sexta-feira, 8 de maio de 2015

Graça

 
Adentro ao quarto branco de sempre. Velho reduto mental. E ainda que o tenha criado agora, já o sinto há muito aqui, com memórias de parede e odor característico.

Meu quarto branco não está em meu templo. É um anexo do qual nem sempre eu me lembro. Deixo-o trancado ou o alugo por temporadas, mesmo sabendo que os hóspedes não verão a graça ali. Uma pena, contudo, não deixo de oferecer. Faltam espaços neste emaranhado.

É um quarto alto e amplo, sem janelas, mas com uma larga porta de madeira, também branca, que abarca  toda a abstenção. É, por isso, confortável, mesmo sem uma cadeira ou colchão.

Meu quarto branco nada tem, senão sua graça refinada, que quanto mais nada, mais sutil. Mas há quem ache suas paredes de um branco muito claro esse o do despropósito. Pois, para mim, a ansiedade que não se deixa acolher é desses cinza-sujo-cosmopolita, paleta padrão.

Embora todo branco, este é um quarto de sombras. A contemplação aciona a luminosidade e só se vê com bons olhos quem se habitua a tal. Às vezes eu passo a eternidade por aqui e dura um sorriso de canto de rosto. Mas que sorriso...

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