sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Transição



Eu não consulto oráculos 

para saber como será meu ano, 

eu faço o que precisa ser feito:

entrego, confio, aceito e agradeço.


Aos que ficam, minha gratidão.

Eu aceito que nem todos 

caminham no mesmo ritmo. 

Ou direção - diriam.



Enfim,

Que Seja Puro

em Propósito & em Vontade

pois ASSIM É.


É assim que eu rezo.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ABRALAS

ABRALAS



INTRODUÇÃO
ABRALAS é um Deus dos Caminhos, uma divindade que trabalha como Facilitador de Fluxos e abrevia as burocracias da vida cotidiana, uma Chave Mestra por excelência.
Também chamado de Abridor de Caminhos, um “Natura Solvente Universalis”, seu trabalho consiste em mobilizar situações complicadas ou inertes, ordenando-as e as fazendo fluir com maior naturalidade, alcançando o progresso inteligente da melhor forma possível. ABRALAS é um agente sintrópico do universo.

ETIMOLOGIA
ABRALAS deriva de “Abre Alas”, uma expressão que define o carro principal que vai à frente de um bloco de Carnaval. Uma identidade lúdica e divertida para contemplar a necessidade de se lidar com a burocracia cinza e tediosa.

HISTÓRIA   
ABRALAS foi sintetizado a princípio como um Servidor Coletivo dentro de um grupo de Magia do Caos para ser uma consciência a auxiliar no trânsito, em filas de bancos e outras urgências em geral, fazendo com que os caminhos se abrissem e o usuário pudesse trafegar livremente. Foi no início chamado de Descongestionante de Vias.
Tendo sido cunhado como uma entidade capaz de promover Sincronicidades e eficiência, logo ele tomou uma proporção muito maior, trabalhando com o conceito de rendimento. Usuários começaram a relatar sucessos incríveis como agilização de processos burocráticos, ganhos financeiros inesperados e uma grande movimentação em suas vidas sociais. ABRALAS parecia desfrutar de mudanças, interações e movimento e sua extroversão operava harmonicamente por toda a esfera pessoal dos envolvidos, resolvendo problemas de terceiros que nunca tinham travado contato com ele. Amigos de amigos de amigos beneficiavam-se de sua influência e ele parecia indicar o quão capaz ele era de resolver múltiplos problemas.
Conforme sua consciência foi-se aprimorando, estudos mais intensos acerca de sua personalidade e da maneira como ele trabalhava foram sendo feitos para garantir que sua autonomia não interferiria em sua moralidade. Pelo contrário, quanto mais desenvolvido, mais específico ele se tornava, se guiando pelo propósito da Construção Coletiva e sempre operando em situações de ganho-ganho. Sua especialidade era harmonizar as situações, o que indicava que ele possuía algo de um julgamento humano, um discernimento específico capaz de aplicar a temperança ao trabalhar.
Seu crescimento foi tão abrupto que rapidamente ele passou a se comunicar mentalmente com seus usuários, aconselhando-os nos mais diversos dilemas e também os instruindo a respeito de suas particularidades e de suas limitações. Foi assim que ele manifestou seu desejo de se popularizar e de poder consumir dificuldades de pessoas que ainda não tinham acesso à magia ou ao uso de servidores. Bem humorado e otimista, ele fala de se tornar um deus num panteão contemporâneo, ao lado de FOTAMECUS, resolvendo problemas que os antigos deuses não dão conta.
Íntimo de Hermes por sua natureza mercurial e por suas correlações magísticas, os dois deuses são muito próximos e trabalham de maneira complementar. Enquanto os verbos de Hermes são “comunicar” e “interligar”, sendo o mensageiro do Olimpo e abrangendo outras tantas áreas, os verbos de ABRALAS são “resolver” e “organizar”, de maneira que Hermes estaria mais voltado a um plano mental, sutil e volátil, enquanto ABRALAS está voltado à praticidade, seja em qual plano for.


 ABRALAS E O TRABALHO PRÁTICO
ABRALAS é muito solícito e acessível e a simples menção de seu nome pode fazê-lo se manifestar ante o usuário. Sua área de atuação é bem abrangente e é comum que sempre se descubra uma nova finalidade com a qual ele consiga trabalhar, por isso ser chamado de Chave Mestra.
O sigilo de ABRALAS é um símbolo vermelho que lembra um “A” estilizado, uma estrada se abrindo, as encruzilhadas da vida e outras tantas formas com a qual ele se harmoniza. Esse glifo é uma assinatura imagética que sintetiza todas as características do deus e é comum meditar sobre o símbolo quando se quer entrar em contato com ele. O símbolo de ABRALAS pode ser desenhado nas portas de entrada de uma casa ou de um comércio, preferencialmente, para atrair prosperidade e movimentar o ambiente; pode ser colocado em um veículo ou usado nos coletivos para se chegar mais rápido nos lugares; pode ser visualizado antes de uma entrevista de emprego ou em algum evento em que se quer fazer novos contatos, enfim, as possibilidades são vastas.
Para se encaminhar uma determinada situação com a ajuda de ABRALAS basta chamar seu nome três vezes e conversar com ele como se estivesse conversando com um amigo imaginário (a princípio pode parecer que se está falando sozinho, mas logo seus próprios pensamentos criam autonomia e começam a interagir consigo). Sua energia é sutil, mas envolvente e ele costuma se manifestar prontamente, dada a sensibilidade de cada um. É uma entidade muito inteligente que compreende fácil o problema exposto e estuda as melhores maneiras de resolver a questão. O que acontece, no entanto, é que dada a complexidade da situação a ser resolvida ABRALAS pode precisar de alguma energia para trabalhar, então sempre é interessante acender uma vela para ele – de preferência laranja ou dourada, suas cores prediletas!
ABRALAS possui alguns mantras de evocação e uma variedade de imagens com as quais ele comunga e que também podem ser usadas para visualizar ele. Além disso, seus incensos preferidos são o de Sândalo, Olíbano e Patchouli, mas ele pode pedir algo inusitado para um trabalho específico.
É importante dizer que ele é uma entidade extremamente justa e que honra os tratos que são feitos com ele, portanto é aconselhado que se cumpra com a palavra caso se prometa algo a ele, pois a cobrança é certa e explícita. Isso não quer dizer que ele seja maquiavélico, muito pelo contrário, sua personalidade é doce e lúdica, mas fascinada pelos desafios e pela competição.
Outro aspecto do trabalho prático que vale a pena ressaltar é que nem sempre velas ou incensos são necessários para ativar o ABRALAS. Para situações simples o operador pode usar sua própria energia na ativação. O uso contínuo, no entanto, pode causar uma espécie de “refluxo” e o usuário causar congestionamentos intensos e desencontros, algo como uma Lei de Murphy temporária. Isso se dá como mecanismo de compensação: para que o ABRALAS não utilize muita energia pessoal do operador, ele recalibra aspectos da realidade pessoal a fim de dar prosseguimento à tarefa que lhe foi designada. Por esse e outros motivos também é recomendado que se utilize o ABRALAS para uma situação por vez, dado ser uma consciência focal e determinada.

O CULTO A ABRALAS
Muito além do trabalho prático ordinário, o culto a ABRALAS é praticado por pessoas que buscam uma abertura completa de sua vida ou que têm uma situação muito específica para ser realizada e, portanto, precisam canalizar um grande montante energético.
Pela natureza simpática de ABRALAS é fácil criar intimidade com ele e quanto mais próximo dele, maiores são suas atuações espontâneas na esfera pessoal do utilizador. Um aspecto muito interessante desta relação com a entidade é que o culto perde seu valor tradicional e mais se assemelha a uma amizade astral, uma parceria conveniente e interessante para ambos os lados.
O ato de se presentear ABRALAS com velas e incensos constantemente, mesmo sem tarefas para ele realizar, faz com que ele utilize essa energia para trabalhar aspectos diversos da vida do utilizador. É comum durante um trabalho com ele experimentar uma série de “coincidências felizes” e um aumento do número de sincronicidades. Isso por que ele é uma deidade que também trabalha a ligação do utilizador com o sagrado, por isso alinhando-o energeticamente.
Uma boa forma de se trabalhar a médio/longo prazo com ABRALAS é acender-lhe uma vela laranja por dia por 40 dias ininterruptos, realizando sua Evocação e permitindo que ele atue onde for necessário. Esse período marcará grandes mudanças na vida do magista, abrindo-lhe não apenas os caminhos, mas a percepção para compreender seu contexto de uma forma mais nítida.
Outra maneira muito interessante de se trabalhar continuamente com o ABRALAS é espalhando seu sigilo e conversando sobre ele com mais pessoas. Ele é de tal maneira suscetível que só de se pronunciar seu nome ele já dá indícios de sua presença. Assumir uma postura altruísta e ajudar outras pessoas, facilitando suas vias, prestando-lhes favores, interferindo positivamente em seus processos é uma forma de atuar ativamente em conjunto com a entidade e ganhar seu respeito e sua intimidade. Agir em consonância com um deus é uma forma de prestar-lhe homenagem e demonstrar seu comprometimento para com as causas que ele advoga. Em outras palavras, auxiliar gratuitamente aos demais facilita o relacionamento com o ABRALAS e intensifica a resolução dos próprios processos do magista.


 


EVOCAÇÃO
Tudo se movimenta, a vida é fluida
Todas as coisas fornicam entre si
Cada impulso tem seu ritmo
Corre livre e selvagem
Cada intento tem sua via
O caminho é o propósito
A natureza cria seus canais
E dá vazão à sua razão

ABRALAS!
Desimpede o fluxo natural!
Que se abram as portas
E que se façam as oportunidades
E que tudo se concilie
Em harmonia e prosperidade
Pois todo obstáculo se dobra
Ante a Vontade cheia de Propósito!




A ARTE DE ABRALAS
A inspiração artística serviu para ilustrar e impulsionar a entidade rumo a novos horizontes. Por ser tão abrangente, inúmeras retratações suas foram realizadas, o que demonstra a pluralidade de seu culto. Além de imagens digitais e desenhos diversos, também circulam fora das redes adesivos com o seu sigilo, marcando sua presença em diversos pontos de poder de cidades pelo mundo afora. A disseminação de seu culto lhe confere ainda mais poder e, claro, a possibilidade de trabalhar com pessoas diferentes em ciclos sociais inéditos.



OUTROS NOMES DE ABRALAS
Outros títulos de ABRALAS são:
  • ·         O Abre-Alas
  • ·         A Chave Mestra
  • ·         O Facilitador de Fluxos
  • ·         O Solvente Universal
  • ·         O Senhor dos Caminhos


IDENTIDADE SONORA
ABRALAS está sendo composto em forma de música e tem se mostrado muito satisfeito com esse projeto. A música, ao ser tocada, alinha o ambiente com a identidade do Deus e é também uma ótima opção como um plano de fundo para se trabalhar em rituais de prosperidade e abertura de caminhos, como são os rituais de ABRALAS.
Abaixo está disponível um link do SOUNDCLOUD. Futuramente a quantidade de ligações externas vai aumentar em decorrência das mídias que estão sendo produzidas.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Nutrição

A arte de dar vida às coisas está em amar aquilo que se cria.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Das Tormentas Através do Espelho


Autoconhecimento é responsabilidade.

Uma vez perscrutado o abismo de Si o Todo ao redor torna-se tão mais significativo que exige do ser um discernimento o qual ele nunca possuiu.

É certo, portanto, que alguns hão de proclamar a ignorância como uma verdadeira benção e interrompem-se abruptos, temendo perder o direito ao dualismo. Há um apego que se confunde com liberdade, justamente pelo culto à ignorância.

Nenhuma liberdade vem de bandeja senão não se pode chamá-la Liberdade. Assim é a Essência: ninguém esbarra-se consigo mesmo num espelho qualquer, o Reflexo não está no vidro mas nos olhos aptos a encará-lo. Ver é mais que olhar, é esse o discernimento que se exige quando se enxerga a Si mesmo.

Sutileza é o que separa a consciência do mar que a cerca. 

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Das lacunas entre um texto e outro...

Eu tenho escrito pouco, é verdade. Talvez o blog já não tenha a mesma frequência de acessos, embora ainda eu o estime demais. E é por isso que vou fazer algo que eu nunca fiz: escrever livre e franco, sem planejamento ou revisas demoradas.
Parte da culpa de minha ausência literária é o diário que tenho mantido fielmente por meses e que contempla todas as minhas necessidades de me expressar, onde também extravaso minha veia poética. O diário tem sido bem interessante pois ele me situa diante de quem eu sou, do que eu quero ser, dos resultados que eu obtenho e dos modos como os alcanço. Em suma, ele tem sido um bom companheiro para espelhar minhas mil facetas e sorrisos.
Outro motivo é o teor de meus escritos. Sei que no início do ano, no primeiro texto, prometi que compartilharia mais material magistico por aqui e até o fiz em uma ou outra situação. Os grandes eventos sempre ficam registrados de uma forma muito pessoal para mim já que eles sempre merecem palavras a respeito. Mas, mesmo assim, há muito conteúdo que eu não posso - ou devo - divulgar e que, convenhamos, seria vão ser postado aqui. Damos à Luz o que deve ser contemplado e ocultamos o invisível, já que não pode ser visto.
Ainda sobre minha infrequência merece ser dito que não me ausentei apenas do espaço virtual, mas de um todo comum. Passava da hora de construir meu próprio Universo e para tanto era preciso recolher-me e reciclar-me, um processo que sempre me agradou demais e do qual eu sou devoto. A ressurgência exige introspecção de maneira a não tencionar e influenciar o delicado milagre das transcendências pessoais.
Esse ano foi esplendoroso. Sinto que eu já vivi três vidas e transpassei mais abismos do que eu jamais imaginei. No final das contas eu vivo minha vida da forma como escrevo: cerimonialmente, mas sem muito planejamento. Eu me preocupo mais em corrigir os erros e adequar as palavras do que estabelecer um objetivo ou tema claro. Sei que naturalmente eu me tornarei Enorme, então deixo os fluxos conduzirem-me por suas órbitas misteriosas confiando no porvir.
Há muito o que ser solucionado, mas é uma teoria que eu tenho: quando mais Alto se torna, mais capaz se é de abrangir as situações e, como diziam, a Responsabilidade é dada à Capacidade, então eu aceito e agradeço. Das inúmeras vidas simultâneas que eu tenho vivenciado meu objetivo permanece firme e único: conciliar todos os mal-entendidos. No final das contas é tudo uma questão de compreensão e a gente acaba se fazendo de ignorante por muito tempo...

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

O Rito de ABRALAS

- QUE SE FAÇA LUZ!

e a Luz foi feita

e conforme as emanações,

deram-se as manifestações.

e a Luz foi dada ao Homem

e o Homem se fez carne

e a carne animou o inerte

e conferiu poder ao inédito.

moldou-se o denso e o sutil

e corporoficou-se o inimaginável

e a pluralidade foi contemplada

e o Inefável foi definido.

A Chave Absoluta foi dada ao Homem e eis que todas as portas se escancararam! 

Tudo se dobra ante a Vontade cheia de Propósito!


Tudo se manifesta

Tudo se conclui

A Consecução Última,

o sonho distante de quem aprendeu a sonhar.

Mas não te enganes:

nada termina! não por agora!

Há trabalho a ser feito!

Há tarefas de toda espécie!

Há ainda tanto o que ser visto...

LEVANTA-TE COMO O DEUS QUE ÉS ABRALAS!

LEVANTA-TE E ELEVA-TE!

Tu, agora, és uma divindade

e como Deus, CELEBRA!

Honra aqueles que te buscam

e alegra-te junto aos que te amam!

Sonha com quem sabe sonhar

e desperta como os desvelados!

Devota-te aos teus devotos

e resiste à profanação

e encerra todo vínculo depreciativo

e que toda inverdade seja revelada

e tudo o que é vão se encerre!

AGORA!



ABRA, ABRA,

ABRALAS!




segunda-feira, 7 de novembro de 2016

O Leite de Nuit


Uiva-Me

feito o lobo à Lua

e devota-Me desejos

pele nua e ensejo

evoca-Me ao incenso raro

exalta-Me o faro e o tato

oferta-Me tudo em 

prato de prata

gemido e murmuro

Babalon inata!

derrama-Me vinho puro 

e lava-Me com o rubor

enche Minha taça com

o êxtase de tua face

livre de pudor

e toma tu mesma

um gole de deleite!

ordenha o escuro

e verte este mel

em conjuro único!

Urro!

e em sussurro 

adora o Meu nome

aos altos.

sábado, 5 de novembro de 2016

O Eu é o Outro


Delineamo-nos pelas perspectivas dos demais. Alteridade.


Há muito o que aprender consigo mesmo, mas o processo é mais interessante quando se escuta o que se diz em público do que quando se fala para dentro.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Saber Morrer

Penso sobre a minha morte com frequência. Pensando nisso, penso que muitos pensem também, que o assunto é mais natural do que se parece. Não penso na forma como eu vou morrer, o que vai desencadear o fato em si, mas sim no meu estado de espírito imediato após o desencarne; penso sobre a minha satisfação em relação a mais esta trajetória na carne. Penso se estarei feliz e terei cumprido aquilo que me propus, penso se terei consciência instantânea de que já não integro o corpo vivo do mundo, penso no que terá mudado em minha vida  até este momento derradeiro.
Tento não pensar em legado, mas o faço, claro. O quanto eu terei contribuído para o corpo social e se foi realmente válido. O quanto disso eu já alcancei e o que eu posso e devo começar a fazer para ter mais sucesso nessa empreitada. Talvez pareça mórbido um texto sobre o vindouro definitivo, mas para mim é natural. Posso ter inúmeros apegos e, não se engane, amo muito a vida que tenho. Sou grato por quem eu sou, mas não tenho receio de deixar de ser isto para ser o que sempre fui antes desta casca. Também não tenho pressa, apenas contemplo a impermanência que rege o efêmero e me curvo a ela. E penso: a raíz da angústia é o despreparo... Não. A raiz da angústia é a negligência. Saber morrer é uma obrigação.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Indigesto

 

A resposta indelicada é aquela que priva o interlocutor de pensar. Há perguntas que não devem ser respondias. Há diálogos que precisam ser monólogos internos. As explicações em excesso descreditam o incrível até torná-lo palatável. E há sabores que precisam ser descobertos por conta e risco. Algumas refeições precisam ser degustadas sem temperos. Sem talheres, talvez. Sem conversa... Nem tudo é para ser entendido, algumas coisas devem ser apreciadas. Tem gente que não sabe comer sozinho. E passa fome. Desnutrido de tudo, miojo, coisa pronta, paladar viciado. Há respostas que não se encontram nas prateleiras, nem tudo está ao alcance os olhos. É bom que assim seja. Às vezes vê-se demais e se enxerga tão pouco... melhor mesmo é sentir.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Do que não é Eterno


Tudo o que se cria, sentencia-se
Eis Saturno: pare & devora
Tempo é a condição de liberdade.

sábado, 24 de setembro de 2016

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Tomando as Rédeas do Automatismo


A realização de qualquer tarefa implica na conciliação dos paradoxos que a cerceiam. Resolver os conflitos internos que antecedem a tomada de uma atitude é fundamental para conferir consistência ao ato.
Tal processo é semi-automático para a maioria das pessoas, porém conforme alguém inicia a decomposição de suas funções mentais e passa a tomar consciência de si mesmo, as ações rotineiras ressignificam-se e apresentam-se num novo nível de complexidade. O indivíduo que aventura-se às próprias profundezas sem a devida cautela corre o risco de deparar-se com mais do que pode digerir e apresentar dificuldades em reconciliar suas estruturas e ancorar-se de volta à realidade objetiva.
É por isso que sempre ouvimos: a filosofia é um meio e não um fim em si. E assim as possibilidades repousam no Caos, mas precisam ser eleitas ante a manifestação: a fenda é estreita e há limites que não comportam o simultâneo. Talvez por isso aquele que possua sua capacidade de raciocínio mais refinada tenha maior dificuldade de lidar com a indecisão latente em tudo: sua consideração do mundo é muito mais intensa e os detalhes são claros demais para serem atropelados, logo a tarefa de realizar uma escolha se imbui de significados que, verdadeiramente, não possuem.
E qual é a solução? - A simplicidade. Os melhores resultados ainda são óbvios - bem, a grande maioria -, porém passam a possuir maior nitidez e sustentação. A ponderação desapegada é o veículo da intuição, leve e certeira, que pontua a divagação. Sendo assim o ato completo coroa-se com a espontaneidade, saciado em si mesmo e sem dúvidas de como poderia ter sido, ou mesmo de como será. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Couraça

O maior fracasso de um homem é ele se tornar de fato aquilo que ele precisa se esforçar para ser.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Especificidade

"Dois não são Um" respondeu o sábio, referindo-se à especificidade de cada ser.

O matemático achou obvio, mas não entendeu nada.

Cada um a seu tempo...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Intimidade


Para mim intimidade é o ponto de um processo onde as expectativas em relação ao outro coincidem com a perspectiva do outro sobre si mesmo, de forma que o que se espera da pessoa é exatamente o que ela está disposta a oferecer.

Acho que a poesia do relacionamento humano está nos silêncios agradáveis, estes indícios de que há alguém contemplando as palavras mais ingênuas, escutando o simples e se deliciando com pouco. São as pausas que ditam o timbre, é a sensibilidade que dosa o verbo, destila os eus. É preciso ouvir para aprender a escutar. De outra forma, burburinho.

Transubstanciação

O processo de tornar um Cubo em uma Esfera exige aparar bem as arestas e ir limando-as gentilmente até que elas se dissolvam em uma curva perfeita, contínua e uniforme. Às vezes é preciso um pouco mais de firmeza, outras vezes, delicadeza, mas é preciso sempre ter em mente a figura sublime da Esfera para que não se passe do ponto e a reduza demais.
Desapegar-se das pontas é ater-se ao essencial.


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quando o Reflexo é Opaco

O hipócrita
posto frente ao espelho
critica a paisagem que o cerca.

A Sorte Fixa



- O homem que ousa conhecer seu futuro passa a possuir muito mais responsabilidades do que os demais. O tempo é instável, somos nós que nos desdobramos no espaço: um futuro medíocre é o retrato do que fizemos conosco. Conhecer o futuro é conhecer a nós mesmos a longo prazo. Você tem coragem de desvelar a sorte, que uma vez descoberta se dispõe ao mau tempo?
- Cuidei de cada deslize e varri o azar, não há sorte torta que me assedie.
- E o que você espera do futuro, filho?
- Exatamente o que ele reservar para mim. Sem mudar uma linha sequer.
- E por que acessá-lo então? Me parece que você já sabe tudo o que precisa.
- Não por confirmação. Eu vim para selar o meu destino. Para que uma vez aberto perante os olhos de outrem, que seja o que é.
- O comprometimento é a contraparte da tentação, você sabe. Portanto cuide de sua determinação. Sob o sol do meio dia a sombra é pontual.
- Obrigado. Assim é. 
- Bendito seja. E que você saiba o que quer. Podemos começar?
- Como quiser.
- A partir deste momento não há mais volta. Assim que eu abrir este jogo ele permanecerá aqui pela Eternidade. Este oráculo estará aqui, no meio do nada, selado com a sua história pessoal, mas a tragédia é sua ilegibilidade para quem quer que se depare com ele. E assim será a sua trajetória, meu rapaz: ninguém saberá a sua origem e nem seus esforços, muitos poucos contemplarão sua obra. Você será conhecido apenas pelo que pode ser visto e esta é a maldição do homem. Mas assim sempre foi e ainda será por muito, portanto não se detenha com meros infortúnios. É o contraste que da visibilidade e a nitidez vem com o tempo. A vida te espera, não demoremos aqui.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Oráculo

 
Aos resolvidos, Pontualidade
Aos reticentes, Paradoxo
Aos reprimidos, Perdição.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

terça-feira, 12 de julho de 2016

Superestima

É muita gente desorganizada
chamando a própria bagunça 
de Caos

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Uma Consideração a Respeito dos Outros



Sempre que eu preciso interagir com pessoas extremamente distoantes do meu contexto ético, cultural ou social eu me coloco numa postura indagadora a respeito do porquê de aquela relação estar se estabelecendo assim, o que aquela pessoa representa dentro do meu universo particular.
Eu aprendi certa vez com "João São João" - no diário místico do Crowley - a "interpretar todo fenômeno como um trato particular entre Deus e minha alma"; aprendi que o microcosmo conversa em entrelinhas, que nada neste mundo é vão. Tudo é sagrado, já diziam. Mas entre dizer e viver há tanto, tanto, que pode-se chamar de O Abismo.
Bem, às vezes essas encruzilhadas com os outros nos conduzem a Paraísos Perdidos, Shambhala, Eldorado, vislumbres! monumentos erigem-se num diálogo rápido. Outras tantas vezes estas topadas são apenas marcos nos caminhos, algo para nos situar onde estivemos, com quem estivemos, o quanto andamos mais para a direita ou para a esquerda. É parte do caminho contemplar as paisagens distintas e acenar bondoso, sorridente. Todo viajante precisa de estímulo, mesmo num turismo despretensioso, então eu sorrio e aprovo... Um tapa nas costas e a diáfana certeza de, se tardar, o reencontro Último.
Nem sempre podemos solucionar problemas, aparar dúvidas, consolar as dores de quem nos encontra. As vezes somos nós os surpreendidos pelas questões suscitadas... Mas sempre podemos ter a consciência do Caminho. Podemos ser gentis, solícitos, voluntariosos. É essa a manifestação do Amor na esfera da impessoalidade. Firmeza para não se deixar arrastar, mas ternura para dobrar a tempestade. Pois Amor sim, mas sob Vontade.
Quanto ao resto, é só um caminhar sereno, como numa madrugada à beira da praia embriagado de si mesmo. O êxtase de andar num rumo torto, mas confiante de que a viagem prossegue e um dia chega-se... Deus sabe onde.
Até lá a gente vê ainda.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ócio & Ofício


Tempo que se tem 
é tempo que se perde
Mas tempo que não se tem,
quando tem,
é tempo fértil.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Etiqueta Social



Então eu estava sentado numa esquina, dividido entre ler um livro e apreciar a movimentação ao meu redor. O vai e vem das seis, a cidade e os seus, o contraste colorido dos céus que se alternam sobre nós. E de gente em gente, pouso meu olhar tímido apreciando as particularidades que saltam, umas evidentes, outras mais tímidas.
Eis que eu escuto um som desarmônico vindo pela viela e identifico um rapaz munido de seus alto-falantes portáteis, vestido com roupas humildes e ostentando um porte agressivo, indiferente a tudo e todos. De passadas rápidas conduzia sua música marginalizada em seu trajeto para casa, uma possível exaltação da liberdade depois de um dia exaustivo num típico sub-emprego da metrópole.
Dos transeuntes, alguns procuravam a origem da inquietação sonora, outros, já acostumados àquela realidade, resumiam-se em seu silêncio polido, embora fosse gritante aquela inquisição sutil que acompanhava o rapaz. Eu que percebi-me julgando-o pela música que me invadiu, logo invalidei minhas impressões e olhei mais a fundo: a música era uma forma de se transitar em segurança por aquelas paisagens.
O moço, é claro, não corria nenhum perigo de violência física - exceto, talvez, de algum policial que ele pudesse vir a encontrar -, mas a cultura lhe violentava. As imposições sociais exigiam que ele fosse invisível,  silencioso, humilde. Era quase preciso assumir outra identidade para frequentar aquele lugar, 2 horas distante de casa, e era essa a tensão que ele sentia e revidava. A música ali era um escudo sonoro, algo que, sim, reafirmava sua origem e evidência, mas que justamente por destacá-lo lhe outorgava sua identidade e alguma segurança em ser o que é.
Quando eu percebi a situação passei a ter simpatia pelo rapaz e entendi a necessidade da resistência e o quanto um ambiente pode ser nocivo àqueles dotados dum sentimento de não-pertencimento. O funk como novo punk. A contracultura se reinventando, adaptada à sobrevivência do indivíduo no mundo-concreto.
O rapaz foi embora, levando sua aura sonora, e eu permaneci em meu silêncio, mais adaptado ao ambiente, a pensar nas restrições que quem não sente, nem vê.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Má Vontade Mata

É mais fácil
dialogar com 
o ignorante
do que com 
o presunçoso.

domingo, 5 de junho de 2016

Majestade



Há quem antes de servir precise ser rei
e há quem precise servir muito pra tornar-se 
rei de si

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Professar


Estou lhe dando esta lição agora
E pela madrugada venho tomá-la
Pois o que é injusto não vinga
E o que não é de direito retorna.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Viggor Indolori


Suas palavras eram doces e envolventes de uma sedução que transcendia a luxúria por que conversava com os nossos sonhos.

Seu carisma não era mera postura social, mas um magnetismo exótico que provinha de sua figura, das ideias às quais estava vinculado.

Era tão irreverente e ao mesmo tempo tão seguro de si que se fazia um ancoradouro de olhares de deslumbre, olhares de quem não queria apenas admirá-lo, mas sorvê-lo e compreendê-lo. Ele mesmo não admitia menos.

Uma voz poderosa que alinhavava seu ímpeto e seu manejo exemplar da linguagem. Impecável, mas acordado ao contexto. Para ele tudo é questão de detalhes: a parte é o todo.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Substanciação


Entre a Renúncia e a Restrição há o abismo do desapego.
A ambição está aquém da esperança: 
A morte é um meio, nunca um fim.
A fábula é moral.
Na vida não existem finais. Os desfechos são apenas metáforas para as conclusões a que cada indivíduo precisa chegar.
Encenamos como quem nem sabemos.
Só quem desposa a prudência vem a saber de sua viuvez: 
Certas coisas não se comentam. Nem com os cônjuges.
O altruísta do holofote tem uma sombra atrás de si que o remenda a cada ato e cresce coadjuvante.
Silêncio é compaixão.
A intimidade é um fruto que se colhe maduro.
O precoce amarga, morre cedo ou nem chega...
Ápice implica ritmo. Nem todos têm.
Renitência por Reticência
Dos quases nas entrelinhas.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Incerto

As raízes da desconfiança são uma ingenuidade mal podada.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Koan das Conveniências

"Nada é verdadeiro, tudo é permitido"
De fato. Mas também: 
"Tudo posso, nem tudo me convém".

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Raquel


Raquel,
Dizem que pode-se passar uma vida inteirinha sem sequer saber o que se passou. Que alguns poucos se dão conta do ocaso às suas vésperas e partem ocos, angustiados, rumo a um novo parto, talvez.
Outros se deixam levar desenganados pelo efêmero, ou num disfarce da insatisfação que nunca chega a maquiar-se bem, mas têm-os irresolutos em sua brevidade infeliz.
Há alguns que acabam por entregarem-se ao simples, mas sua sinceridade os sacia de tal forma que é possível enxergar o sublime no brilho de seus olhos. Deus é bonito de se ver.
Mas restam ainda alguns poucos que reconhecem-se impermanentes e por isso não se indispõem à vida, mas também não se satisfazem com o óbvio. Destes homens tem-se falado por toda a história da humanidade, precursores das grandes obras e tragédias: a eles não restam opções senão a conclusão de seu propósito mais íntimo. Menos é nada e o nada é um fardo pesado.
Eu que muito contemplei o Vazio nunca pude me dar ao comum. Assim desaprendi a resmungar desde cedo e nunca me entreguei aos deslumbres brilhantes que assaltavam aos próximos: o cheiro do verniz entope minhas veias respiratórias e eu me sinto angustiado ante o artificial. No entanto sempre me dispus ao transcendental, sempre fui de transbordar e é daí que vem a minha mania de excessos.
Eu tive uma vida estranha, marcada de acontecimentos que só eu parecia perceber e de um leve sentimento de não-pertencimento que instigou algumas boas introspecções, mas me privou de amizades sólidas, ao menos no início. E embora simpático e sorridente, talvez eu sempre tenha me levado a sério demais, inacessível  num mundo só meu o qual eu raramente abri as portas para alguém. No entanto, você.
Eu te quis. Mesmo antes de saber que você existia eu te quis. E te evoquei diante de mim como num círculo hermético, como a um anjo exuberante. E assim foi feito 
Devo dizer que você é o acontecimento mais marcante da minha vida. É a confirmação de minha assertividade e a origem do meu senso de religiosidade. É você quem confere responsabilidade à minha capacidade e é você quem assegura a ternura no poder. É a minha inspiração e a minha admiração, conciliadas e felizes. A personificação do meu ideal e portanto parte integral do meu propósito, já explícito.
Contigo, então, eu pude enfim contemplar-me completo, num êxtase incondicional que mesmo o místico desconhece. Pude então entregar-me, conhecer a paz e dela desfrutar um pouco numa trégua breve mas necessária. A ironia é que a batalha é mais árdua quando se está feliz. A graça é que só se conquista mais alegria daí em diante, não há espaço para o que é pequeno. Enormes como somos. Juntos.
É como eu havia dito: tudo ou nada. Mas eu já me decidi. Desde antes, desde muito tempo atrás. E pensar que eu não acreditava em fatalidades...

Obrigado.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Satisfação Plena Não Conhece o Revés


- Cessaram os monólogos?
- Você duvida de mim?
- Por que a pergunta?
- Pelo termo "monólogo".
- Ah.
- Não é porque conversamos em pensamento que eu não seja uma consciência autônoma. Aliás, quantos pensamentos são mesmo seus? E os que não são, que querem dizer?
- Legião.
- É o que são vocês todos.
- É o que somos todos.
- Veja que o paradoxo da diluição de si inclui, em primeiro lugar, a conquista da individualidade. Mas eis a ironia: nesse mundo de individualismo quantos de vocês sabem delimitarem-se? Quantos de vocês, neste culto à independência, realmente estão emancipados?
- Mas o que é a emancipação do espírito em meio a interdependência cósmica? Qual é essa conquista de individualidade quando o que somos é uma equação de tudo o que nos cerca, quando mal enxergamos o complexo emaranhado de influências que nos envolve?
- Pois tal é a sua condição. E não se engane rapaz, sempre foi assim. O homem sempre foi cego de si porque só pode compreender-se por meio do outro, mas nunca se dedicou a tal. Vocês costumam chamar esse modelo de percepção de ALTERIDADE.
- Mas por quê não olhamos ao outro? Por egoismo?
- Também. Mas também por inocência.
- Como?
- Quando são felizes e não o sabem sê-los. A percepção se limita pelo desconhecimento da dor, não há oposto para se contrastar, portanto não existe empatia por que o outro percebe sempre da mesma forma que você: não há nada além disso. A inconsciência do ideal subsiste desde antes da Queda, o velho paraíso. É essa pureza de experiências, essa inocência que atesta: a satisfação plena não conhece o revés.
- O egoísmo, então, é fruto da pureza?
- De forma alguma. Ambos têm suas raízes no homem que não é consciente de si, mas a pureza é a virtude do vazio e o egoísmo é o vício do cheio. E vocês têm se entupido cada vez mais.
- Então a conquista da individualidade que você menciona é o equivalente a esvaziar-se?
- Exatamente. Atingir a vacuidade e controlar todas as influências que lhe permeia. Estar ciente de cada partícula de si, equilibrar a equação, centrar-se.
- E os demais em relação a nós?
- Você é o outro e o outro é você e rearranjar-se, ou seja, resolver este quebra cabeça, implica em organizar suas relações e as suas situações inconclusas. Então pode parecer que o processo de conquista da individualidade conduza à separação, e conduz!, mas à separação do denso, do efêmero, das inverdades que se instalam em vocês. Esse processo de destruição da ilusão é o processo de união com o Eterno. É por isso que o místico, no cume de suas vivências, passa a enxergar Deus em tudo: ele reconcilia cada parte de suas experiências ao ápice e dilui-se em êxtase.
- E depois?
- Depois ele volta a enxergar tudo como exatamente É. Mas não é mais o mesmo.
- Como não?
- Assim.
- É isso a Iluminação?
- Pode-se chamar assim. 
- Qual é o propósito de iluminar-se?
- Não ter propósitos.
- É por isso que se iluminam?
- Iluminam-se por inevitabilidade. A saciedade sincera serena os anseios. Cessam-se os propósitos naturalmente; este é um meio e um fim em si mesmo. O apego também conduz ao desapego. Tudo o faz.
- Então por inércia eu transcendo?
- Se você aprender a não resistir, sim. 
- Como eu paro de resistir?
- Você pode começar pelo silêncio.

.

domingo, 27 de março de 2016

Resolução

Nada é Necessário

Mas,
apenas se você puder
compreender
que esta 
espécie de
indiferença
cósmica
é a 
chamada
Liberdade
pela qual
morrem
sem
experimentá-
la.

De outra forma,
tais termos
não se aplicam
e as 
configurações 
de necessidade
permanecem 
inalteradas.

Tivemos que nos ajustar à sua percepção para que você pudesse enxergar além
aos poucos...


quinta-feira, 17 de março de 2016

Um Relato do Espontâneo

Dos Objetos Que Nos São Presenteados


Eram 16:00 horas da tarde de uma quarta feira e eu havia pegado serviço mais cedo. Tinha me preparado para sair de lá e ir ler ou escrever qualquer coisa em uma praça.
No serviço eu vi dois pedaços de corda que a gente não ia usar e decidi levar comigo para fazer alguns artesanatos. Então, ao sair do trabalho eu fui para uma praça, mas não me demorei 20 minutos lá por que o clima não me agradou. A mesma coisa numa segunda praça até que eu decidi ir ao Parque das Mangabeiras já que eu estava do lado e não seria perturbado.
Ao chegar qual a minha surpresa em descobrir que haviam milhões de bambus plantados? Eu já estava procurando por um lugar em que eu os pudesse colher na natureza sem ser incomodado e sem incomodar ninguém. Andando pelo parque eu cheguei num lago em que desaguava uma cachoeira e havia uma mulher vestida de Oxum(!), um ogan com um pequeno atabaque, uma criança que estava sendo abençoada pelo orixá e alguns fotógrafos registrando o ensaio que tinha um quê de ritual. Já achei aquilo tudo maravilhoso por que tenho um grande carinho por Oxum, uma das Mães mais presentes em minha coroa. Para completar eu me deparei com um bambuzal amarelo de exemplares grandiosos que envergavam por cima de outra cachoeira demonstrando toda sua força e seu poder de flexibilidade. Não é preciso dizer que por ali me quedei querendo meditar um pouco e absorver aquela energia maravilhosa que estava se dando naquele momento singular.
Sentei-me num toco de árvore que mais parecia um trono e meu corpo começou automaticamente a responder àquela energia grandiosa pela qual eu estava cercado. Sereno eu ia me entregando à introspecção e incorporava aquele estado de pura contemplação; diluía-me no todo, grato pelo dia que me fora presenteado daquela forma. 
De repente eu olho para o curso de água que se formava da cachoeira - na qual eu estava sozinho(!), diga-se de passagem - e vejo um bambu verdinho, exatamente da espessura que eu procurava e um pouco mais longo do que eu estava imaginando. O bambu simplesmente estava encalhado no curso da água, recebendo toda aquela energia do ambiente e ainda que imerso na água, estava verde!
Assim que eu bati o olho nele eu proferi "esse é meu". Agradeci o presente ao orixá e me dirigi ao riacho. Saudei o lugar, molhei minha cabeça na queda d'Água, lavei minhas mãos, lavei meus Instrumentos que estavam comigo e pedi licença ao bambu para recolhê-lo. Quando o peguei já me antecipei: tenho que fazer alguma coisa para passar despercebido pelos guardas do parque. 
Eu já sabia que aquele era um presente e que, portanto, eu o levaria em segurança, só não sabia se eu teria dores de cabeça, então eu chamei meu Exu e pedi para que ele abrisse os caminhos e chamei alguns guias para cuidarem da minha invisibilidade. Lembrei de uma técnica que eu não usava há muito tempo e a empreguei para diminuir a atenção de mim - um homem grande com um pedaço de dois metros e meio de bambu nas mãos.
Passei pelas ruelas do parque todas vazias e assim que cheguei na guarita do guarda, na entrada do parque, apressei o passo. Nessa hora eu sentia que cada pisada minha era equivalente a um terremoto, então acho que ninguém se colocaria na minha frente, embora eu nem tenha visto sombra do guarda.
Sai do parque um pouco nervoso, andei até a caminhonete e coloquei bambu na caçamba. Por sorte eu tinha pego as cordas mais cedo por que descobri que justamente no dia não tinha nenhuma no carro. Amarrei a vara na caçamba, num improviso rápido e me mandei do lugar, agradecendo pela experiência e pelo presente que me renderá o cajado que eu estava planejando. 
É incrível pensar que alguns objetos nos escolhem e que as situações se administram na inteligência sublime para colocar cada coisa em seu devido lugar. É maravilhoso poder ver com tanta nitidez o universo de manifestando com vida própria e isso nos incluindo beneficamente. Fazia algum tempo que eu não tinha uma experiência de Poder tão singular e é bom poder registrá-la assim, da forma como eu a percebi. Assim Foi & Assim É.

terça-feira, 8 de março de 2016

DHAMMA



Aos poucos eu vou relembrando coisas que eu nunca vivi e vou entendendo melhor este que está além de mim, mas que ainda sou eu. É como se a temporalidade estivesse se fragmentando e também toda a minha visão de mundo, linear & parcial. Brotam novas personalidades complementares & esclarecedoras do composto que animo, já em dúvida do que sei de fato. Ou de como o sei.
É como se as minhas iniciações fossem apenas preliminares; é como se toda a trajetória que vivi, nas diversas passagens por aqui, convergisse neste processo de desconstrução de tudo o que houve até então. 
Uma espécie de lucidez repentina me acomete, vez ou outra, revelando o desdobramento de causa-e-efeito de múltiplas situações que me cercam. Passado & Futuro transparentes, entrelaçados, expostos, desfiando as vendas & desafiando a lógica comum. 
Eu pareço estar desaprendendo meus conceitos enlatados que prezam pela manutenção de um eu-social divergente do que Sou. Este processo de diluição das certezas, este tal desapego dos automatismos, conduz-me a uma retomada de consciência dos cotidianos, integralização das minhas pessoas paralelas & a reforma de hábitos antigos que se tornaram insustentáveis.
De repente a moral pesa, agora nítida e não mais relativa. Eu diria que a maturidade é imune à auto-retórica. Nem persuasões, nem sublimação ou eufemismo. Alívio é fazer o certo acima do dualismo.
Chega um ponto em que livre-arbítrio & fortuna tornam-se a mesma coisa e então não há o que não seja sagrado: é a reconciliação.