quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

NOVAS DIRETRIZES


Tempo Estraño sempre foi um presságio, um anúncio, uma profecia. "A eternidade anda enamorada dos frutos do tempo" - mas a maneira de amar do eterno é rude, eu acrescentaria. As realidades começam a convergir e a se sobreporem e os que têm olhos para ver admiram o CAOS PRIMORDIAL espreitando pelas frestas que somos incapazes de preencher com estas nossas crenças condicionadas. 
Vivemos em um tempo interessante em que tudo é extremamente flexível & que pequenas ilusões tomam grandes proporções e consistência de forma abrupta. A incapacidade de moldar nossas próprias vidas acaba por nos conduzir por uma distopia coletiva que dissemelha-se progressivamente de qualquer ideal longínquo que pudemos almejar algum dia. Abster-nos da forja do que somos imputa-nos à essa paranoia programada que cocria uma espécie de apocalipse para findar com os entendidos & com os covardes, ambos já vegetativos & desesperançosos em si.
O desinteresse - ou nem isso, a incapacidade de compreensão - para com a literatura presente neste blog somado com as experiências transcendentais que eu tenho vivenciado e intento em compartilhar acabaram por fazer-me anunciar a mudança que pode vir a ocorrer neste espaço. Eu, que não tenho compromisso com qualquer leitor que por aqui se aventure & que deixo bem claro que este é um exercício pessoal meu que está aberto às visitações, agora assumo alguma responsabilidade pela elucidação das consciências por meio de alguns relatos e elementos ocultistas um pouco mais explícitos do que os que já vêm se apresentando ao longo dos textos. Eu sempre me vali de uma linguagem refinada e hermética e não espero perder a poesia ao tratar do verbo impresso, mas creio que daqui pra frente as cenas serão menos romanceadas & hipotéticas, abordando a realização das ficções & o encantamento do cotidiano até que ele perca esta estética plastificada. Eu acredito que algumas das linhas que eu venha a compartilhar por aqui possam ser úteis na solução do estrañhamento e na dissipação das tempestades, estabilizando o tempo & confortando as consciências que não desistiram & nem se desvirtuaram.
A fertilidade é uma benção, mas castiga aos indecisos & aos desdenhosos. Também o descuido é um capricho. O caos é para todos, que assim seja.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Muito se Ladra às Sombras


A palavra é chave, é o acesso às inúmeras possibilidades. Evitamos o velho ditame "peça e lhe será concedido" pelo descaso conosco mesmos que nos fez céticos, mudos e adestrados às falsas percepções.

Todo comando desencadeia uma reação e mesmo a frivolidade partilha das conseqüências de sua pequenez. "Saber, Ousar, Querer, Calar". Pois aquele que se desperdiça em ladainhas acumula-se em irrelevâncias e nem mesmo o ingênuo escapa ao eco do que é.

Quem não se desafia constantemente, embota-se; em boa hora: a cegueira do gume é o medo que desponta qualquer assertividade. Palavra sem pontualidade é a verborragia que nos atrasa rumo ao essencial. A língua sela compromissos que um aperto de mão não poderia.

As ameaças, portanto, são confissões de impotência. É o manejo amador da substância literária: frases insossas e inconcretas, o inofensivo travestido em vociferações, o desespero cuspido. A falta de classe descaracteriza o perigo.
Quem quer que seja audaz para interromper o Silêncio deve ter o timbre da moderação ou imola-se ao ridículo. 

O dito certeiro é um deslumbre cantado, cuja precisão ressoa-nos eternamente em contraste com a indecisão mundana que temos como referência. A palavra imbuída de poder é sonora mesmo quando sussurrada e ressalta-se às demais pois incorpora a Voz da Razão. Adentra ao terreno do Belo pelo deslumbre que causa, mas é incorpórea ao papel, posto ser intransferível sua Presença.

É a garganta que externa a Vontade, modula a realidade e pelo Verbo anima, conduz e coordena. É a poesia a tradução da fertilidade e da espontaneidade dos diálogos da Natureza. É a alegria o resultado da compreensão de fragmentos do Monólogo Maior e é a fé a capacidade de manifestá-lo e disseminá-lo.

A harmonia é a lei. Não há o que quer que seja dissonante, tudo está em conformidade. Esta é a chave da Arte. Que cantemos, pois. Mas antes, que saibamos dançar.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Espuma


Dos respingos, excessos
Dos restos, descaso
Dos transbordamentos, a têmpera 
para lidar com o descabido.
Teu vazio contido não se compara ao
Meu Vazio contém.
Alvo feito o Nada,
Tecido cru & corpo nu
Tanto cor como vestígio,
Alquimia da extravagância:
toda sobra é matéria prima
os bons modos da Gula &
a Avareza póstuma que rege a rigidez de quem nunca riu de si.
Espelho límpido, reflexo imundo
Eu oceano, diluo o desaguar.
Uma puta maré de ressaca
& as oferendas debochadas de volta à beira de areia.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Quem


Eu invejo Joyce. Ele diz encontrar interesse em toda e qualquer interação com outro ser humano. É de uma humildade sublime e de uma empatia transcendental. Eu até consigo entender e, por vezes, me aproximar desse estado de espírito de considerar toda e qualquer coisa uma emanação do próprio Deus e, portanto, tudo extremamente interessante. Entretanto, não é assim que eu vivo cotidianamente.
Quem me dera ser menos rigoroso e talvez eu agradasse mais aos demais. Talvez até a mim mesmo, embora eu valorize a disciplina e a responsabilize pelo meu desenvolvimento constante. Mas eu sinto que é possível uma disciplina natural, espontânea, um desenvolvimento sereno que implique num ritmo tão confortável do qual não se precise de qualquer cobrança para se estar em dia consigo.
Eu tenho sido austero e engajado de forma a não permitir que qualquer distração ultrapasse os limites do meu objetivo e eu acho que é assim que tem que ser. Pelo menos por enquanto.
A seriedade da qual me vesti implicou em desfazer-me da relativização e da tolerância àquilo que se punha em meu caminho, como um príncipe inspirado por Maquiavel a determinar de forma clara quem são seus aliados e o que é resto. É engraçado pensar que a caminho da dissolução da dualidade eu tenha de me valer tanto dela, mas como eu já havia dito por aqui, numa confidencia sussurrada:

"Aparto-me de quem ainda não Sou por necessidade de solidão."

Tudo o que não suscita o melhor de mim é vão. Todo aquele que não me exige é pouco e eu já passei tempo demais na mediocridade para me voluntariar a ser pequeno novamente. Eu ainda não sou capaz de conviver harmonicamente com a preguiça dos outros, embora reconheça esta imperfeição minha, de como sou espaçoso e exigente ou de como julgo o que o desenvolvimento destes deveria ser, ainda que a apatia esteja explícita em suas atitudes.
Eu gosto da metáfora de LUX & NOX. Faz-se preciso conquistar a própria Luz e expandir-se em microcosmo antes de se aventurar pela Noite Eterna do macro ou pretender cessar o Samsara alheio. Esta minha solidão é uma imersão em LUX, minha jornada pessoal rumo a mim mesmo, mas eu não imaginava a dimensão do abismo que me separaria do que eu era e da latência daquilo que permaneceu. Mesmo que dotado de toda a empatia do mundo, eu nunca poderei encarar a vida com os mesmos olhos de antes.
Talvez a perspectiva de Joyce não seja exatamente compassiva, mas sim contemplativa, e isso muda tudo. Sua ausência de julgamento é espiritual e não apenas a mera disciplina da mente, uma reprogramação qualquer automática e rasa. Poder-se-ia dizer portanto que ele se comunica com o que há de Maior nos outros e com a naturalidade de não assustar estes anônimos, que não sabem quem são e não tiveram a oportunidade de investigarem a si mesmos. Elevado a este ponto de vista o interesse genuíno é plausível e justificado. O mais notável é que a partir de então uma nova concepção estética é acessada e passa-se a independer da cultura vigente para qualquer consideração, ou seja, um novo grau de autonomia é alcançado: as pessoas são o que são por sua própria conta e não em relação ao que elas possuem em concomitância com o modus operandi. É esta anulação de pré-conceitos e a constatação da realidade num nível muito mais puro e predecessor a essa projeção material que nos permite alcançar estados de graça e êxtases [quase] permanentes como no caso de Joyce.
Encarar-nos visceralmente como Unidade e não apenas o fazê-lo através de conceitos. É ser a Estrela que Crowley nos proclama, o Ubermensch nietzscheano, a imagem fiel ao espelho d'alma, o pensamento legendado em Ourano Barbárico, a corporificação do Tao, o Zen elevado a si, o Círculo já sem Ponto no meio, ágape absoluto. Voltar-se a si mesmo e reconhecer-se Nós. Eis o interesse inédito.

Ralo

 A apatia é a entropia do ser.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Das proporções dos males


& dos homens que são pouco.

O maior erro do insatisfeito é crer que o satisfeito está necessariamente alienado de seu contexto.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Detalhes


VI. Os Amantes. Seis.
Escolhas têm que ser feitas, eu sei.
Puxo outra carta:
Três de Paus.
Virtude.
Não há realmente escolha, 
só o que existe é a prudência.
Nietzsche sussurra:
"De duas coisas, 
uma é mais necessária que a outra."
Toda média é mínimo,
Todo príncipe é pouco,
Tudo tende ao Todo.
Sinto o suor, meu corpo quente
euforia engasgada
o desconhecido me visita
eu, anfitrião de mim,
mestre de cerimônias íntimas,
ritualística da alma imperiosa
que dita o que é
sobre quem quer que seja.
A mão coça.
A direita, Liberdade.
São as linhas se refazendo
justaposição à Fatalidade.
Qual ser morre simétrico
diante tantas encruzilhadas?
Mas ainda,
quem escapa às vias principais
em seu caminhar tortuoso?
Cada sulco na palma
é um entalhe n'alma
e os caprichos,
os quereres desmedidos,
são só detalhes
em meio à Eternidade.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dos Desígnios Maiores & Da Economia do Apego


Na maior parte do tempo eu sinto urgência. Necessidade de correr atrás, de encaminhar as minhas coisas, de trabalhar pelo que eu quero. 
Na maior parte do tempo eu me sinto impelido a realizar algo muito maior do que eu, como seu fosse instrumento de uma vontade externa e que para alcançar a dignidade eu precisasse me dedicar com disciplina de uma forma como eu nunca o fiz. 
Na maior parte do tempo eu sinto que o meu nível de exigência é muito maior que o dos demais, que eu não sou insaciável, mas que o meu mínimo é muito maior que o razoável dos outros, e que essa perspectiva e expectativa acaba soando rude e autoritária. Eu me sinto como um exército de um único homem marchando pelos áridos desertos da disciplina e da concentração. 
Na maior parte do tempo eu me ocupo desses assuntos que não me parecem tão meus, mas, às vezes, com uma regularidade que eu não sei precisar, e com uma certeza originária não sei de onde, eu sinto que eu estou apenas cumprindo tempo. Eu sinto como que se o objetivo ao qual eu me dediquei já tivesse sido alcançado e que eu apenas tenho tempo livre em relação àquilo para me desapegar do resultado e desfrutar da calmaria que me é ofertada. 
Essa sensação é um deleite porque a promessa é clara e firme. É como se o destino que precisava ser decidido já o fora e que tudo o que resta é vivenciá-lo em plenitude. É como se fosse uma temporada de férias daquele assunto específico no qual tudo já está encaminhado por que o que tinha de ser feito já o fora.
Hoje eu reconheço que essa sensação nunca me havia acontecido antes por que eu sempre vivi de férias e nunca me dediquei a nada. Tudo meu sempre foi feito de última hora, eu vivia de apelos e de prazos finais num desespero de agir contra a minha vontade e por obrigações diversas e é claro que isso nunca me levou além do óbvio. É como todos vivem, essa mediocridade que já não encontra mais espaço sob as minhas tarefas.
A compreensão da conquista de metas adiantada dialoga com a metafísica do tempo-espaço, dialoga com os desígnios mais íntimos do nosso ser, de fazer o que se tem que ser feito sem a arguição consigo mesmo do que é melhor para si. É estar atento ao que há de Maior e executá-lo sem procrastinação.
Um dia eu já fui teimoso, hoje eu prefiro ser sábio.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Ensaio sobre o Sincretismo

Existem diversas doutrinas, diversos sistemas de crenças, diversas formas de síntese da evolução. Todas conduzem, mais ou menos, ao mesmo caminho, mais cedo ou mais tarde.
A questão é que a conceitualização, o vocabulário de que se dispõem algumas dessas vertentes é mais claro e mais rico que outras. Há pessoas que buscam suas linhas de trabalho, há linhas de trabalho que buscam as pessoas - e esse chamado é bem real, e até um pouco assustador para quem já o pôde vivenciar.
A segmentação da espiritualidade é um fator que permite a acessibilidade de pessoas de contextos diversos a potenciais similares por meio da linguagem adaptada. As linhas de trabalho, as egrégoras, são corrimãos de apoio para a ascensão da consciência até o capítulo da autogestão. É por isso que as religiões, cada uma delas, são extremamente necessárias e compreendem os vários níveis de consciência do coletivo. Por que embora nem todas as religiões possam concluir o processo de desenvolvimento do ser, elas são extremamente eficazes em trabalhar a vida do indivíduo a curto prazo, como a medicina alopática do ocidente que não é tão profunda mas faz seus milagres em tempos de crise.
O espírito autônomo, no entanto, não se desfaz das linhas de trabalho, mas pelo contrário, utiliza-se de sua pluralidade. "Sincretismo" é o nome que se dá a convergência de dois conceitos paralelos que exprimem a mesma ideia e é por meio disso que pode-se retomar a espiritualidade numa visão uniforme e não repartida como a das religiões. Através da unificação dos contextos há a complementação teórica e prática da experiência do indivíduo, ou seja, o estudo dos multiversos nos conduz à autoinvestigação e é só dessa forma que começa a verdadeira espiritualidade. 
O aprendizado é emocional. As ideias precisam tocar a alma para serem digeridas e é a linguagem, ao mesmo tempo, o veículo e o abismo. Às vezes a compreensão só é possível quando se depara com o texto ideal. Mas às vezes não é o texto, e sim o ser quem precisa estar aberto, não à leitura, mas ao estado consciencial que ela evoca.
No fim das contas o processo se torna extremamente individual e essencialmente intransferível. Talvez, por isso, o silêncio seja preferível à testar sua fé com ouvidos virgens que não vivenciam experiências maiores do que a reprodução do ceticismo automático. Eu costumo chamar de insegurança, mas o nome é Maya.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Excessos



Dos homens, prefiro aos de coração, pois levitam. Andam por sobre as palavras, abstratos que são.
Dos deuses, os mais expressivos, os silenciosos, pois que incompreensíveis à inquietude ainda são os mais acessíveis.
Dos animais, os répteis, por que rastejam por natureza e não por preguiça.
Das sombras, as mais escuras, que de tão densas testemunham a claridade, se anulam nos contornos, e zelam pelo além.
Quanto aos mortos, prefiro aos resignados: esse mundo já tem fantasmas demais.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Satisfação

- eu estou extremamente satisfeito com o meu desenvolvimento
- você pode fazer melhor
- eu quero fazer melhor
- então não perca muito tempo com a satisfação.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Dos prazeres do Propósito


Interessa-me capacitar as pessoas.
Interessa-me a expansão consciencial alheia, a participação neste processo, o compartilhamento das informações & dos conhecimentos.
Interessa-me estar presente em meio àqueles que trilham a sua evolução, o caminho da empatia, a coleção de percepções distintas. 
Todo ato de desapego é uma revolução interna; toda pequena iluminação clareia o mundo um pouco.
Fazer parte de um ciclo de pessoas que buscam o auto-aperfeiçoamento nos diversos âmbitos de suas vidas é a utopia pela qual tenho vivido desde que me entendo por gente. E esta autonomia é a proposta política mais lúcida da qual eu já participei. 
A reorganização interna é a emancipação do indivíduo. A manutenção de seu microcosmo exige uma tomada de responsabilidades inédita, mas a recompensa por isso são estados de consciência extáticos, também nunca vistos, incomparáveis & intransferíveis.
O que me interessa é uma rede de pequenos universos em dilatação; essa progressão paleolítica e, paralelamente, pós-moderna, de fundir tudo o que é útil na auto-experimentação, labirinto à transcendência. Essa convergência de ideias & ideais, estes cosmos comunicantes, todo & cada contato com quem quer que seja que esteja na senda da Arte embevece-me a alma & traz-me para mais junto do que eu chamo de Nós.
É disso que eu estou falando.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Entre Espelhos


Três por que não era de extremos
Deus é ímpar
E o infinito é tudo mais um.

O indefinido intimida por que carece aos homens sua classificação dicotômica do terceiro.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Reflexo Reto



Não convém que outros aceitem nossas verdades.
Quando dois partilham da mesma crença, um está enganado.
A compreensão é par.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Dos defeitos da integridade


Nunca tive jeito com plantas.
A vida inteira eu carrego uma foice
e nunca nem me dei conta.




Eu prometo ser menos exigente daqui para frente, sem no entanto me tornar rarefeito.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Solve & Coagula

O Um torna-se dois a partir do limite





O limite precede a existência 




Toda existência é delimitada 



Todo limite borra-se eventualmente


Aquém.



sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Da Generosidade


Houve um dia em que 
tendo a bela árvore 
amanhecido ensolarada
pedi sua permissão 
para me aconchegar 
aos seus pés 
e uma vez ali 
sentado em silêncio 
pus-me a medir 
com olhos e olhares 
sua generosa sombra
que também me abraçava 
e a árvore 
era compreensão 
e as folhas
dança 
e o sol ao céu 
e eu ao solo 
e sob mim 
solipsismo 
o ir e vir 
primaveril 
e o humor 
do contraste:
pelas manhãs 
engrandecia 
ao meio-dia 
a vaidade 
e pela tarde 
a temperança
e quem amansa
sombra?
só lua
e olhe lá
que tudo cresce
tempo tem
e eu vendo a
impermanência
na opacidade
e as reviravoltas
do mundo
no chão 
vi por reflexos
tudo o que há 
e a sombra
não era senão
projeção de 
generosidade
pois que a árvore 
majestosa e gentil
cedia de si
tudo o que havia 
e a sombra crescia 
conforme a bondade
que quanto mais luz
mais sombra 
e no entanto 
tudo é um 
e mesmo eu
fruto e fronda.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

_______


A frase é mais completa quando a palavra falta. A linguagem é a religião que prega ao ruído o silêncio.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Dez


Caem os búzios 
sobre a toalha
simples
bate a brisa
ondula cortina
o pano recebe
a sorte
num arrepio
humano
mais que
humano
santo
Um.

não pode,
Dez.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Uma a Uma


Eu nunca entendi essas interações forçadas com desconhecidos. Eu nunca apreciei o assobio. A timidez era respeito e eu sempre soube. Meus colegas não entendiam. Ainda não entendem, mas não são mais colegas. Eu ria. Sempre ri de tudo; continuo rindo, mesmo sério. Da incógnita que sou, nunca quis atenção gratuita.
Eu nunca concedi muita intimidade, mas tenho melhorado com o passar do tempo. Talvez eu seja o oposto da desconfiança amargurada, talvez o envelhecer não tenha de ser rude.
Eu já me deparei com a frigidez, mas talvez fosse apenas fragilidade. Eu conheci a frivolidade, mas só de nos apresentarmos. Eu estive com a desilusão e ouvi todas as suas histórias. Não durou, eu acho graça nos desconsolados.
Eu não flerto a vulgaridade. A obra é o detalhe, metonímia do ser. Minha intensidade é ritmada, meu amor é dança e ritual. Tudo é sagrado, mas tem quem nem leia poesia...
Todo ponto é pausa, todo não é não, tudo é óbvio aos olhos do oráculo. Às vezes uma frase ressoa por horas, mesmo lida em voz baixa. Eu arranjo assim. É quando eu toco o ponto certo.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Os Murmúrios das Margens & o Lamento da Lama



Minha língua tem enrijecido. E isso não é lá tão bom como podem pensar certas pessoas maldosas. Eu tenho perdido a maleabilidade, as famosas papas que ninguém nunca viu, mas que todos ouvem falar. São as boas palavras que nos embabujam.
Eu converso muito comigo mesmo, e nós não falamos do clima ou nos perguntamos como vai a família, mas não é nada pessoal. Apreciamos a boa educação e não temos restrição de assuntos, apenas preferimos os cruciais. É o pensar tanto que nos afasta dos demais.
E não é que me falte paciência ou linguagem. Adubo e abundo. Faltam-me, entretanto, referências. A introspecção é a ignorância dos desinteresses. Peco em temas triviais, desconheço o contexto comum, eu não sou versado na omnisciência à cabo e estranho os sinais de rede. Não empreendo discussões, não argumento com ferro, não berro senão só.
Todavia, o que é grave é que a minha abstenção seja tomada como uma ofensa pessoal. De fato, não tem muito o que ser dito.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Câmbio, desligo.


Papai me ensinou a guardar as moedas desde pequeno. Ele dizia que eu ainda teria muito tempo para ganhar dinheiro, mas que aquelas pratinhas ali eram únicas e é por isso que reluziam tanto. Ele estava certo, seus reflexos enchiam meus olhos e o tilintar que elas faziam era o meu barulho predileto.
Nós tínhamos um cofre conjunto, eu e ele, e todos os dias eu o esperava chegar do trabalho, com seu bolso cheio, para eu depositar na fresta estreita o que para ele eram sobras e para mim eram sonhos. Então nós balançávamos bem, para escutar o som prateado e cada um chutava um valor. O cofre vivia trancado. Só o abríamos juntos, e assim meu pai me ensinava a fazer as contas. O dono do palpite mais próximo ganhava a honra de poder guardar a chave consigo até o mês seguinte.
Sempre que meu pai ganhava eu passava os dias pensando onde ele a tinha colocado e se ele era um bom guardião de chaves. Imaginava mil e um lugares onde ela poderia estar e também onde eu a esconderia quando a tivesse comigo novamente. Aquela era uma chave especial para mim, era o meu primeiro sinal de conquista de respeito e eu sentia que tendo ela eu tinha o mundo.
Um dia meu pai chegou do serviço com uma surpresa. Seu bolso estava carregado e ele mandou me chamar até o cofre. Fui e o encontrei com um sorriso diferente no rosto, um ar de mistério que logo pressenti e me animei. Metendo a mão nas moedas, foi me dando uma a uma para que eu  as depositasse e eu o fazia, cada vez mais feliz com aquela pequena fortuna que colocava para dentro. Quando acabou eu só pensava no peso do cofre, em levantá-lo e experimentar o tanto que poupamos. Estava ficando forte, meu velho dizia, referindo-se tanto às moedas quanto a mim.
Eu estava entretido manuseando o cofre quando pai pigarreou, me chamando a atenção. Olhei-o e ele tinha uma última moeda nas mãos e aquele sorriso enigmático. Estendeu-a para mim, mas não soltou quando a segurei. Fitou-me profundamente e me disse que aquela era diferente, que eu não a devia depositar, mas guardar com muito cuidado em outro lugar e preservá-la sempre comigo como um presente especial.
Era uma moeda estrangeira! Eu nunca havia visto uma daquelas e fiquei muito empolgado analisando a cunhagem, os desenhos, escritos e até o ano que datava um pouco depois do meu nascimento. Deslumbrado eu só pensava que tinha algo que nenhum de meus amigos jamais vira e que aquela era a peça chave de minha coleção. Eu brincava com ela por entre os dedos e sentia a textura do baixo relevo, a temperatura do metal. Era uma moeda já velha e um pouco suja e isso alimentava minha imaginação. Por onde ela devia ter passado? Nas mãos de quem já devia ter pousado? Eu estava muito contente com aquilo tudo, mas em meio às minhas fantasias eu comecei a me dar conta de que deveriam haver muitas outras daquela por aí... muitas, muitas outras.
Então algo aconteceu: eu percebi que talvez houvessem moedas de tamanhos, cores e formatos que eu jamais havia imaginado. Poderiam haver moedas de valores que eu nem sequer conhecia e com desenhos de rostos de reis, imperadores, políticos, ou então palácios, monumentos, cartões-postais, símbolos, coisas que eu nem conhecia, mas que muito já ouvira falar sobre. Tudo aquilo poderia existir e eu sequer entendia o que isso significava.
Toda esta gama de possibilidades começou a me angustiar gratuitamente. De uma certa maneira, eu me sentia traído pelo mundo, ou por mim mesmo, eu não sabia. A vastidão, que eu fora incapaz de supor, consumia meus pensamentos e eu estava experimentando a minha primeira desilusão, uma espécie de frustração com uma realidade que não era a minha. O misto de sensações inéditas e repentinas embrulhou meu estômago e, diante de meu pai e de todo o meu mundinho, meu querido mundinho, eu vomitei a decepção.
Papai ficou preocupado. Limpou-me, deitou-me na cama e beijou minha testa. Colocou a moedinha no criado mudo, na cabeceira da cama para que eu tivesse bons sonhos. Eu era um fracassado. Fechei os olhos com vergonha do que tinha se passado e demorei para conseguir dormir. Eu era medíocre, e só tinha dez anos de idade.
Depois daquela noite eu nunca mais fui o mesmo. Passou a desilusão, mas também o entusiasmo. Eu continuava a juntar as moedas com meu pai, mas já não via graça em disputar a chave ou balançar o cofre. Foi a época em que comecei a me sentir desconfortável em casa. Eu ainda era novo, mas sentia necessidade de desbravar o mundo, uma sede que me oprimia. Minha moeda bárbara, como eu passei a chamá-la,  só me fazia lembrar que o que eu sabia da vida era muito pouco, quase nada.
A minha pré-adolescência foi toda pautada em acumular dinheiros e pesquisar novas moedas, seus valores, suas localidades e particularidades. Todos apostavam que eu seria um exímio economista, mas eu já não gostava de apostas, especulações e palpites. Eu só queria viajar e conhecer países, cidades, cartões-postais pessoalmente. Queria visitar o verso das moedas, entender a história das caras e das coroas que compuseram a minha infância e hoje estavam trancadas num baú de memórias.
Já juntava algum dinheiro de pequenos serviços que prestava na vizinhança e pouco depois de fazer 17 anos meu pai consentiu, meio triste, em quebrar o cofre e depositar a quantia em uma poupança para mim. Agora eu tinha um cofre só meu e eu o enchia aos poucos, pensando nas viagens que eu faria. Papai sabia que o que eu mais queria era conhecer o mundo. Mas ele sabia também que parte dessa ânsia era deixar tudo aquilo para trás. Eu não sei se ele entendia, ou se ele se perguntava onde ele tinha errado. Não sei se ele se arrependeu de ter me dado aquela moeda bárbara ou se ele se conformou. Não sei o que ele disse para a família quando eu parti, e nem sei a reação de cada um. Talvez as coisas não precisassem ser assim, cheias de borboletas na barriga...
Esses dias eu estava aqui, passando no caixa de uma loja de conveniências, na cidade que eu sempre sonhara conhecer, a traseira de tantas moedas que eu já juntara. Faltava alguns trocados para inteirar a compra e ao olhar na carteira avistei a moeda que meu pai tinha me dado. Afinal eu estava ali, e ela era perfeita para a ocasião. Cheguei a tirá-la de seu compartimento, mas não paguei. Desculpei-me, desisti da compra e saí do lugar. Naquele momento eu entendi todo o amor de meu pai. E doeu um pouco mais do que qualquer desilusão infantil.

 

domingo, 5 de julho de 2015

Analfabetismo

Todo fundamentalismo é fruto de alguma má interpretação.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Coletivo


Eu tenho cinco minutos para te contar o que aconteceu. Quer sentar? Tá livre. Bem, o ponto estava apinhado. Moleque, madame, maltrapilho, nem se via a calçada desfalcada. Quebra-cabeça de paralelepípedos decomposto sob os pés da metrópole. Ônibus vai, ônibus vem, uns contam o tempo, outros a sorte. Duas coisas fazem mal ao homem moderno: a cabeça vazia e a condução cheia, o resto é conseqüência. E foi de um desses ônibus cheios que desceu um moço de boa fé e se entrosou na multidão, certamente fazendo sua baldeação corriqueira. Pois que quase nem o vi, mas vinham vindo uma mocinha e uma senhora e nestas reparei bem: de branco, bonitas de felicidade, o contraste da cidade. E da atenção que chamaram foi difícil perceber a pedra. Precisou o sangue manchar a roupa para ver bem a fragilidade do nosso respeito. E eu nem soube se eu tinha a mão ou a nuca manchada. Não sei se eu tinha atirado ou recebido a pedra. Mas, como todo o ponto, permaneci inerte, ainda mais inquieto pela chegada do ônibus. E da ambulância, que alguém chamou. Às vezes nos tomam por ignorantes e dizem que a massa não tem sentimentos. Pelo contrário, nós nos estupefazemos cotidianamente, mas conosco mesmos. O meu ponto é o próximo. Fica com Deus.


terça-feira, 16 de junho de 2015

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O RELES DOIRADO


ou Provérbios da Fome


Torna-te a ti mesmo ou toma a forma dos frívolos.
Toda faceta falseia:
Grão de areia & gravidade.
O tempo é um deserto extenuante;
Toda morte é por cansaço.
O sal é um destempero,
Mas conserva os restos da dignidade.
Incognoscível é o rastro de quem se arrasta.
Amanhar é o ofício da tempestade.
Entre as ancas da ampulheta, o orifício.
Acima como Abaixo,
Qualquer vidro bem lustrado reflete.
Dunas de rugas pelo entendimento caricato.
O teatro do quem-sou nunca exclama.
A eloquência ressecou a saliva do sábio.
O tolo azeda o ditame.
Quando a coragem cede, a cortesia celebra.
Um Rei não sacia sua sede, senão por si.
Renuncia às adversidades, 
Todo detalhe é imperfeito.
A maturidade venceu o desdém.
Enigmas são elogios.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Costelas XI


Olhos de abismo
Verde-absinto
Absoluto insolúvel
Mesmo amarga, ama-me:
Aos tragos de abstenção!

O avesso absorto
Mero reflexo-convexo
Dos aros e dos ares
Um morto por troca de olhares
Sou porto de destinos desconexos

Olho por olho
E a divina discrição.
Os sinos se dobram,
As sinas se cobram,
Amante-Talião

Investidas morrem nas lentes
Um peso, uma medida
Dente por dente
Boca mordida
O silêncio é transparente.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Indivíduo Composto


Aparto-me de quem ainda não sou
por necessidade de solidão.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

NOX


A Luz ao fim do túnel
também é o túnel
e tudo o mais.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Graça

 
Adentro ao quarto branco de sempre. Velho reduto mental. E ainda que o tenha criado agora, já o sinto há muito aqui, com memórias de parede e odor característico.

Meu quarto branco não está em meu templo. É um anexo do qual nem sempre eu me lembro. Deixo-o trancado ou o alugo por temporadas, mesmo sabendo que os hóspedes não verão a graça ali. Uma pena, contudo, não deixo de oferecer. Faltam espaços neste emaranhado.

É um quarto alto e amplo, sem janelas, mas com uma larga porta de madeira, também branca, que abarca  toda a abstenção. É, por isso, confortável, mesmo sem uma cadeira ou colchão.

Meu quarto branco nada tem, senão sua graça refinada, que quanto mais nada, mais sutil. Mas há quem ache suas paredes de um branco muito claro esse o do despropósito. Pois, para mim, a ansiedade que não se deixa acolher é desses cinza-sujo-cosmopolita, paleta padrão.

Embora todo branco, este é um quarto de sombras. A contemplação aciona a luminosidade e só se vê com bons olhos quem se habitua a tal. Às vezes eu passo a eternidade por aqui e dura um sorriso de canto de rosto. Mas que sorriso...

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Estilhaçado


Do brinde restou a mentira:
talvez tudo termine,
sim.
Em entrelinhas ou não,
talvez tenha faltado dizer:
amo-te
e, não como os demais,
que já passaram por essas minhas
páginas em branco,
talvez eu tenha te dado muito;
talvez fosse eu
quem ultrapassou as expectativas
numa curva côncava,
ascendente,
e não esperei.
- Dizem que eu esperei demais,
mas também muito penso,
e jejuo
dessa maçã que lhe é tão cara
e na qual você cospe
e pisa
e vomita.
Talvez eu tenha me exaltado:
quis te mostrar a Queda,
e te colocar abaixo,
ainda mais abaixo,
onde você julga ter conhecido,
mas te afirmo que não,
e nem quer
e nem eu quero.
Então eu me lavei do
ÓDIO
e do rancor
e da decepção que,
convenhamos,
era previsível
- Eu nunca consulto os Oráculos para o Óbvio 
foi como compus
estes fragmentos
que ajuntei
do que esfacelou.
Mas,
se tenho pena?
pesar, piedade
pecado?!
sua penúria é seu problema,
de mais ninguém.
Perdoe-me por ser sincero,
uns tentam,
outros são.

terça-feira, 28 de abril de 2015

CARTA AOS ILETRADOS


Querido Sísifo,
Belo mármore!
Carrega-o de novo
                              [para longe, vai

sexta-feira, 17 de abril de 2015

GÊNESE


No início
Havia cortinas de veludo vermelhas
Que encerravam
Por trás de si
O Vazio Primordial
&
Ao canto de conciliação
Contraiu-se
O vasto oceano escuro
Num rasgo seco
Do romper de tecidos
&
Da fenda
Fizeram-se feixes
E por cada fresta
Flechas
De Luz
&
O Imanifesto
Inefável
Esboçou-se
Primeiro baço
E então evidente
&
Houve o deslumbre
Tudo o que Há
Experimenta-se
Em uma apoteose
Apocalíptica

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Verso de Desalento


Alegria simples que se lê devagar
de tarde de infância de casa de vó
do ideal nunca vivido
da sépia da mente.
Alegria triste,
saudades
do que não foi.


quarta-feira, 25 de março de 2015

DOS SÓIS QUE ME ORBITAM



Imparcial é Impessoal.
Intimidade é o que eu tenho comigo,
 o resto é retórica.

Indivíduo composto, Legião.
das pérolas & dos porcos,
 a palavra é desperdício.

Sujeito de Sete Sombras
assumo & assino:
Compreensão.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Ceifa & Seiva

vermes arados
repartidos & conformados
perdoam à morte
pois sabem da sorte
de se rastejar



volte sempre!