; ou os afrouxamos e nos esgueiramos por paredes, encurralados pela fatalidade que criamos no outro, e aí a timidez.

Eu, que levo metas a sério, já não me encosto em canto algum. Mas ai de mim que prometi ser mais paciente, quando disfarçava minha intolerância de introspecção. E eis que me disponho a compartilhar-me, ainda que inseguro destas decisões abruptas que me são cobradas pelo reflexo de minh’alma.

E nem preciso de luz para encantar-me com sua silhueta quando abro meus olhos. Ensaio algumas palavras que vão terminar num sorriso. Pois bem, é desnecessário mais do que isso. 


domingo, 23 de dezembro de 2012

Iniciação Lógica ao Nonsense


 ou Convergência de Paradoxos

Dizem que só se pode ser ofendido se nos permitirmos sê-lo. Pois a discórdia que nos é oferecida, descascada qualquer ofensa e o possível intuito de insulto, é um presente dos deuses.
Quando toda afirmativa é plural¹ e o racional nos impõe a lógica, a discórdia que nos faz entrar em conflito e superar as explicações automáticas é uma libertação e tem finalidade mediúnica, ao passo que nos faz enxergar outras possibilidades.
Se todos os caminhos levam ao mesmo lugar e apenas “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria”², que nos embebamos de causas e com efeito nos transcenderemos.
Pois proponho a discórdia, em todas as suas concepções!
E uma longa noite ao lado de Eris!
Brindemos?

___
¹ “Todas afirmações são verdadeiras em algum sentido, falsas em outro sentido, sem sentido em alguns sentidos, verdadeiro e falso em outros sentidos, falsas e absurdas em outros sentidos e verdadeiras e falsas e absurdas em alguns sentidos.” –  Principia Discordia
² Frase de William Blake em “O casamento do céu e do inferno.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Minha Teia De Inscrições



Minha Teia De Inscrições

Desde que eu era apenas um garoto minha mãe já acompanhava meus estudos impondo-me disciplina e cobrando-me ser ao menos semelhante à ela: uma verdadeira caxias. Eu nunca levei muito jeito para fazer o que não queria e confesso que nessa idade me era muito mais interessante sentir o mundo comportando-se diante de mim do que imergir-me em papéis e estudar o que a escola me propunha. É dessa época singular que provém os relatos e reflexões aqui contidos.
As redações da escola eram algo que me exigiam um certo esforço. Eu não sabia lidar com aquele tanto de regras de pontuações, apesar de ter me submetido bem aos tratos pavlovianos da ortografia e desde aqueles tempos já não errava uma palavra sequer. Quando sobravam-me respostas e parágrafos para serem elaborados em casa o fardo acompanhava-me e eu sentia-me na obrigação de desdobrar-me no idioma para conseguir uma tarefa satisfatória.
Até então tudo bem. O problema era realmente a redação. Minha mãe sempre insistiu comigo que se deve ter todo o texto planejado antes de se colocar a primeira palavra no papel. Eu não conseguia compreender o que era ter início, meio e fim já prontos sem que eu nem tivesse alcançado a minha linha de raciocínio.
O leitor pode considerar-me uma pessoa um tanto preguiçosa, desorganizada, ou até mesmo confiante demais por deixar-me desenrolar a história na medida em que ela vai acontecendo. Engana-se portanto: sou demasiado metódico e muito me agrada remoer-me em pensamentos buscando soluções para manutenção de algo antes de empenhar-me a realizar meu achado. O que acontece exclusivamente com a produção textual é que eu não consigo conceber esboços e acho-os muito sistemáticos.
Quando eu começo a escrever um texto eu busco uma linha de raciocínio que está a se desenvolver e sigo pelo ritmo dela. Às vezes a perco, é claro, então deleto parágrafos inteiros, até mesmo páginas... mas relendo o que escrevi eu a reencontro e prossigo na harmonia que ela dita. Este método confere-me um tom que poderia não existir em um texto que foi acomodado da forma como pôde por uma cabeça que quis impor sua vontade às palavras. Eu sinto que as palavras estão mais vivas e interagem como um todo, e não mecanizadas como me parece o outro processo proposto por minha ancestral.
De fato descobri que há muitas pessoas geniais que escrevem da forma como ela quis me ensinar e, afinal, ela lecionou o presente idioma por muitos anos da vida dela e foi considerada uma excelente profissional, sendo assim, acredito em sua didática. O que vim a verificar é que a forma como eu concebo a produção literária é uma das formas de desenvolver o pensamento rediático, enquanto que o planejamento peca pelo excesso de linearidade. Explico: o pensamento “em rede” é uma metáfora atual para a alinearidade presente que permeia-nos sem que possamos compreendê-la plenamente devido ao nosso cárcere perceptivo.
O que busco dizer é que quanto à produção de textos não há uma forma correta para composição, porém a livre-expressão – e aqui refiro-me às amarras do perfeccionismo – é espontânea e é isso que faz com que as palavras concordem entre si nos diversos meios em que se apresentam. O texto, que é apenas mais uma representação de uma realidade, deve ilustrá-la fidedignamente pois COEXISTE com sua inspiração. Da mesma forma, o autor ainda partilha desta mesma realidade em que está presente a sua obra e a sua percepção das coisas, então o mais leal seria trabalhar-se a fim de aproximar-se do mundo como ele realmente é.
Escrever, portanto, é responsabilizar-se por si. Mãe, eu me garanto.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Do Criador


e quando me vieram vender poesia na rua
dispensei-as, mas não por descaso:
o poeta é auto-suficiente em suas histórias.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Outras Passagens

mais retalhos de uma história nunca escrita.


- Pois então, posso lhe pagar com uma oração?
- Minha querida, eu não sei por onde você tem andado, mas nessa terra orações não enchem barriga.
- Mas enchem a alma, e eu vejo que você está precisando.
- Pois o propósito da oração não é o altruísmo? A dedicação ao mundo? Ore por mim sem precedentes ou meios termos! Do contrário, como poderei confiar em suas preces?
- A troca é essencial e compõe a convivência humana, mesmo a relação consigo próprio é pautada na equivalência. Há quem a perverta e atribua-lhe personalidades humanizando um processo natural, mas estes pecam por não aproveitarem as oportunidades que lhe são concedidas
- É engraçado falar de desperdício, pois apenas os dizeres vazios já ilustram o fato. Afinal, você veio até aqui para bater papo? Eu tenho compromissos latentes.
- Mas senhor, eu não tenho mais a oferecer do que eu mesma.
- Mas isso basta! Aliás, quero apenas parte do todo. Estou interessado em suas memórias...
- Minhas memórias? Quer que eu lhe conte casos? Faça resumos de minha longa trajetória de vida?
- Não, isso não dá certo comigo. Eu sou muito disperso, então não conseguiria absorver nada através de suas falas. Eu gostaria de ter contato com o material para poder apreciá-lo...
- Eu não sei se eu entendi, senhor.
- Não se preocupe. Eu venho fazendo isso há um longo tempo – há mais tempo do que você habita este plano - e tem dado certo desde sempre. Em um piscar de olhos tudo se resolve! Então sua cabeça está pronta para viver o sonho puro, sem preocupações vencidas e inoportunas.
- Alivia minha curiosidade e diz-me: memórias têm um prazo de validade?
- Não exatamente. Há quem as cultive e elas permanecem vívidas, como rosas em um jardim bem cuidado. Mas não devo me alongar nesse assunto, mesmo aqui as paredes têm ouvidos e mesmo eu tenho códigos de conduta pelos quais me pauto. O importante é lhe ressaltar que estes que vivem no passado não conseguem conceber bem o presente. E de que lhes serviriam os sonhos que fabrico se não pudessem gozar-lhes plenamente?
- E aí voltamos à natureza das trocas, assunto que já discursamos...
- É... Exatamente... Uma bela troca, não é? O que me diz? Parece-me que tomar-lhe estas memórias é um ato extremamente nobre de minha parte e muito me agrada lidar com estes passados. É um preço justo, não acha?
- Acho... Diz-me, pois, apenas mais uma coisa: e o senhor? Vive destas memórias?
- Não estamos aqui para falar de mim. Além disso, um Fabricante de Sonhos vê o tempo de uma forma distinta. Agora concentre-se no seu desejo, está bem claro em sua mente? É o que você quer, não é?
- Sim. Todos os detalhes, exatamente como lhe contei. É o que eu sempre quis e nunca pensei que se concretizaria...
- Chamamos de eterno a decisão que tomamos no último minuto. Fazemo-nos decisivos apenas para ostentar-nos, iludir nossa insegurança. Distorcemos o sempre para sempre. Mas não pense nisso! Eu sou da opinião de que quanto mais pensamos, mais infelizes somos. E isso torna caro o nosso contrato... Mas não é o que queremos, certo?
- Certo... Estou ansiosa, como há muito não me sentia!
- Muito bem! Eu só preciso que você assine nessa linha.
- E só?!
- Só. Isso basta.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Salvaguarda


Quando condições são estabelecidas
um desfavorecido o é por conta própria.
O jogo está sujeito a mudanças de regras imediatas:
joga quem quer.

A PREMISSA COMO PAUTA: a delimitação das intenções confecciona um perímetro comportamental. Sendo assim:


~
Para cada pronúncia de meu nome em vão,
Um espinho que atravesse o teu coração
&
Para cada pensamento que não condiz à minha essência
A inflação de tua pestilência
&
Em cada ato do qual eu for alvo
A certeza, amarga, de que estarei salvo
~


CAOS & EFEITO: aqui, eu dito o cacife.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Perséfone


O céu me beija em gotas.
E enquanto desmorona violento ao meu redor, comigo se faz suave.
A chuva me envolve tão sutil que provoca ciúmes, me desvia de compromissos & me afasta de meu lar. Os deuses andam enamorados & não há abrigos para a obsessão divina.
Não me oculto, portanto. A insensibilidade da ligeireza se desfaz à medida que freio-me & logo me quedo estático. Esculpido sob a tempestade sou obra do desejo & a garoa me alisa mansa.
Encoberto por véus cinzas, sou mistério inefável.
Monumento embebido em meio a um Éden.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Polar


Grafava imagens com gravidade e gravava as de seu agrado. Graduado pelo humor:
agridoce.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

À base de ração

O fetiche imposto ao seu animal de estimação o renderá, pelo menos, mais uma encarnação.
Aliás, este próprio adjetivo padrão é equivocado, uma vez que ele é símbolo de status, e não apreço.
Os grilhões estão na percepção, no ponto de vista. Eu não espero que você me entenda, por que se o fizer, o fará mal. Além do mais, você também deve reencarnar para, como diz o Eduardo Pinheiro, ver um pouco de televisão ou ter uma vasta coleção de selos...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tênue


  Arrebento mais uma linha por descuido. Eis a fragilidade da teia que nos envolve e, no entanto, ela a tudo engloba.
  Eu, que costuro palavras, num remendo tardio, emendo pensamentos e os aglomero em linhas extensas. Teço poesias remetidas a remetentes em busca de remissão. Paradoxalmente fractal.
  O entroncamento de paralelos é a comunhão dos opostos. Trilha o caminho da probidade e eis a transmutação da probabilidade. Os véus estão ondulando por todo tempo nesta brisa incessante, mas os poucos que não a chamam calmaria só protestam a maresia pretenciosa de seus olfatos ímpios.
  Redenção, pois, para os santos, apenas. É este seu atributo.
   Enlevemo-nos a nós mesmos, pois é isto que nos compete. Completude.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tempestuoso

 
Toma tua trilha. Tomba tuas tralhas, triviais.
Troca-te: transpassa teus tons!
Traja teu trajeto & trata ternamente teu tratante.
Traça tua teia tensa tão trabalhada, tricotada...
TEMEROSO TEMPO TERRENO, TENHA-TE!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Agravo


Você, que é seu cargo e que se encarrega de carregar para todos os lados o fardo de sê-lo.

Você, que é só profissão, limitado ao seu ganha pão e nada mais: negocia a consciência, a moral e a própria paz. Já tanto faz.

Você, que se apresenta como trabalhador, antes mesmo de falar do amor ou do tempo. Que se envaidece e se esquece do momento, inicia diálogos sem cumprimentos.

Você, sem nome, mas um belo emprego. E uma promessa vazia de sossego.

Mas você nunca acreditou em utopias.

Vive a vida em cores frias; não é pai, apesar das crias; não é amigo, apesar das companhias; não é palhaço, apesar das fantasias.

As doses de ironia que o cotidiano nos reserva: resumia-se ao vício de seu ofício, e à concepção de uma vida severa.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Semântica Hermética


Palavras que saem de nossos lábios sempre retornam à nós.

Agradeço pela forma com que estas se manifestam: é bom contar com o caos & com a memória daqueles que possuem sensibilidade o suficiente para imergir & fazer de meras palavras um sentido amplo.
à uma certa Rai :)


A melhor forma de recompensar o Universo e, consequentemente, a si mesmo é estando completamente à vontade & contente com o presente.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Inválidez



quando “reforma” refere-se à aposentadoria

Manipulo tuas alamedas: antecipo outonos & deponho teus jardins babilônicos.
Folhas esvaem-se & a vizinhança receptiva distanciou-se sutil.
Os ventos frios cuidam do uivo que enchem-lhe os ouvidos, pois o bairro soa amordaçado. Teus verbetes já não lhe são familiares, tampouco o caminho usual.  Rondas num, já, labirinto.
Sois temor, sem qualquer alívio em mapas, consultas vãs! Tens a ti na desesperança tardia, mas desperta, de não te conheceres e, portanto, perdurará insondável até que te permitas!
Cercado em ti podes ver as sombras que se alongam num ocaso demorado, e saber-te em uma rua sem saída é incitar tua grandeza, porém tua salvaguarda covarde, que vem restaurar-lhe a ficção para que te apóies em quimeras fantásticas:
-Isto é questão de experiência, pois compare nossas idades!
São com estas pretenções levianas com que ludibrias tua própria consciência! Apega-te à tua abstração neurótica e busca sustentar uma ideia equivocada de livre arbítrio.
POBRE CRIATURA DIMINUTA! Como se o tempo lhe concedesse rendenção invariavelmente! Ages como se teu cárcere fosse de ouro e tua pena fosse consensual! E beira abismos em receios mascarados de soberba, numa cabeça erguida que te amputa os sentidos e sepulta-te em ti, logo conserva tua segurança: arrasta-a junto contigo em teu definhar.
Tuas fronteiras estreitaram-se; milícias insentaram-se; prazos consumiram-se.
O tempo não te faz/fez tão bem.
Mas já tá feito.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A metáfora da Escultura

Todos somos blocos de gesso a serem moldados. Cada um possui um volume diferente, disforme e único, e espera-se que sejamos nós os artesãos, apesar de que muitas vezes nos eximamos desta responsabilidade...
Mas se nos dispomos a lapidarmo-nos, depois de muito, chega-se à uma forma universal. Digamos, para fins didáticos, que uma mini-esfera nos aguarde por dentro de toda essa "carapaça cultural". Essa esfera é uniforme e contém apenas algumas regências que pautam as relações de si com o que se cerca e fora dela tudo mais é relevante e desnecessário.
As "grades culturais", relativizadas, revelam a potencialidade pura e dão condições de espreitar um padrão pelo qual as coisas se desdobram.
Ironicamente, a esfera pode ser comparada aos "dez mandamentos divinos".
~
Se relativizarmos a metáfora: não há molde de gesso, não há forma geométrica e não há grades. A lapidação e as regências são indiscutíveis

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Lânguido

Aos incapazes


Escassos, mesmo em sonhos.
A ilusão do tempo lhes escorre pelas mãos, atadas por si mesmos, não numa penitência, mas na vã tentativa de reconfortarem-se.

Sua própria perspectiva os limita e o culto ao lúdico é nostalgia.

O útero se decompôs e agora são fetos ao relento, putrefatos, em suas saudades eternas do seio que lhes permitia a saliência inoportuna; do tempo em que sentiam-se necessários, bem-vindos.

Sobrevivem póstumos, em busca do sentido infindável de sua existência.

E, por vezes, pensam terem-na encontrado: apegam-se a certezas e defendem-nas como se nada mais lhes restasse. Até que estas se provam bambas – como eles. Frouxos.

~
Quem vive na merda, quando tem chance de virar adubo, se prontifica.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Desassombra-te!

Desassombrar(-se): (verbo, transitivo)
1) Ato de livrar-se de assombrações, sejam elas arquétipos próprios, de terceiros ou livre-manifestos; 2) Sair da sombra; 3) Projetar-se, em um ambiente ou situação (tomar as rédeas, tornar-se protagonista). 4) Tranquilizar-se; 5) Assumir-se, responsabilizar-se por algo; 6) Adquirir conhecimento, desalienar-se; 7) Eliminar obstáculos; 8) Adotar uma postura hermética, manter-se longe de ameaças, "fechar o corpo".

domingo, 26 de agosto de 2012

Ponto de Vista

180° é só uma medida.



A Alquimia não reconhece números.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

BANANAS

adendo aos easy-sharings¹

O deslumbro barato não se justifica.

Quem vive de mundo encantado é roteirista.
O apreço é por demais precioso para ser gritado;
e há quem sustente a postura de altruísta quando se faz de anfitrião do teatro do desconhecido!

Há mais a ser passado ao outro do que a sua bibliografia favorita.


---
¹ "Easy-sharing": adeptos do compartilhamento efusivo; aquele(a) que se sente no direito de gritar informações relevantes à ele para qualquer outro indivíduo presente; quem desconhece o oculto; charlatão.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Para marcar

meu eu-lírico não o sou.
mas, entre divergências, intercessões.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Prantos que enxem-lhe mais do que uma taça



aviso aos navegantes

Homens que se lançam ao desconhecido em busca da bem-aventurança. Encerrados num universo azul, às vezes na distância de um monóculo, surgem-lhes propósitos que em terra firme nunca lhe ocorreram. Há a quem uma dose de insegurança caia como a água gelada  do despertar.
O tesouro especulado é uma faca de dois gumes: se existe, traz fartura; mas também a ganância. Se o alarde é vão, a desilusão. Mas há aquele que, enfim, se enxergue absurdo, distante de si, bem mais do que do último porto que vira.
Piratas urbanos que confundem-se e afundam-se em conceitos. Não reconhecem-se pelos trajes, mas ainda buscam tesouros escondidos, num mundo agora não mais tão azul. O desejo de plenitude, e posterior, transbordar, e encher oceanos, e não ser enxugado! Compor sete mares em uma vida. Calma lá.
Calma, que é o contrário desta pressa, desespero, violência. Hoje em dia atropela-se as frases, os pedestres, a educação. Diálogos viram monólogos; palavras, onomatopeias. Os ruídos dizem mais que as imagens, e a elas já atribuíam demasiado valor.
Bússolas tidas como inúteis, substituídas por ampulhetas e então relógios digitais, dão as coordenadas de como foram se perder os homens que não têm mapas de si.
Do lado de fora da piscina, recuso as toalhas: não anseio ressecar-me. É questão de ser enxuto, não estéril. 

domingo, 22 de julho de 2012

Presopopéia


ao som de Paatos
foge me à compreensão.
mas é tão presente e tão notório
que urge em ruídos ásperos;
ruge em texturas inquietas:
gastura imensurável.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Sinestésico



despiu-se e adentrou-se ao cômodo
incomodado com o odor do escuro
esclarecido de que tudo é puro
quando não se pode diferir com o ver

o cheiro que invadia-lhe o olfato
de fato transbordava pelo umbral
a porta que rendia-se à sua gravidade
escancarava a verdade de ser-lhe um igual

viu-se então em sua órbita
e ainda assim alinhado à tudo
sentiu-se composto e integrante
intrigado em coexistir como conteúdo

e o que não lhe cheirava bem
eram seus olhos donos do insulto
a boca calou-se, palavra sequer!
é o silêncio que define o oculto

desnudo em reticências que envolviam-lhe suave
fez-se deslumbro no odor, já doce, que invadia-lhe os poros
e permitiu-se além-solo, como a porta que ficara para trás:
só vale a lei se esta lhe garante a sua paz.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Intervenção

Só a arte pode salvar o homem, mas só o homem superior pode entender a arte.
Logo, estamos fadados à uma seleção natural: a eliminação da preguiça de pensar.
A peneira como ato de conceber(-se!) & de (re)inventar(-se).


A progressão: da admiração à projeção.

Alinhar-se à si!, como há de ser!

O processo de tornar-se também emissor e não só espectador.
Equilibrar a balança restituindo um fluxo irreprimível.
Desestagnar-se!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fome de Algo Mais



Se poesia enxesse barriga, enxia bem mais que isso!
O peito cheio, de orgulho mesmo!, de ler em voz alta os versos escolhidos!
Mas, pelo contrário, a mais nua vergonha!
E não é vergonha estar nu!
Vergonha é estar disperso:
PERDEU A OPORTUNIDADE DE FICAR CALADO, RAPAZ!
E agora perdeu a frase anterior!
E só se faz mais BURRO, BURRO, BURRO!
BURRO!
E vai xingar o prefeito, cantar uns raps, fazer-nos rir!
Eu não sei o que tá na moda por aí...
Eu sei que o respeito tá em baixa!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Extraordinário


Dentro de toda ampulheta há um grão de areia negro. E se os grãos, todos, já são negros, há nesta outra ampulheta um branco, claro como a neve. Sobre este grão excepcional duas coisas têm de ser ditas. Começo pela confecção do objeto que intriga a tantos.
Aquele pequeno grão do oposto não é colocado ali propositalmente, pois não há uma finalidade ou motivo místico para a inserção desta peça destoante e tanto trabalho gratuito é descompensado.
O mistério, portanto, está na forma como este princípio de ironia se manifesta, pois mesmo que o artesão selecionasse cuidadosamente cada grão de areia, após o envasamento final fatalmente o grão se revelaria.
Há quem explique o fato como um processo de seleção natural em que o grão mais apto destaque-se dos demais adquirindo uma tonalidade contrastante. No entanto há lacunas nesta teoria, pois a característica saliente não é especificada, dando possibilidade ao acaso como solução.
Há outros que acreditem na materialização simples do grão, como se ele fosse inerente à ampulheta. Desta forma, o grão diferente não faria parte da composição original da areia colocada ali, mas seria, portanto, um grão extra na contagem do tempo e que parece não interferir, pelo menos significativamente.
Outro ponto a ser esclarecido é sobre a forma como o grão em destaque é percebido. Há muitos relatos de pessoas incapazes de verem o grão e outros tantos de pessoas fascinadas com sua existência. Isso é explicado pela insensibilidade visual de alguns, decorrente de seu enclausuramento mental. Em Portas da Percepção Huxkley soluciona o aspecto do indivíduo “conformado”, mas não a dúvida que aqui se apresenta. O dilema posto em jogo confere personalidade ao grão: são as pessoas incapazes de enxerga-lo ou é ele quem se esquiva dos olhares dos insensíveis? É uma postulação bastante coerente coloca-lo como simpático a quem enxerga além, visto seu simbolismo ser desnecessário aos demais.
Houve um rei, certa vez, que tendo descoberto o segredo do grão destoante dedicou-se à dilatação de seus sentidos até comprovar com os próprios olhos sua existência. Exigiu algum esforço do monarca, pois seus vícios eram uma venda de primeira-mão e este não estava acostumado à lapidação de sua consciência nem a constituir relações de intimidade com objetos. No entanto, houve o dia em que o grão revelou-se ao rei e este quedou-se maravilhado com o segredo desvendado.
Aficionado com a peça, o chefe de estado reuniu seus alquimistas ao redor da ampulheta selecionando um grupo de pessoas que podiam ver o grão. Os alquimistas todos já sabiam da lenda oculta, porém, algumas outras pessoas que ocupavam cargos de confiança do rei ficaram perplexos com o que se expunha. O rei, exaltado, ordenou que fosse extraído o grão contrastante da ampulheta e levado até ele, pois ele queria manusear aquela preciosidade.
Os alquimistas protestaram de imediato afirmando que o grão não podia ser extraído, pois era o contexto que o compunha e que fora dali ele não existia. No entanto o rei, fora de seu juízo, persistiu em sua ordem e, ignorando o aviso dos alquimistas, fez com que seus outros súditos assumissem a tarefa manual e trouxessem-no o grão.
Após a milésima tentativa frustrada os súditos voltavam ao rei dizendo que inexplicavelmente o grão evaporava-se quando o vidro da ampulheta era quebrado. Incapaz de compreender a mecânica extraordinária do objeto, o rei entrou em colapso, numa crise atordoante que durou algum tempo até, enfim, suicidar-se. Relatos posteriores à sua morte revelavam que nos últimos tempos o rei já não era mais capaz de ver o grão incomum da ampulheta e que isto contribuiu para seu trágico fim.
Após este acontecimento a população passou a maldizer a história e a lenda caiu no esquecimento sendo mantida apenas verbalmente, numa tradição oculta daqueles que realmente se aproveitariam dela. Os lábios da sabedoria só devem ser abertos aos ouvidos do entendimento. É assim que os alquimistas entendem o conhecimento e esta é a proposta de ensino mais coerente e eficaz.
Com pesar, eu reconheço ter quebrado esta regra. Mas transpassando-a, vou além citando o axioma revelado a mim quando pude ver o grão-de-ouro pela primeira vez. O sábio me disse:
“TODO E CADA DIA POSSUI UM MOMENTO MÁGICO”
e rematou:
“NÃO DEIXE-O MAIS PASSAR DESPERCEBIDO”
e eu entendi: se você se esquece dele, ele se esquece de você.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Impasse" ou "72"



aos indisciplinados

Conta a lenda que um jovem discípulo, perturbado com os acontecimentos do mundo que o cercava, foi ter com seu mestre a buscar soluções para erradicar o que tanto lhe afligia.


Após interrogar o ancião este lhe aconselhou que se quisesse ajudar ao próximo que começasse próximo à si. Poderia buscar a água da fonte para repor as reservas da casa já que o outro discípulo, encarregado desta tarefa, estivera enfermo.

O jovem se propôs a fazê-lo prontamente, afinal a água também servia à ele. Armado dos baldes saiu em busca do caminho que nunca havia trilhado, debaixo de um sol escaldante que castigava a região. Andou por horas até deparar-se com uma bifurcação sem qualquer placa que pudesse indicá-lo a direção para cumprir sua tarefa. Não havia cruzado com ninguém desde que partira em sua jornada e também não vira nenhuma moradia durante sua peregrinação, então se sentou diante da divergência e pôs-se a meditar.

O tempo passou e o discípulo não viu solução senão tentar um dos dois caminhos que se demonstravam diante dele. Sem saber qual escolher e já tendo perdido tempo demais optou pelo caminho da Direita.

Andou bastante tempo até cansar-se, mas persistiu na busca que terminou em outra bifurcação. Indeciso, cumpriu um instante de impaciência e esta o conduziu de volta ao primeiro entroncamento. Ia tentar o caminho da Esquerda, apesar da insegurança que lhe tomava nesta altura. Sua intuição lhe dizia que aqueles caminhos não eram fiéis e a sensação de estar andando em círculos já havia o dominado.

A expectativa de outra divisória de trilhas lhe acompanhava e quando este fato se confirmou o jovem se deu por vencido e resolveu retornar ao lar com os baldes vazios e a boca cheia de palavras para justificar sua ineficácia ao mestre.

Já era noite quando o jovem retornou exausto ao lar e deparou-se com o velho ancião com um sorriso contido no canto do rosto. Após informar ao mestre seu insucesso este lhe ordenou que descansasse, pois seu dia havia sido longo e que no dia seguinte ele o levaria trilha adentro, demonstrando-lhe as direções corretas. O jovem, intrigado, conteve sua curiosidade e teve um sono longo e duradouro.

Ao levantar-se pela manhã o mestre estava equipado com os dois baldes, e os estendendeu ao jovem num sinal de que o acompanhasse. O caminho permanecia familiar ao discípulo, no entanto demoraram apenas um quarto de hora para chegar àquela bifurcação que o marcara tão desagradavelmente. Não entendia como o tempo havia os atravessado, porém de fato estavam ali sem qualquer atalho ou veículo.

O mestre então indicou a divisão na estrada e perguntou ao jovem se este a enxergava. O jovem assentiu com uma certeza dúbia, sem saber se realmente a via. O mestre então ensaiou algumas palavras sobre como os caminhos se dispunham às pessoas e como as pessoas deviam dispor-se a eles. No decorrer da conversa o jovem percebia que aquele local não se tratava de uma bifurcação, mas de uma encruzilhada, pois percebia agora um caminho entre aquele que tomara primeiro e aquele que tomara por último no dia anterior.

Escutava as palavras do mestre com bastante atenção, deslumbrado com a descoberta que desabrochava a cada respingo de compreensão. Então o mestre indicou o local e perguntou novamente ao jovem se este era capaz de vê-lo. O jovem podia ver o que o mestre lhe mostrava. O mestre então lhe indagou sobre quantos caminhos aquele caminho do meio desembocaria se alguém se atrevesse a contar as bifurcações nele contidas.

O jovem quedara-se confuso pois não imaginava a existência de bifurcações também naquele caminho do meio que acabara de ver. Em sua crença aquele seria o caminho correto para chegar-se até a fonte de água e encher os baldes e um caminho correto haveria de ser simples e direto. O silêncio, portanto, instalou-se e permaneceu até a elucidação do mestre.

Havia ali, metaforicamente, setenta e dois caminhos. Aqueles que o jovem havia trilhado no dia anterior eram EXTREMOS e podiam ser vistos por qualquer pessoa de sã consciência, pois não exigiam qualquer sensibilidade para serem tomados. O mestre explicou que da mesma forma que qualquer outro, aqueles caminhos também levariam ao local desejado quem quer que os trilhasse, porém exigiriam bastante esforço por se tratar de caminhos inflexíveis, ou seja, só poderiam ser vencidos na base da persistência.

“O caminho do meio consiste não no contrapeso dos extremos, mas na postura do andarilho. Aquele que se identifica com seus meios sabe conhecer seus fins: uns chamam de atalho a simplicidade, outros só não vêm motivo para tanta cerimônia. O pátio central, portanto, destina-se àqueles sensíveis o suficiente para distinguirem sua Vontade do desejo. Além disso, optar pelo essencial exige um tanto de sinceridade para consigo. E são nessas bifurcações que os restantes se perdem.”

Dito isso o mestre ia se retirando quando o pupilo lhe perguntou sobre a água e os outros tantos problemas do mundo. O mestre tirou um balde da mão do rapaz, avançou pelo caminho central, desapareceu por trás da primeira árvore e voltou com o balde transbordando. Nisso, acrescentou serenamente:

“Há problemas por que há quem os enxergue. A água está bem ali. Talvez não atrás do primeiro ou do segundo arbusto, mas logo adiante...” e concluiu: “Não há mapas para a Vontade, não há guias para desvios, não há rotas para o indolente”.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

o Eu e o Outro

Talvez meu tempo seja mesmo outro;
Talvez meu outro seja mesmo tempo.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Charme


pois todo fim é um começo e toda despedida tem seu charme.


Queria já ter partido há muito. Assim, espontâneo & definitivo, só para vê-la acenar seu lenço assoado & encharcado das lágrimas que vergam por mim. Que não retornarão aos seus olhos, assim como não retornarei aos seus braços.
O sol não volta atrás por que sabe da deselegância do regresso. E faz de sua despedida um espetáculo à parte, aplaudido no fascínio daqueles que desconhecem os outros cantos do mundo.
Aplaudo o sol de pé. Sem lugares estratégicos, porque não é aos meus olhos que ele toca. Mais coerente seria o coro se o elogio fosse feito à dedicação com que este se mantém sobre nós, incondicional. Mas vivemos de momentos, entre vírgulas, de finais felizes!
Aplaudo o sol com vigor & alívio. Sou vivaz em minha indiferença, tomado pela ansiedade, cordial nas palmas explosivas que anunciam o fim de minha espera.
Dói-me este receio com que se vai; esta despedida longa & dramática & indecisa. Fere-me, exige-me paciência, adia meu enfim!
Eu que o aplaudo tão somente para vê-lo distante, que contenho arduamente meus uivos, guardo-me atrás de lentes escuras por que não me inspira o contemplar. Eu que me mantenho firme, na expectativa do encontro prometido! E que já estou tão longe neste momento, sem olhar para trás por que meus olhos estão perdidos no Zênite em transação!
Há em mim um coral de vozes a comemorar a queda do império! O Astro-Rei deposto... E eu, que nem ensaiei minha despedida, assemelho-me ao sol ido:
querida, sou noite.



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Con'templ'ação



O acesso restrito configura-se por uma questão de necessidade: há tanto para ser discutido à sós que o roubo da intimidade é um pecado.
A sincronia se dá por meio de um código mas, mais do que apenas garantir passagem, este pressupõe um alinhamento conceitual:

Portas abertas, ESCANCARADAS! A casa reluz & irradia caminhos.
Sobre tudo pode ser dito tudo, sobretudo, que é UNO.
Concepções conciliam-se no claro: o lar repousa, iluminado.
Adiante-se!


Uma moeda que lhe valeu mais do que sua inscrição! A discrição com que se porta é a discrição com a qual a porta: metida em segredos, no sigilo que ela encerra. E desdobra portas, por ser chave.
Perante as trilhas familiares a tranquilidade impera.
O horizonte ao alcance de tuas mãos: moedas!
O universo não se curva ao ouro, mas ao toque;
Perceber já é estar em contato.

Guarda-corpos que nos mantém acá: em comunhão. A livre transposição de véis & o abandono da inconveniência! O inoportuno também se mostra grato em sua ineficácia em interferir: todos servem ao ritmo.
Tens a ti, por ter-te aqui & ao mundo por ter-te aí.
Desfruta o prato que te é servido, pois só te é servida a tua vontade.
Vens & vais!
A casa abriga-nos em seu ventre e murmurra-nos constantemente:
“Alegro-me que tenham chegado!”
 
Saudar é saudável.
Já começou, que não termine nunca.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Assombrações Verbais

ao João!
e começo com Fernando Pessoa. indispensável.


Adjetivos não existem, são nomes dados ao intocável! Presunçosos!
O “belo” é parcial, corrupto! É um agrado expresso: individual & injusto, um mero bater de martelo...
E descrições de si são assim: repletas de fantasmas! A quem se descreve para poder colocar-se em palavras, em características tão limitadas & subjetivas?!
Seria ao Zé-Ninguém de Reich? – Mas não seríamos tão descuidados assim...
Seriamos nós mesmos nosso ponto de referência? – Mas, ah! Quanta pretensão...
Afinal de contas, o Eu é mesmo um Outro.


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Aspas

A liberdade está na fechadura do sanitário.


"livre"

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Solvente


Não importa quanto tempo eu passe contigo, nunca é suficiente.
E a despedida, temporária, é sempre um parto que vem me rasgando cada vez mais.

Eu sofro de uma perda de identidade, constante & progressiva. E estes lapsos compõem-me lacunas! Mais do que isso, compõem-me saudades.
Em uma canção que não sei se posso dizer que é triste. E também não posso dizer que é ritmada. Musicada à capela, num respiro incerto de quem toma-se por um ato impetuoso; de quem decide-se, à beira do ouvido, arriscar um sussurro: GRITANTE!


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Minha prosa é confissão. E por sê-la é poesia. E é mais do que frases ensaiadas ou espontâneas, pois tem um quê de desespero; É mais do que um pedido de socorro, pois tem uma dose de desesperança; É mais do que uma declaração. Eu já me encontro completamente explícito, de expressões sublinhadas & pensamentos escancarados: sou todo legível.

Distante, por ter me deparado com a saudade. Absorto, por sabê-la insolúvel.



Obrigado a beber
                          um copo
                          cheio
                          de um veneno
                          amargo
                          que me dilacera por dentro
                          toda vez que você parte.


                          E me parte. Me rasga. Me corrói.

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INSACIÁVEL!

Penso se só vou parar quando extinguir-me...

E no escuro, o silêncio.
O papel que se rasga implacável, mas que é suave aos ouvidos. 
Termina seco, sem cerimônias.
E caem as trevas sobre o palco vazio.
Aplausos para o meu teatro! Uivos para o meu vício!



Tudo
para dizer que não penso em parar.


Eu nem saberia como...

terça-feira, 17 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Afã


Hoje meu lar é um ponto de ônibus, um banco no aeroporto. Faço a minha casa em qualquer esquina, qualquer espera. Vida de encruzilhadas.
E compartilho o destino com desconhecidos em minutos que se estendem imponentes. O relógio assenta-se por graça, pomposo & gozado! E, como a lebre, perde a disputa. Hoje o dia é da tartaruga; do viajante.
Avenidas são linhas de nós cegos em mapas desajustados. As ruas são vias deserdadas da cidade, perdidas por aí apenas com um nome nas costas. A palavra é gratuita, mas é tão pesada que um silêncio intocado se estende nas matracas preguiçosas & sedentárias. Sons disformes embalam uma sinfonia inorgânica & perturbadora: trilha sonora do cotidiano, despercebida como um filme automático. É nesse contexto em que se configuram guias turísticos todo & qualquer transeunte.
Um contrato cercado de termos & entrelinhas cujas assinaturas são dadas num desvairo sutil. Surto social hereditário, mas artificial, numa estrutura que não se sustenta por viver de muletas: apoia-se & debruça-se & fixa-se: vai de encontro à impermanência e configura-se constante! Transeuntes (estes sim) turistas, perdidos na vida por não saberem esperar!

“encha-me a vida de tempo; & preencha-me o tempo, por piedade! 
já não sei viver alheio! sou um convite ao Diabo, oficina abandonada!
e todo o delírio, a graça do reinvento, a variedade: adjetivados!
já não há verbo. calou-se.”

sábado, 31 de março de 2012

Lapso

O Sereno tocou-me & fez-se inquisitório.
Em uma redenção atemporal dispus-me à ele, com pensamentos colocados em cheque: imóveis & adiados. Suspensos.
Palavras caladas num susto que se prolonga doloroso. Assim supera-se uma noção vaga & virtual, nunca experimentada de fato, do Silêncio.

O Vazio é Pleno.

O êxtase da mente inabalável  é contagiante & o corpo reencontra-se capaz. A conciliação com o TODO, casamento de semelhantes, este incesto transcedental que refuta qualquer crítica feita à questão do instinto.
E é inerente ao Iluminado a “indescritibilidade”!

Restam, então, esforços vãos de um autor frustrado:
Para tanto, minhas palavras necessitariam ser lacunas.

domingo, 25 de março de 2012

Ausência

um bilhetinho
à moda antiga

Senti saudades tuas.
Ou será que foram saudades de mim mesmo? De um eu antigo?

Acho que o reencontrei por aí nesses dias que passaram voando, numa topada brusca nas esquinas da vida... Apressado, só teve meias palavras em um sussurro esmeirado & rateado e, em troca, levou-me o fôlego & o rumo.
Recompôs-se em sua rota e deixou-me atordoado no ápice de minha rotina que já ha muito havia se esvaído em vista do devaneio que se apresentou fatal.
O tempo havia migrado e eu não me endireitara no ritmo. E se me faltava fôlego & direção, sobravam-me palavras.
Palavras que eu uso no preenchimento de lacunas, na transposição de abismos, à contrapeso da ausência.
Enfim:

Saudades, tuas.

sábado, 10 de março de 2012

Desembrulho

À uma garota que eu ainda não conheci;
& ao Mestre, André Martins.

“Todos os passados ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem nossa consciência da vívida presença total.”

- Aonde você esteve este tempo todo?
-Exatamente aonde eu devia estar. E agora me tens em sua frente, exatamente como tem de ser.
-Encarar-te é encarar uma ampulheta incessante. E eu já não sei julgar o tempo: se cruel pela espera ou generoso pelo presente...
- Pois disponha-te a ele! Há grãos exaustos, prestes a despencarem, em sua depressão conjunta; & há uma pilha crescente de amontoados rendidos, que se afundam e são encobertados por um sono inextinguível.
- E lanço-me aos braços de Morfeu? Seria meu deslumbro mero delírio e, estando no Sonhar, o nexo é desinteressante?
- Enlouqueças de tuas mil-e-uma maneiras, mas permaneças acordado. Não vais perder a hora, pois esta sim tem encontro marcado com teu deus do sono! Teu deslumbro é o meu & teu delírio é deliciosamente doce.
- Porém não existem ilusões amargas...
- E o amargo do agora, cito a contragosto, é sê-lo instante e não eterno. O eterno é sempre agora, mas o instante é sensível! Quantas são as cantigas de ninar a enamorá-lo desde que ele roubara a cena?!
- E eu, desperto demais para ouví-las, perco-me no caminho de volta para casa...
- Ou encontra-te! Que me tens aqui & te tenho aqui. Compomos o instante, que se desenrola...
- ... intenso! E já não tenho lembranças ou anseios, passado ou futuro.
- Contexto! Somos nós a completar-nos & contemplarmo-nos.
- Achados. Ou perdidos... Eu me encontro em cada esquina e me esvaio em pensamentos, preparo toda uma rotina e a mudo a cada momento, vivo na cisma de uma sina ou na dúvida de estar ao relento, incerto de olhar para cima ou da procura aqui dentro, o mundo que se imagina & o mundo com o qual me contento... Mas já não há distinções de realidades desde o verbo manifesto! A palavra proferida confere o trono. Quem nele se senta é denominado CAOS.

terça-feira, 6 de março de 2012

Íntegro

Um grupo não é composto de uma dúzia de meios;
mas sim meia dúzia de inteiros.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Bom dia"


Uma proposta para tornar-se fluido.


Deixar portas abertas & abrir-se em conjunto.



Assumir-se.
Independência ou Auto-Gestão?
As palavras se diferem e exigem cautela!



Preocupações são duras demais para se colecioná-las!
A maciez do papel lida bem com seu peso e o tempo se encarrega do ponto de vista desmantelador.



O excesso é perda, assim como a escassez.
O que sobra, sobra por não ter sido bem usado.
Assim, resulta-se a máxima:
“Nada se perde, Nada se cria, Tudo se transforma.”



O rio corrente compõe-se do livre; o atraso provém do desnecessário.
O acúmulo se acumula:
“Quer pouco, terás tudo; Quer nada, serás livre.”



Límpida, a água resplandece e revela a bela faceta da vida pura em reflexos de prazeres nos instantes.
Que Narciso se confunde pois busca com as mãos: beleza se contempla!
Os olhos aprovam o mundo que a mente trás para si.

Bom dia.


________________________________________
¹Lei da Conservação de Antoine Lavoisier (N. do A.)
² Frase de Fernando Pessoa (N. do A.)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

BOOMERANG

e a convicção de que a conexão não é terrena & independe de localização para o situar-se mútuo.

que todo homem que possui uma virtude possui, em mesmo grau, um vício que provém do descuido! o tempo dedicado a afinar-se em uma nota é o mesmo do reparo: a sinfonia é composta de tons errantes e nenhum deles pode ser pleno em sua individualidade, portanto o REFINAR-SE!

e no ritmo individual que possuímos resta-nos o conforto da sintonia.

se vibramos com isso? claro! pois a sinceridade para conosco, sempre em primeiro plano: responsabilidade é dada para a capacidade.

e se hesitamos diante os deleites de um universo irônico? bem, a dúvida fora colocada e explanada em seu enunciado! nunca tivemos exatamente tempo para acanhar-nos com estes assuntos...

na verdade, acredito que seja mesmo falta de interesse...

você e eu sabemos o quão difícil é captar-nos a atenção com estes assuntos tão... monó...

ah, você me entendeu!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Meias Verdades sobre Meias Amantes

Eu nunca as quis por completo, é verdade.
Aficionado com as obras do acaso, eu nunca quis colocar limites no politeísmo. Restrição de crenças &outros tipos de jejum sempre ocasionaram-me um enjoo egoísta, típico da solidão em que costumo me conservar.
Os costumes são todos falidos, pois são rotineiros. As latas em conserva estão todas vencidas, a começar pelo prazo de validade que já fora previsto e está desnudo na própria embalagem.
O acaso, eu ja mencionei anteriormente, é obra da ingenuidade. Essas coincidências só impressionam os distraídos, traídos por seu aluar. Esses idos & vãos, surpresas de um destino doce ou cruel, são SUAS atribuições, demasiadamente românticas.
Que acusem-me do Amor-Livre! Quem quer ferir, já foi ferido. Pois este amor já está bem morto & é a liberdade que o comprova! Não haveriam de ser antônimos, opostos, a se encarar... Mas que posso fazer se o meu amar exige tanta maturidade? Que essas declarações de guerra são inocentes & infantis; e a ressurreição deste amor, que por vezes se debate no túmulo, exige a captura –
de minha atenção.
O deslumbro profetiza a morte do ser livre.
Mas, cá entre nós: superstições à parte.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Citação


E poder dizer todo dia:
"you meet me at a very strange time in my life"

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Rastros

Disse-me impulsiva. Quisera eu sê-lo.
E da forma como veio, sutil! Como uma frase que termina em reticências; um suspiro prolongado, de quem anseia & se permite ir além.
Há quanto fugiste de mim o deslumbro que faz-me eufórico neste instante?
Espontaneidade que se fora e retorna na composição! Indícios do contágio!
Se refaço meus últimos caminhos posso procurar os vestígios do sorriso que me deras, sem nem se dar conta!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Linhas que se sustentam

aos personagens da rotina, passantes & demais abdicados.


A arrogância da convicção:
Uma poesia de versos autônomos!
Para cada frase, um patrôno;
Para cada passante, imaginação!

Íntegro, mesmo em lacunas!
Pontes compostas num improviso
Na transposição surge o sorriso
Flexibilidade em cada coluna!

Mas convicção é ingenuidade
Toda obra se resume em esperança
O automatismo dos passos de dança
O despertar perdeu sua naturalidade.

O sentir aguarda a permissão do despertador
Em toque, ousado, da atenção: um rapto!
Palavras curtas, de grande impacto
Já não é mais rotina: tem amor.