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Flerte

A vida me sorri e eu reparo bem nos dentes dela. Eu sempre faço isso; primeiro avalio o sorriso, depois julgo a sinceridade Prefiro sorrisos amarelos a dentes amarelados. Talvez a estética da arte seja a métrica da diplomacia, E os menos esclarecidos a tomem por hipocrisia...
Eu não explico como as coisas funcionam.

Rédea

TUDO É VOLUNTÁRIO.

Um Livro em Branco

- Às vezes você é inacessível... - É o que torna as coisas interessantes. - Eu preferiria não ter que sair da festa. - Nós voltamos. - Demoramos? - Depende de você. - Eu estou de salto. - Eu te espero. O tempo que for. - Assim é melhor. - Sabe o que torna as coisas inacessíveis? - Os outros? - A nossa falta de confiança neles. O mundo se escancara pra qualquer um, mas às vezes a gente quer as coisas do nosso jeito. É o que transfigura o simples. - O orgulho é humano. - Às vezes eu me distraio; o silêncio vale ouro. - Você torna as coisas compreensíveis... - Jura? - É melhor que autoajuda. - Vou tomar como um elogio. - Eu gosto. - Você pode ser meu prefácio. - Eu posso ser a sua capa... - Não vai perguntar para onde eu estou te levando? - Não. Vou deixar você fazer as coisas do seu jeito. - Isso é confiança? - Não, é orgulho.
- Eu acabo de me dar conta de que menti para você...
- O quê?
- Nós não vamos voltar pra festa.
- Melhor assim.

Costelas X

Nulos ou brancos dias Às vezes a azia pós-estímulo chulo Às vezes, mea-culpa, companhia azeda Vereda tardia, rumo ao segundo casulo: Aos meus olhos moedas; e vistam-me com seda.
A vida se arremeda, mas alterna a voz Ao espelho consulto a tenra queda de silhueta Das brevidades que nos reservam o tocar das trombetas Os conselhos das avós, Em forma de historietas.
De borboleta à mariposa, poso à morte que nos serve Pouso leve, trava a sorte e encaminha com sutileza Da beleza da consorte às tristezas de esposa Enfim, a livre prosa E as rosas que se deve.
À posteridade lego a família Eis a herança: tal Mãe como Filha Saudade não é sossego É o desapego o fruto da abastança E é esta a dança à qual me entrego.

Onironauta

Cheguei a sonha-la sem saber quem era. As sombras dão profundidade aos corpos. Todo delírio onírico é uma profecia. O diretor gargalha: - Noite escura outra vez? Ela passa. (- Hoje não), eu quis dizer. Ficou entre parêntesis.

Dios Nudo

- O que você quer da vida? - Idealmente? - É. - Bem, eu gostaria de possuir a Estátua da Liberdade. - A Estátua da Liberdade?! Por que? - Eu acho a Estátua da Liberdade o maior símbolo da ironia moderna! E é mais genial ainda quando você pensa nela ilhada e distante da população, segurando a tocha em meio ao oceano. - Eu nunca tinha pensado dessa forma...  De todo jeito, não é o monumento mais bonito. Digo, em todos os sentidos. - Não mesmo. Eu só a escolhi pela brincadeira. Tenho algum receio do Sonho Americano e da metonímia do Ideal. A exaltação do excesso e a política do desnecessário: uma fantasia, um luxo, o esporádico, a curiosidade que mata o gato. - Como assim? - Assim. Agora, por exemplo, eu comecei a me preocupar em onde eu colocaria a estátua se eu a tivesse. E é um problemão. É claro que eu poderia desejar uma casa grande, com um jardim exuberante e usá-la como espantalho, mas por que eu divagaria? Eu acabaria me adiantando, e o presente é o verdadeiro ideal. - É o futuro o ideal d…

Impecável

Escrevi para me arrepender das linhas, Tenho este gosto exótico de perseguir certezas. Eu sempre estou errado ao final de uma sentença.

Colcha de Retalhos

Eu sempre soube de algo que nunca ousei mencionar. E do receio do verbo adveio o esquecimento. O esquecimento é como a morte: auto persuasão, confecção de finais, adulteração da realidade objetiva. Por mais que Verita me alertasse, e ela tinha essa mania indelicada de zumbir em minhas cabeças como quem fala, fala, fala e nunca diz nada, eu a ignorava por completo. Em partes, por que de fato eu achava que ela não dizia nada, e seu zumbido era irritante, e já tão baixo, que eu não me dava o trabalho de procurar entendê-la. Em contrapartida, eu estava gostando da sensação de sentir-me Maya, tecelã, encoberto de mil-e-um véus e à vontade para me esconder das luzes. Verita era minha conselheira e eu não me desgarrava dela por um minuto que fosse, ainda que naquelas épocas eu não estivesse muito interessado em suas recomendações. Eu andava colecionando trapos e juntando-os à minha colcha de retalhos, e ela tinha pra mim toda a sua reprovação no olhar. Quanto mais remendos eu adquiria, mais ro…

Das Montanhas

Errante como a carta, Perseverante como o carteiro Todo aquele que se aparta Há de tornar-se parteiro A vida farta farta ao guerreiro Todo caminho conduz ao inteiro.

Opaco

Acordei de uma vida, tal foi o sonho Vivido como nunca fui. Não arrisco abrir os olhos. Ainda há a esperança de que eu esteja dormindo. Adio o dia diáfano. Planejo e nem vejo o que se passa: O quarto escuro, e enquanto me recomponho, tateio meus óculos (Eles sempre mudam de lugar durante a noite.) (Às vezes eu confundo miopia com esquizofrenia.) Meu braço dança, mas nada alcança Nitidez esquiva, arredia, arisca A vista é uma mancha; a vida, um borrão Eu sou uma dobra na página de introdução. Qualquer obra incompleta. Mais amarrotado que os lençóis eu ensaio levantar-me, É impossível. Coloco a culpa na cama. Nos óculos perdidos. Preciso reavê-los, meu dia precisa começar De fato falta-me foco...

É essa dependência de alta-definição. Auto definição.

Imaturidade

Eu ainda penso
Que o mundo é imenso.

Aparto

Imagem
Chão árido, terra seca. Noite escura da alma. A fogueira anima as sombras, quantos somos? O deserto se estende ao longe, além-túmulo. Tudo é poeira. Pele vermelha, cabelos compridos, manto grosso. Somos o círculo. O Xamã coaduna. Eu não me vejo. Mal escuto algo, tal a inquietude. O receio recebe-me antes mesmo da terra: Também a tempestade precede a calmaria. A vista inebria-se.

Desocupado

"Inocupado é virgem, Desocupado é Buda."

Tudo o que existe emprega esforço & resistência Posta a Impermanência que legisla absoluta O tempo devora quem pouco desfruta E toda labuta tem sua ciência Quem cede & Quem sede A fruta compensa O jejum
transcende.

Rumor

O grosseiro não precisa de estímulos, porquanto sequer sabe discernir o sutil do espesso. O óbvio guia-se pela quantidade: fartos flertes e alarde. Ante o jugo estreito todo ganho é pompa, assim o desperdício acompanha o exagero desde sempre. Também por isso a elegância sóbria não foge ao tédio. Há requinte no desejo do perito, e é quase um fetiche entregar-nos a quem nos sabe apreciar, mas qual homem alcança a Vitória quando almeja com vaidade? A volúpia viola a virtude tal Vênus devassada. Não se versa, entretanto, em contemplações sem herdar as insatisfações da arte: mirra o belo em apreciações inertes. Palavra é pouca poesia.

O silêncio é afrodisíaco.

Ossos do Ofício

Veio a me conhecer
E acabou por conhecer-se melhor.

Ádito

Ouso aos céus Abrangente é a compreensão Um com todos Eis o primor Verdade por dedicação Paz como devoção Há o sublime.


Aurora

- Chovem flores e nem assim... - Como? - Me desculpe senhor, acho que eu pensei alto! - Às vezes não podemos nos conter, não é? - Eu me distraio facilmente... - Por isso ser tão amena, menina! - Já nos conhecemos? - Acredito que não, mas os seus olhos me são tão familiares que me dão dúvidas. - Que têm meus olhos? - Você sorri com eles. De uma simpatia tão transparente que me transporta para outras épocas. Ah, que bela forma de se ver o mundo! - Obrigada, eu acho... - São bonitas, não são? - Você também vê as flores? - Sim filha, eu vejo. - Então não é tão mal quanto eu pensava. - Eu? - Não! Você é muito gentil, senhor. - O quê é então? - A minha vista. Quero dizer, outras pessoas também veem o que eu vejo, então isso é bom. - As pessoas olham. Ver é diferente. - Como assim? - Filha, existem dois tipos de palavras: as que nos fogem à memória e as que nos escapam pela boca. - E? - Em ambos os casos queremos dizer algo avidamente. - Eu acho que eu nunca parei para pensar nisso. - Pois você falava sobre as flore…

Costelas IX

Solução sem soluços Solidão sem mágoa Meus impulsos, firme pulso Eu avulsa Verto água
Corpo leve, alma densa Vida breve, bença vó! Vim só vou Numa sentença De herança deixo a dó
Curvo o corpo ao espelho Sou eu própria o vidro turvo Frágil e frio, eu me assemelho Em conselho com o vazio Pois o atrofio ágil
Mal me tenho, dou-me tanto Dôo em prantos, qual empenho Aos engenhos do destino Eis meu hino - o desencanto Tal o divino ferrenho.

Entrementes

O sorriso,
mais que hábito,
me habita.

Despacho

Quanto mais sou, menos sei
Amor como Lei
E, por mim, o rei impera.

Conciso

Já rabisquei linhas por acaso, textos rasos, páginas sob prazo cartas para os casos & descasos & atrasos – mesmo os propositais. Vali-me de palavras para quebrar mais do que vasos amores fatais embasados em argumentos decimais frascos & fractais espalhados pelos quintais quinto de qualquer canto, canto de qualquer conto margem à margem, ponto a ponto quintessência em evidência: veja, tudo é harmonia hoje em dia não tem mais jeito,
tudo o que escrevo é poesia.

Anímico

Cítrico como quem proclama distância
Místico como o livro da estante Última instância como apelo Cabelo desgrenhado, espelho destronado Estética autônoma irremediável Crítico imediável feito obra prima inédita Compositor composto Sujeito oculto

Nem Isso

Que as línguas se dobrem Pois palavras sobram Mas faltam pontos. Qual homem acusa-me – E, para isso, “homem” – Com a boca cheia de pecados Que cospe como o faz Quando fala de putas Empregando sujeira Onde há apenas Sua reles ignorância
Abaixo da mediocridade há o pomposo Membro de enfeite & apático social Não reduzo meu sorriso largo Por que não roubo a alegria ao mundo. Aliás, gargalho! À que homem concedi Qualquer intimidade que fosse Para poder subtrair minha paz de espírito?! Ter-me severo mais me parece um elogio! Mas minhas mesuras se restringem Às ironias bem tecidas.

Indulto Herético

- Com quantas frases se faz uma paz sólida? - Depende de quem se engana. - Com uma carta impecável? - Quem mais peca: quem provoca ou quem cede? - Eu provoco só de falar... - Então como hás de querer paz? - Em redenção, penso. Se me assumo e me retrato? - Em retrato ou paisagem, nítido como maldirias. Nem de palavras sinceras tu te assemelharias ao que és. - Ora! Descrevo-me com maestria! - Poupe-me. A lábia é esmola; teu amor, esmero. - Sinto menos então? Quisera inteirar-me do que sentem os que sentem bem! - Sonhar sentir ou sentir sonhar? Realidades avessas, jogos de palavras incompreensíveis. Eu já nem me lembro do que é ser profano e desentender, desinteressar-me de tudo... - Eu me interesso! - Tem cautela com teu rei flácido: de casa em casa a casa cai!  Da Torre ao tabuleiro, da mesa ao chão. - Eu só quero me desculpar. - E querer é o problema, meu filho. - Como assim? - Sem querer você se desculpa. - Sem palavras? - Sem.


- ... mas e ela? - O silêncio cessa quando alguém cede. …

A Morte XIII

Eu soube que era você quando tive medo da Morte.

Ademais

Quando trago a poesia do cais sei que veio de longe sei que almejo mais
Maresia que trás e que trai sem berço me restam uns versos sem versos não fico jamais
Poeta marujo messias tortuosas as vias de sais a sinestesia do caos translúcido travestido em cristais

O Lobo do Homem

Cerco ao circo & esterco à estepe
Terno & terço ao tenro terco
Torno-me parco? Porco?
Ou me perco?!

De todos os quandos que não bastaram

à Raquel de outros carnavais
Te ter é mais que posse. É o posso-mas-não-devo ao qual devoto-me venturoso.
Amor de véspera ou mesmo este, vespertino: é vero,
já nos vimos antes.

Costelas VIII

Previ o céu escuro De futuro vivo só Às vezes lá, às vezes cá Há esse muro, Às vezes dó.
Ao Zé concedo voz Desembargo sem encargo Desato nós, resgato fé Degusto meu café Amargo
Sorrio muda enternecida Ainda linda a vida aguda Querida e absurda, bem-vinda! Como a mais miúda muda À qualquer Buda jardineiro.
Cultivo adjetivos como flores Aos filhos de mil amores opressivos Ofereço cores, dores amenizo "Juízo!", clamo como mãe Vai-te, céu escuro depressivo!

Pastoreio

Imagem
- Da onde você acha que estas vêm? - As balas? - Não, não as balas. As estrelas... - Hm, não faço ideia. Longe. Talvez. Ei, posso pegar uma? - Claro, tem muita aí. É para o meu irmão mais novo. - Ele deve gostar bastante. - É a única coisa que o desacelera, então minha mãe sempre me pede para comprar vários sacos. - E funciona? - Ele fica de boca cheia, então, bem, funciona. Por um tempo... - É uma pena meu avô não gostar de balas. - Por quê? Ele conta muitos casos? - Quem dera. Ele reclama demais, de tudo. - Sinto muito. - Não sinta, é problema dele. - Nem sempre a gente pode ajudar, não é? - Pois é. Mas os doces seriam ótimos! - Pelo menos ele já passou da fase de cáries. - Pois a dentadura cede à diabetes. - Tem isso. Meu irmão pelo menos escova bem os dentes. - É um bom garoto, não vai ter do que reclamar quando crescer. Vocês ensinam da forma mais doce possível a preciosidade do silêncio. - É... Há quem diga que é adestramento. - Bobagem, ninguém pode adestrar o outro ao silêncio. O silêncio sincero …

A Roda da Fortuna X

A fortuna volátil empresta sinônimos à bem-aventurança
faz os homens enxergarem sorte e revés, ruína e bonança;
quando o que há são apenas pratos suspensos, a eterna dança.

Ninguém ganha e ninguém perde. Não por muito tempo. Pende a Balança.


Amem imoderadamente

Quem detém desdém tem amém pra si só.

Desmanche

Textos encurtam, pessoas surtam, anúncios: curtam!
A poesia sublime é um crime
O paradoxo: quanto menos linhas, mais entrelinhas.
Palavras evaporam: sublimação subliminar.

Vincos

Olhei-me no espelho e pude contar as rugas na face
um sorriso de contentamento:
tudo, agora, faz sentido!
o sorriso é o sentido
mesmo quando gratuitos dizem muito,
ou mais.
quem sorri à toa sempre tem muito a dizer
quem se enruga, permite-se
e Saturno abençoa,
mas insistimos em chamá-lo severo...
e isso
só por sermos medíocres.

Um Trago

Menos que a plenos pulmões Respirações pausadas Emoções contidas Mulheres contrariadas Vidas lidas Cartas embaralhadas Gavetas em formato de vórtice, portando o que o retrato já não suporta, mas o coração mantém seguro. Aguarda, Aguardente.

Fortuna

Que as linhas ressoem
As experiências incríveis são muito pouco. O incrível é quase nada. O deleite efêmero é o derramar receoso, é timidez excessiva. Os ventos levantam os véus ocasionalmente. Mais excitam do que saciam. O prazer não é rasgar a seda, é transpassa-la. Deixar que ela roce nossos corpos, pois já não nos impede, mas convida-nos suave e confiante. A compreensão é da dedicação; e a dedicação só tem haver com disciplina para aquele que vê dificuldade em se doar de ouvidos e de alma. É preciso compreender para ser compreendido, amar para amar. Hedonismo não é egoísmo. Quando o excesso evoca prazeres, apresenta-se o logro. A sorte reparte-se por si só. Venturoso é quem se tem.
"Acho que estou ficando chato", disse ao espelho o homem recém-iluminado.

Orvalhada

- Mestre, há uma questão que anda me inquietando...
- Isso é bom, menino.
- É, e eu acho que o senhor poderia me auxiliar...
- O que lhe perturba?
- Os outros.
- Bem, isso não é bom...
- Não, espera, deixe-me explicar... A forma como os outros conduzem a vida deles me angustia.
- Isso também não é bom.
- Não, Mestre, é o seguinte, eu sinto que as pessoas são descartáveis, sabe?
- Não...
 - É que, sei lá, eu sofro com a futilidade, a superficialidade, o desinteresse de todos. O mundo anda sendo insuficiente para mim e há um vazio no meu íntimo, um vazio crescente.
- Meu filho, escuta, você é suficiente?
- Como assim, Mestre?
- Filho, se há um vazio no seu íntimo é por que você é insuficiente para si próprio. Como poderiam outras pessoas preencherem o vazio que é seu?
- Mas meu vazio é involuntário.
- Isso é uma crença sua. E deixe-me lhe contar algo: se a gente alimenta muito nossas crenças, passamos a chama-las “fatos”, e então “verdades” e, depois, fica perigoso.
- Perigoso por quê?
- Por que depois …