sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Flerte


A vida me sorri e eu reparo bem nos dentes dela.
Eu sempre faço isso; primeiro avalio o sorriso, depois julgo a sinceridade
Prefiro sorrisos amarelos a dentes amarelados.
Talvez a estética da arte seja a métrica da diplomacia,
E os menos esclarecidos a tomem por hipocrisia...

Eu não explico como as coisas funcionam.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Um Livro em Branco

- Às vezes você é inacessível...
- É o que torna as coisas interessantes.
- Eu preferiria não ter que sair da festa.
- Nós voltamos.
- Demoramos?
- Depende de você.
- Eu estou de salto.
- Eu te espero. O tempo que for.
- Assim é melhor.
- Sabe o que torna as coisas inacessíveis?
- Os outros?
- A nossa falta de confiança neles. O mundo se escancara pra qualquer um, mas às vezes a gente quer as coisas do nosso jeito. É o que transfigura o simples.
- O orgulho é humano.
- Às vezes eu me distraio; o silêncio vale ouro.
- Você torna as coisas compreensíveis...
- Jura?
- É melhor que autoajuda.
- Vou tomar como um elogio.
- Eu gosto.
- Você pode ser meu prefácio.
- Eu posso ser a sua capa...
- Não vai perguntar para onde eu estou te levando?
- Não. Vou deixar você fazer as coisas do seu jeito.
- Isso é confiança?
- Não, é orgulho.
- Eu acabo de me dar conta de que menti para você...
- O quê?
- Nós não vamos voltar pra festa.
- Melhor assim.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Costelas X


Nulos ou brancos dias
Às vezes a azia pós-estímulo chulo
Às vezes, mea-culpa, companhia azeda
Vereda tardia, rumo ao segundo casulo:
Aos meus olhos moedas; e vistam-me com seda.

A vida se arremeda, mas alterna a voz
Ao espelho consulto a tenra queda de silhueta
Das brevidades que nos reservam o tocar das trombetas
Os conselhos das avós,
Em forma de historietas.

De borboleta à mariposa, poso à morte que nos serve
Pouso leve, trava a sorte e encaminha com sutileza
Da beleza da consorte às tristezas de esposa
Enfim, a livre prosa
E as rosas que se deve.

À posteridade lego a família
Eis a herança: tal Mãe como Filha
Saudade não é sossego
É o desapego o fruto da abastança
E é esta a dança à qual me entrego.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Onironauta


Cheguei a sonha-la sem saber quem era.
As sombras dão profundidade aos corpos.
Todo delírio onírico é uma profecia.
O diretor gargalha:
- Noite escura outra vez?
Ela passa.
(- Hoje não), eu quis dizer. Ficou entre parêntesis.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Dios Nudo


- O que você quer da vida?
- Idealmente?
- É.
- Bem, eu gostaria de possuir a Estátua da Liberdade.
- A Estátua da Liberdade?! Por que?
- Eu acho a Estátua da Liberdade o maior símbolo da ironia moderna! E é mais genial ainda quando você pensa nela ilhada e distante da população, segurando a tocha em meio ao oceano.
- Eu nunca tinha pensado dessa forma...  De todo jeito, não é o monumento mais bonito. Digo, em todos os sentidos.
- Não mesmo. Eu só a escolhi pela brincadeira. Tenho algum receio do Sonho Americano e da metonímia do Ideal. A exaltação do excesso e a política do desnecessário: uma fantasia, um luxo, o esporádico, a curiosidade que mata o gato.
- Como assim?
- Assim. Agora, por exemplo, eu comecei a me preocupar em onde eu colocaria a estátua se eu a tivesse. E é um problemão. É claro que eu poderia desejar uma casa grande, com um jardim exuberante e usá-la como espantalho, mas por que eu divagaria? Eu acabaria me adiantando, e o presente é o verdadeiro ideal.
- É o futuro o ideal do presente?
- O ideal é como o Pleroma: falar sobre ele lhe distancia da concepção. Aliás, o Pleroma não deixa de ser o Ideal. Logo, o ideal do presente é o próprio presente.
- O conformista sente-se confortável?
- Quase. O conformista despercebe o conforto, apesar de aproximar-se da sensação da plenitude. No entanto, o que ele vivencia é o marasmo da existência. Ao contrário do homem confortável, em estado de nudez com Deus, que sente seus pelos eriçarem com a menor brisa que lhe toca.
- Então há diferença entre as duas facetas?
- Há um Abismo! É claro que estas são apenas denominações, figuras arquetípicas...
- Mas o que é que aparta o conformista do conforto?
- É uma questão de livre arbítrio. De autoestima essencialmente, mas esta também é uma opção do ser. Confortável é aquele que tem-se por ideal, e note que não há qualquer itálico em tal idealismo, pois é um ideal ímpar. Mas o conformista não sabe vivenciar a sua individualidade. É o que o faz importar conformes e ideais e vivenciar o escapismo do autojulgamento.
- Medíocre por assim se crer.
- Pobre de crença.
- A concepção do ideal é a verdadeira humildade: aceitar a si e, portanto, ao mundo. Eis o êxtase do espontâneo: parir-se, dar-se à luz, enternecer-se. É este o conforto do qual eu lhe falo e do qual a vida não poderia conceder-me, posto que já me pertence. É este o sorriso que conclui as frases e estampa o silêncio.
- Pois gato que não sorri, morre de curiosidade.

***

- Posso te fazer uma última pergunta?
- Claro!
- E se você chegasse a realmente pôr as mãos na Estátua da Liberdade algum dia?
- Eu abria um escritório de advocacia.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Impecável

Escrevi para me arrepender das linhas,
Tenho este gosto exótico de perseguir certezas.
Eu sempre estou errado ao final de uma sentença.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Colcha de Retalhos


Eu sempre soube de algo que nunca ousei mencionar. E do receio do verbo adveio o esquecimento. O esquecimento é como a morte: auto persuasão, confecção de finais, adulteração da realidade objetiva.
Por mais que Verita me alertasse, e ela tinha essa mania indelicada de zumbir em minhas cabeças como quem fala, fala, fala e nunca diz nada, eu a ignorava por completo. Em partes, por que de fato eu achava que ela não dizia nada, e seu zumbido era irritante, e já tão baixo, que eu não me dava o trabalho de procurar entendê-la. Em contrapartida, eu estava gostando da sensação de sentir-me Maya, tecelã, encoberto de mil-e-um véus e à vontade para me esconder das luzes.
Verita era minha conselheira e eu não me desgarrava dela por um minuto que fosse, ainda que naquelas épocas eu não estivesse muito interessado em suas recomendações. Eu andava colecionando trapos e juntando-os à minha colcha de retalhos, e ela tinha pra mim toda a sua reprovação no olhar. Quanto mais remendos eu adquiria, mais rouca Verita se tornava e, apesar de amável e doce, ela chegou a ameaçar nunca mais dirigir-me uma palavra. Eu não me preocupei com a sua ameaça, pois sabia que ela não podia se calar, mas o volume de sua voz cada vez mais diminuto era algo a me inquietar.
Eu não sei explicar qual é a sensação de ignorar-se. Provavelmente todos a conhecem bem. Quando se está cego nunca se está errado e as responsabilidades nos evitam de tal maneira que não temos de quê nos queixar, senão dos demais. A cegueira faz-nos detentores de conhecimentos que nunca estudamos e portadores de razões inabaláveis, concede-nos autoridade e rigor, e ainda uma ligeira surdez, que é bem confortável por amenizar as loucuras que escutamos por aí. A minha vida tinha se tornado simples e pacata, e é claro que eu estava chateado com a situação de Verita, mas não havia motivo para aquilo ser um incômodo monumental. Essas coisas acontecem.
Certo dia eu conversava com um senhor religioso que me ofertava com muita estima um novo lenço. Eu não vi quando Verita caiu ao meu lado, tal era o meu interesse naquele retalho. O lenço era um trapo, mas me era inédito e integraria minha coleção de todo jeito. Mas enquanto conversávamos animados, eu notei o silêncio opressor a me incomodar, digno de fatalidades: o trem desgovernado descarrilha. Olhei aos lados procurando por Verita e lá estava minha miúda consciência, estatelada ao chão e desacordada. Pedi licença ao senhor que nada compreendeu, e parti para acudi-la e reanima-la. As coisas ficaram estranhas.
Verita demorou a se recuperar. Passou três dias sem voz alguma, tentava falar, mas não emitia qualquer som. Estava quieta, introspectiva, um tanto mudada. Eu me sentia culpado pela situação. De alguma forma eu sabia que a minha postura vinha a incomodando. Eu não estava sendo um bom companheiro. Os meus pedidos de perdão foram aceitos, mas a indiferença com que passara a me tratar fazia com que eu me sentir abandonado. Eu já não me sentia confortável em viver circundado em meus véus e me ocorreu um pensamento de que talvez não fosse Verita quem estava emudecendo-se, mas eu quem ensurdecia cada vez mais. De fato era.
Demorei muito para escutar Verita. Demorei para perceber que minha consciência não estava amordaçada, mas o meu conforto barato era o regulador das realidades. Os véus em que eu me enrolava acabavam por me sufocar e a minha percepção viciava-se em lógicas óbvias e previsíveis. A minha coleção de dogmas demorou a ser desfeita. Estive em recuperação após os agravos que cometi contra mim. Quando pude enfim conversar com Verita eu lhe dei a atenção devida, e não as migalhas que costumava dispensar. Foi quando ela me falou do desapego e de como os homens precisam enrolarem-se para sentirem-se seguros. Foi quando eu me senti ingrato e injusto.
Acabei lembrando do segredo de quando eu era pequeno: 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Das Montanhas


Errante como a carta,
Perseverante como o carteiro
Todo aquele que se aparta
Há de tornar-se parteiro
A vida farta farta ao guerreiro
Todo caminho conduz ao inteiro.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Opaco


Acordei de uma vida, tal foi o sonho
Vivido como nunca fui.
Não arrisco abrir os olhos. Ainda há a esperança de que eu esteja dormindo.
Adio o dia diáfano.
Planejo e nem vejo o que se passa:
O quarto escuro, e enquanto me recomponho, tateio meus óculos
(Eles sempre mudam de lugar durante a noite.)
(Às vezes eu confundo miopia com esquizofrenia.)
Meu braço dança, mas nada alcança
Nitidez esquiva, arredia, arisca
A vista é uma mancha; a vida, um borrão
Eu sou uma dobra na página de introdução.
Qualquer obra incompleta.
Mais amarrotado que os lençóis eu ensaio levantar-me,
É impossível.
Coloco a culpa na cama. Nos óculos perdidos.
Preciso reavê-los, meu dia precisa começar
De fato falta-me foco...

É essa dependência de alta-definição. Auto definição.

Imaturidade

Eu ainda penso

Que o mundo é imenso.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Aparto


Chão árido, terra seca. Noite escura da alma.
A fogueira anima as sombras, quantos somos?
O deserto se estende ao longe, além-túmulo.
Tudo é poeira.
Pele vermelha, cabelos compridos, manto grosso.
Somos o círculo. O Xamã coaduna.
Eu não me vejo. Mal escuto algo, tal a inquietude.
O receio recebe-me antes mesmo da terra:
Também a tempestade precede a calmaria.
A vista inebria-se.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Desocupado


"Inocupado é virgem, Desocupado é Buda."


Tudo o que existe emprega esforço & resistência
Posta a Impermanência que legisla absoluta
O tempo devora quem pouco desfruta
E toda labuta tem sua ciência
Quem cede & Quem sede
A fruta compensa
O jejum

transcende.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Rumor

O grosseiro não precisa de estímulos,
porquanto sequer sabe discernir o sutil do espesso.
O óbvio guia-se pela quantidade:
fartos flertes e alarde.
Ante o jugo estreito todo ganho é pompa,
assim o desperdício acompanha o exagero desde sempre.
Também por isso a elegância sóbria não foge ao tédio.
Há requinte no desejo do perito,
e é quase um fetiche entregar-nos a quem nos sabe apreciar,
mas qual homem alcança a Vitória quando almeja com vaidade?
A volúpia viola a virtude tal Vênus devassada.
Não se versa, entretanto, em contemplações
sem herdar as insatisfações da arte:
mirra o belo em apreciações inertes. Palavra é pouca poesia.


O silêncio é afrodisíaco.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Ádito


Ouso aos céus
Abrangente é a compreensão
Um com todos
Eis o primor
Verdade por dedicação
Paz como devoção
Há o sublime.


domingo, 31 de agosto de 2014

Aurora


- Chovem flores e nem assim...
- Como?
- Me desculpe senhor, acho que eu pensei alto!
- Às vezes não podemos nos conter, não é?
- Eu me distraio facilmente...
- Por isso ser tão amena, menina!
- Já nos conhecemos?
- Acredito que não, mas os seus olhos me são tão familiares que me dão dúvidas.
- Que têm meus olhos?
- Você sorri com eles. De uma simpatia tão transparente que me transporta para outras épocas. Ah, que bela forma de se ver o mundo!
- Obrigada, eu acho...
- São bonitas, não são?
- Você também vê as flores?
- Sim filha, eu vejo.
- Então não é tão mal quanto eu pensava.
- Eu?
- Não! Você é muito gentil, senhor.
- O quê é então?
- A minha vista. Quero dizer, outras pessoas também veem o que eu vejo, então isso é bom.
- As pessoas olham. Ver é diferente.
- Como assim?
- Filha, existem dois tipos de palavras: as que nos fogem à memória e as que nos escapam pela boca.
- E?
- Em ambos os casos queremos dizer algo avidamente.
- Eu acho que eu nunca parei para pensar nisso.
- Pois você falava sobre as flores quando eu te interrompi pela primeira vez...
- O senhor já parou para pensar no que seria do inverno sem a florescência dos ipês? Como é que as pessoas podem passar pela praça sem se deterem a admirar o espetáculo que é a vida? Eu não consigo lidar com a ideia de ter que viver rápido, eu preciso sentir o mundo e para isso eu levo tempo. Eu desdobro cada camada e a sinto junto a mim, você entende?
- Assim é o Ver.
- Eu sou uma. Como poderiam indicar-me, narrarem-me o que há para ser visto se eu não vejo distinção entre as partes? Eu não consigo enxergar a observação senão como um processo de autoanálise. Eis o ipê a florescer, toda a maternidade e maturação. Eis-me então: menina, mãe e anciã, una mas não única; plural como me couber, até que eu me estenda e me entenda como Todo. Eu, que gesto o mundo, minha morada iluminada.
- A união como ápice da percepção. Ver é participar do êxtase divino. Um Sol para cada ventre, e cada mãe é uma constelação. O universo desdobrado em cada átomo resplandece aos olhos de quem se permite.
- E como pode haver desinteresse? Apatia é rigidez. Todo ato de resistência é uma demonstração de entropia existencial. Da mesma forma, todo estímulo externo que nos conduza a estados de consciência, prazerosos ou não, aparta-nos de nós mesmos e amputa-nos do mundo.
- Às vezes, filha, elegemos as vias mais difíceis por não podermos compreender a simplicidade da vida.
- Quando o que nos resta é permitirmo-nos e ainda assim falseamos em verdades unilaterais... Quantos são os que têm como dogma a própria liberdade e reafirmam-na ao mundo presos a tal ilusão? O exterior ilustra o interior, o liberto é notável!
- E não por que demonstre apenas beleza – pois a possui, em todos os parâmetros e com toda a subjetividade que lhe é devida –, mas por desmerecer as comparações a ponto de ser único e assim reconciliar-se com Deus. Esta é a estética da qual tratamos aqui: a luminosidade sobre a cabeça dos deserdados, a canonização do simples, pois é íntegro.
- O Belo como resultado palpável da sutilização dos sentidos. Transpessoal, intransferível e inefável; mas reconhecível e evidente.
- Eis o véu. Há o Abismo. E por trás das cortinas não há tragédia ou comédia, senão o espetáculo indistinto e indefinido ao infinito.
- É como a flor que cai da árvore.
- A tarde se estende por toda a eternidade. E as pessoas vêm e vão...

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Costelas IX


Solução sem soluços
Solidão sem mágoa
Meus impulsos, firme pulso
Eu avulsa
Verto água

Corpo leve, alma densa
Vida breve, bença vó!
Vim só vou
Numa sentença
De herança deixo a dó

Curvo o corpo ao espelho
Sou eu própria o vidro turvo
Frágil e frio, eu me assemelho
Em conselho com o vazio
Pois o atrofio ágil

Mal me tenho, dou-me tanto
Dôo em prantos, qual empenho
Aos engenhos do destino
Eis meu hino - o desencanto
Tal o divino ferrenho.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Despacho

Quanto mais sou, menos sei
Amor como Lei
E, por mim, o rei impera.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Conciso

Já rabisquei linhas por acaso, textos rasos, páginas sob prazo
cartas para os casos & descasos & atrasos – mesmo os propositais.
Vali-me de palavras para quebrar mais do que vasos
amores fatais embasados em argumentos decimais
frascos & fractais espalhados pelos quintais
quinto de qualquer canto, canto de qualquer conto
margem à margem, ponto a ponto
quintessência em evidência: veja, tudo é harmonia
hoje em dia não tem mais jeito,

tudo o que escrevo é poesia.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Anímico

Cítrico como quem proclama distância
Místico como o livro da estante
Última instância como apelo
Cabelo desgrenhado, espelho destronado
Estética autônoma irremediável
Crítico imediável feito obra prima inédita
Compositor composto
Sujeito oculto

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nem Isso


Que as línguas se dobrem
Pois palavras sobram
Mas faltam pontos.
Qual homem acusa-me
– E, para isso, “homem” –
Com a boca cheia de pecados
Que cospe como o faz
Quando fala de putas
Empregando sujeira
Onde há apenas
Sua reles ignorância

Abaixo da mediocridade há o pomposo
Membro de enfeite & apático social
Não reduzo meu sorriso largo
Por que não roubo a alegria ao mundo.
Aliás, gargalho!
À que homem concedi
Qualquer intimidade que fosse
Para poder subtrair minha paz de espírito?!
Ter-me severo mais me parece um elogio!
Mas minhas mesuras se restringem
Às ironias bem tecidas.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Indulto Herético


- Com quantas frases se faz uma paz sólida?
- Depende de quem se engana.
- Com uma carta impecável?
- Quem mais peca: quem provoca ou quem cede?
- Eu provoco só de falar...
- Então como hás de querer paz?
- Em redenção, penso. Se me assumo e me retrato?
- Em retrato ou paisagem, nítido como maldirias. Nem de palavras sinceras tu te assemelharias ao que és.
- Ora! Descrevo-me com maestria!
- Poupe-me. A lábia é esmola; teu amor, esmero.
- Sinto menos então? Quisera inteirar-me do que sentem os que sentem bem!
- Sonhar sentir ou sentir sonhar? Realidades avessas, jogos de palavras incompreensíveis. Eu já nem me lembro do que é ser profano e desentender, desinteressar-me de tudo...
- Eu me interesso!
- Tem cautela com teu rei flácido: de casa em casa a casa cai!  Da Torre ao tabuleiro, da mesa ao chão.
- Eu só quero me desculpar.
- E querer é o problema, meu filho.
- Como assim?
- Sem querer você se desculpa.
- Sem palavras?
- Sem.



- ... mas e ela?
- O silêncio cessa quando alguém cede.
- Não é questão de orgulho...
- Não, eu sei, é a sua inquietude.
- Ela me deixa assim...
- Quem mais peca: quem provoca ou quem cede?
- Ambos.
- Não, quem cede peca em dobro, pois se desperdiça. Os caprichos dos outros são sempre mais caros. Custam-nos a resignação, o abandono da nossa Vontade.
- O que quer dizer com isso?
- Que o perdão é inexistente àquele que o busca incessante. O que não é sincero é estéril.
- E uma carta é um ensaio?
- Suas rasuras te comprometem, meu filho.
- Eu não posso apagá-las?
- Tu não buscas Perdão, senão alívio à tua consciência.
- Você me acusa demais.
- Ninguém mais o faz, é por isso que vens me ver.
- É verdade.
- Entende filho, que o Perdão é fruto do desinteresse. É um parto, um fim por si, e não um meio. Se a absolvição é um subterfúgio para reaproximar os opostos então não há Perdão, senão apenas palavras vãs e de honra quebradiça.
- Os opostos chegam a reconciliarem-se?
- O tempo todo! De outra forma cá não estaríamos...



- O que é preciso para a reconciliação?
- Comprometimento. É o que faz o adverso ser complementar.
- Explica-me o desinteresse.
- Fazer o que tem de ser feito por saber ter de ser feito.
- Como sei o que tem de ser feito?
- Há dúvidas que quanto mais alto enunciadas mais ofuscam suas respostas.
- Mais um eufemismo elaborado para o suntuoso silêncio.
- Filho, a vida é simples: dedica ao que sabes ser certo e tenha fé nos seus valores. Interessa-te por tudo, mas não a ponto de intervires quando te convir! As coisas convergem junto àquele que trabalha em comunhão!
- Mas e o Perdão?
- Permita-te, meu filho! Têm a consciência tranquila e teus nós se desatarão! Descansa tua pena e não aborreça a moça. Há justiça, sobretudo! Sê íntegro e conceda ao Tempo a paciência que Ele tanto lhes roga!
- A espera aflige o homem.
- Quando a balança verte não há sono que reste. As dívidas saldam-se e os comerciantes saúdam-se.
- Devo inquietar-me?
- Ônus é luxo. Assossega, nada deves!
- O que é o querer?
- Minúsculo assim é simples extravagância.
- Mas há excesso que se justifique?
- Há aqueles que precisam ser conduzidos ao Palácio da Sabedoria, demasiado tolos por violarem-se de antemão. A consolação do idiota é saber sê-lo, mas só o sabe quando o é.
- Há quem saiba-se e conserve-se sábio?
- Não, quem sabe de si conserva-se em silêncio.

sábado, 28 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ademais

Quando trago a poesia do cais
sei que veio de longe
sei que almejo mais

Maresia que trás e que trai
sem berço me restam uns versos
sem versos não fico jamais

Poeta marujo messias
tortuosas as vias de sais
a sinestesia do caos translúcido travestido em cristais

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Lobo do Homem


Cerco ao circo & esterco à estepe
Terno & terço ao tenro terco
Torno-me parco? Porco?
Ou me perco?!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

De todos os quandos que não bastaram


à Raquel
de outros carnavais

Te ter é mais que posse.
É o posso-mas-não-devo
ao qual devoto-me
venturoso.

Amor de véspera
ou mesmo este,
vespertino:
é vero,

já nos vimos antes.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Costelas VIII


Previ o céu escuro
De futuro vivo só
Às vezes lá, às vezes cá
Há esse muro,
Às vezes dó.

Ao Zé concedo voz
Desembargo sem encargo
Desato nós, resgato fé
Degusto meu café
Amargo

Sorrio muda enternecida
Ainda linda a vida aguda
Querida e absurda, bem-vinda!
Como a mais miúda muda
À qualquer Buda jardineiro.

Cultivo adjetivos como flores
Aos filhos de mil amores opressivos
Ofereço cores, dores amenizo
"Juízo!", clamo como mãe
Vai-te, céu escuro depressivo!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Pastoreio


- Da onde você acha que estas vêm?
- As balas?
- Não, não as balas. As estrelas...
- Hm, não faço ideia. Longe. Talvez. Ei, posso pegar uma?
- Claro, tem muita aí. É para o meu irmão mais novo.
- Ele deve gostar bastante.
- É a única coisa que o desacelera, então minha mãe sempre me pede para comprar vários sacos.
- E funciona?
- Ele fica de boca cheia, então, bem, funciona. Por um tempo...
- É uma pena meu avô não gostar de balas.
- Por quê? Ele conta muitos casos?
- Quem dera. Ele reclama demais, de tudo.
- Sinto muito.
- Não sinta, é problema dele.
- Nem sempre a gente pode ajudar, não é?
- Pois é. Mas os doces seriam ótimos!
- Pelo menos ele já passou da fase de cáries.
- Pois a dentadura cede à diabetes.
- Tem isso. Meu irmão pelo menos escova bem os dentes.
- É um bom garoto, não vai ter do que reclamar quando crescer. Vocês ensinam da forma mais doce possível a preciosidade do silêncio.
- É... Há quem diga que é adestramento.
- Bobagem, ninguém pode adestrar o outro ao silêncio. O silêncio sincero é uma conquista.
- Acho que você tem razão. Então, sobre o que seu avô reclama?
- Bem, principalmente sobre a nossa geração. O resto do tempo ele repete o noticiário.
- O que ele diz sobre a gente?
- Ele fala que nós vivemos a vida muito rápido e que por isso a gente não pensa direito no que faz e que é por isso que o mundo está estragado.
- Ele acha que o mundo está ruim?
- Acha.
- E ele acha que na época dele as coisas eram melhores?
- Bem, não exatamente. Na verdade, para ele nunca nada esteve bom. Ele é o que eu chamo de ovelha desgarrada.
- Ovelha desgarrada?
- É, por que as coisas seriam melhores do jeito dele sempre.
- Eu conheço um bocado de gente assim.
- Memória emoldurada em ouro.
- Minha mãe me disse para aproveitar muito "a-melhor-fase-da-minha-vida". Às vezes eu fico triste, acho medíocre, sei lá. Fico pensando se o tempo denigre as coisas.
- Meu avô se sente assim o tempo todo, mas não é nostalgia.
- Não?
- Não, é outra coisa. Ter a memória emoldurada em ouro é como ter orgulho do brilho fácil, sabe como é?
- É como se... a mente só forjasse metais caros por que é o que paga o custo da ilusão. É bem isso, não é?
- Sim, é bem isso. É como eu costumo dizer: o Sol nasceu para todos, mas há os relutantes.
- Por isso tanta gente cabisbaixa.
- Isso! Sabe? Eu acho que você é capaz ver o pastoreio! Eu posso tentar te mostrar, que tal?
- Como assim?
- Bem, eu acho que a vida inteira se resume a uma única escolha.
- E qual seria ela?
- Decidir se o resto do mundo está contra você ou a seu favor. Supondo, é claro, que você superou o existencialismo.
- Faz sentido, mesmo por que quem se detém em sua própria relevância acaba por optar em repreender-se.
- Exatamente. O sábio questiona-se com cautela, o tolo conduz-se por curiosidade; Um enternece-se, o outro escarnece-se.
- Poético.
- Sabe, "O resto do mundo” é real. Ele sempre vai existir, mesmo que Ele seja você próprio, "apenas".
- As mais sofríveis desavenças são as que temos com o espelho, que não conduzem à nada, mas entristecem duplamente.
- Pois aí é que está! Sozinho à dois! Antes nos levassem ao Nada! Mas é exatamente essa a questão: não divergir-se de si, pelo contrário. O movimento é de conversão, a confraternização última. A vida diz respeito a aceitar-se, a aceitar-nos e, portanto, fundir-nos e difundir-nos! É muito simples, todos os filmes falam disso, todos os livros, todas as histórias, todos os sonhos, toda utopia baseia-se no princípio do amor, algumas, além, no amor universal.
- Belo!
- Sorri o espelho e contagia-nos! A linha exclama e o sorriso se desprende, atreve-se, altera o rosto e acerta uma flecha de cúpido em algum destemido que passava por ali. Destemido! Ai de quem receia amar! Ai de quem se dá em migalhas! Medo de quê?! Tudo é permitido! Arrisco ainda um palpite, amigo: tudo o que se opõe é ilegítimo! Todo refreio é um desperdício! Toda resistência é dúbia, posta ser reflexo e não origem! Toda crítica é uma paráfrase, mas o que são reinterpretações perante a ausência de limites daqueles que se têm e daqueles que se dão? Uma hora ou outra esbarramos no horizonte, nos diluímos em luz e, infinito por infinito, mais um ponto em reticências...
- Oh!
- Que foi?!
- É como se a vida terminasse logo ali. Falando assim tudo parece fazer sentido.
- Mas sempre fez!
- É, mas faz muito tempo que eu não sinto a sensação de 'fazer sentido'. Sabe como é?
- Sei. E como eu sei...
- É uma sinestesia incrível.
- É como comer uma dessas balas.
- É como comer uma dessas balas e ver a si próprio pequeno, degustando o mundo com os olhos, em êxtase.
- Todos os singelos presentes que nos eram caríssimos, as dádivas, a gratidão.
- Tudo é raro quando não somos escassos...
- Mas somos. Certo? O sentido se ausenta, não é? Às vezes nos damos conta de que a satisfação que sentíamos momentos atrás já não nos resta, mas sim um vazio.
- Sim...
- Posso... pegar mais uma bala?
- Vá em frente, fique à vontade!
- São as minhas preferidas!
- Quaisquer balas que aí estivessem seriam suas preferidas.
- Isso é por que você é gentil!
- Preferir alguma coisa é evidenciá-la. Mas e se tudo fosse perfeito? Como poderíamos distinguir os gostos, as sensações?
- Eu prefiro não preferir, assim eu estou sempre a fazer o que eu prefiro.
- "Tudo está bem"
- Exato!
- Toda essa simplicidade me fascina. E é como você disse: está em tudo, todos os contos e fábulas em que já pus os olhos, todas as escolhas pelas quais decidi, todas as situações que vivenciei até hoje. Sempre foi apenas questão de aceitar as coisas como elas se dispunham à mim.
- O simples é volátil.
- E nós, sólidos, tendemos ao complexo.
- Quantas vezes você leu o mesmo livro para vivenciar situações diferentes? Quantas vezes você leu a história da sua vida nas linhas ali escritas? Quantas vezes você se projeta nos roteiros alheios? Incorpora personagens, delega funções e vivencia seus diálogos, maculando a sua percepção da história? Sabe, as pessoas devoram os livros mas não os absorvem, por que tudo que leem são suas próprias biografias, sob uma nova perspectiva.
- É por isso que é difícil enxergar o simples?
- Sim, talvez. Muita gente fica perdida no chuviscar após o filme.
- Como assim?
- Sabe, nós também temos sempre a outra opção.
- Qual?
- Imaginar a vida não nos conduzindo a lugar nenhum. Sem propósitos e sem que alguém te deva explicações por coisa alguma. Aqui a utopia existe como alento à alma que nunca a verá, e esse é também é o papel das produções e de tudo que nasce de nosso tempo livre: distrair-nos do fim iminente.
- Tudo foge ao destino certo. O tempo como opressor.
- São as filas de espera, lugar-comum.
- As revistas, os jornais, uma televisão ligada sempre no mesmo canal e uma recepcionista guardando a porta atrás dela. O tédio assombra a sala.
- Imagine uma vida de sonhos escuros, sono difícil e criatividade fugaz; a imaginação cede ao túmulo, a vida desencanta-se em insônia.
- Uma espécie de entropia apática.
- Tão desinteressante que nem conjecturamos sobre o propósito das coisas. Nada importa pois tudo está danado. A vida esvai-se sem nada em troca.
- Nesse caso, eu posso fazer o que eu quiser?
- Isso sob a perspectiva de autodestruição, certo? "Tudo é uma droga, não há nada para me coagir e eu necessito de atenção, então eu vou pôr fogo na cidade."
- É, parece isso mesmo.
- Eu o chamo de Paradoxo da Neurose Sustentável: a vida opõe-se à arte e a arte opõe-se a vida, mas elas são dependentes e copulam sobre o medo. É o medo que põe fogo na cidade e é também o medo que critica tudo e fala das gerações mais novas sem poder acompanhá-las. Isso não é inveja da juventude, é pesar de si próprio. É dar-se conta deste fim iminente que escolheu para si próprio ainda novo e conviver com o peso dele nas costas por anos a fio. Definhar.
- Morte por antecipação.
- o Tédio é o Medo enrustido.
- Ahm?
- Pense no arquétipo da criança entediada. Sabe por que a criança chora diante de seu mundo de possibilidades infinitas?
- Não... por quê?
- Porque ela não sabe o que ela quer. E ela tem tantas opções, e cada opção é uma dúvida nova, que ela não consegue escolher um brinquedo para se distrair. Então ela chora por medo de escolher errado, por que ela quer a melhor opção e depois de escolher ela sabe que não poderá voltar atrás.
- E qual é a solução? Quando a criança pára de chorar?
- Quando ela se decide.
- E se ela não conseguir decidir?
- Então a Mãe aparece para lhe socorrer.
- E?
- E o processo se adia. Sabe, o ponto da história é que qualquer brinquedo escolhido conduziria a criança ao êxtase, mas o impasse a conduz à tensão e ao desespero.
- A mãe é a salvaguarda.
- É, a Mãe é uma metáfora. A criança somos sempre nós, mas a Mãe se apresenta de inúmeras maneiras. O que você precisa entender sobre o papel da Mãe é que o lamento do filho também ofusca a felicidade dela, e o alento desta só se dá quando o filho é capaz de realizar-se sem suas intervenções.
- Seria a maturidade.
- O caso é que medimos maturidade pelo tempo, o que não é nem um pouco preciso.
- O que acontece se nós nunca nos decidirmos?
- Bem, não escolher já é escolher, não é? O impasse é a causa de todos os traumas que eu conheço.
- Faz sentido, você tem razão. Então, não há exatamente uma escolha não é?
- Por quê você diz isso?
- Por que o ato de recusa é o ato de entrega. É proclamar-se incapaz, sentenciar-se à infelicidade.
- Exato. A vida é maleável e doce com aqueles que se têm abertos às suas manifestações, mas é dura e implacável àqueles que são obstáculos em seu fluir. Não há outro caminho senão a resignação amorosa. É inevitável que assim seja. O trabalho é voluntarioso.
- A aceitação como processo ativo.
- Muitos confundem com submissão. Estes ainda não se deram conta de sua condição central no enredo. A meu ver, se a existência não é realização ela é apenas um mal exemplo.
- E o seu avô?
- Quer ir um dia lá em casa conhecer a peça?
- Eu adoraria! Do que acha que ele vai falar comigo?
- O tema é irrelevante. Tudo o que ele diz é sobre si próprio, mas ele não se dá conta disso. A magnificência com que ele trata a sua renúncia e como ele se deteve incapaz ao seu Pequeno-Abismo particular... Ele está lá até hoje, desgarrado, e brada isso para todos. Você vai ver, ele vai te encantar com tanta amargura e pesar e vai te convidar a lamentar sobre o mundo. Vai ser uma tarde legal, vou comprar vários sacos dessas balas. Quem sabe você oferecendo ele não aceite... Vamos tentar não é mesmo? O que temos a perder, afinal?!

domingo, 18 de maio de 2014

A Roda da Fortuna X

A fortuna volátil empresta sinônimos à bem-aventurança
faz os homens enxergarem sorte e revés, ruína e bonança;
quando o que há são apenas pratos suspensos, a eterna dança.

Ninguém ganha e ninguém perde. Não por muito tempo. Pende a Balança.


terça-feira, 6 de maio de 2014

terça-feira, 29 de abril de 2014

Desmanche


Textos encurtam,
pessoas surtam,
anúncios: curtam!

A poesia sublime é um crime

O paradoxo:
quanto menos linhas,
mais entrelinhas.

Palavras evaporam:
sublimação
subliminar.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Vincos


Olhei-me no espelho e pude contar as rugas na face
um sorriso de contentamento:
tudo, agora, faz sentido!
o sorriso é o sentido
mesmo quando gratuitos dizem muito,
ou mais.
quem sorri à toa sempre tem muito a dizer
quem se enruga, permite-se
e Saturno abençoa,
mas insistimos em chamá-lo severo...
e isso
só por sermos medíocres.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Um Trago


Menos que a plenos pulmões
Respirações pausadas
Emoções contidas
Mulheres contrariadas
Vidas lidas
Cartas embaralhadas
Gavetas em formato de vórtice, portando o que o retrato já não suporta, mas o coração mantém seguro.
Aguarda,
Aguardente.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Fortuna


Que as linhas ressoem

As experiências incríveis são muito pouco. O incrível é quase nada.
O deleite efêmero é o derramar receoso, é timidez excessiva.
Os ventos levantam os véus ocasionalmente. Mais excitam do que saciam.
O prazer não é rasgar a seda, é transpassa-la. Deixar que ela roce nossos corpos, pois já não nos impede, mas convida-nos suave e confiante.
A compreensão é da dedicação; e a dedicação só tem haver com disciplina para aquele que vê dificuldade em se doar de ouvidos e de alma.
É preciso compreender para ser compreendido, amar para amar.
Hedonismo não é egoísmo.
Quando o excesso evoca prazeres, apresenta-se o logro.
A sorte reparte-se por si só. Venturoso é quem se tem.

sexta-feira, 28 de março de 2014

"Acho que estou ficando chato", disse ao espelho o homem recém-iluminado.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Orvalhada


- Mestre, há uma questão que anda me inquietando...
- Isso é bom, menino.
- É, e eu acho que o senhor poderia me auxiliar...
- O que lhe perturba?
- Os outros.
- Bem, isso não é bom...
- Não, espera, deixe-me explicar... A forma como os outros conduzem a vida deles me angustia.
- Isso também não é bom.
- Não, Mestre, é o seguinte, eu sinto que as pessoas são descartáveis, sabe?
- Não...
 - É que, sei lá, eu sofro com a futilidade, a superficialidade, o desinteresse de todos. O mundo anda sendo insuficiente para mim e há um vazio no meu íntimo, um vazio crescente.
- Meu filho, escuta, você é suficiente?
- Como assim, Mestre?
- Filho, se há um vazio no seu íntimo é por que você é insuficiente para si próprio. Como poderiam outras pessoas preencherem o vazio que é seu?
- Mas meu vazio é involuntário.
- Isso é uma crença sua. E deixe-me lhe contar algo: se a gente alimenta muito nossas crenças, passamos a chama-las “fatos”, e então “verdades” e, depois, fica perigoso.
- Perigoso por quê?
- Por que depois a gente pensa que é suficiente para o mundo.
- E não somos nem para nós próprios.
- Isso, por que falta-nos o silêncio.
- O senhor acha que eu deveria falar menos?
- Não, de forma alguma, menino.
- Então o que o senhor está sugerindo?
- Que você pratique mais o silêncio. E isso não quer dizer que você deva falar menos, quer dizer que você deve ser mais.
- Eu ainda não sei se eu entendi...
- Sabe, meu filho, uma forma fácil de se manter em silêncio é a distração. O assobio é também uma das vozes do silêncio, a palma-de-uma-mão-só é o sopro do silêncio; a abstração em geral conduz à transcendência, mas abstrair-se ante ao Caos exige o domínio da inquietude. Qual vazio resta ao transbordar-se? A dúvida cede à calmaria, esvanece-se, endireita-lhe os pontos de interrogação. Assim! , vê?
- Vejo! Acho...
- Dúvidas são oportunidades e o silêncio é o proveito. O vazio é o desperdício e é o fardo do egoísta; pois aquele que volta à si é generoso consigo, mas aquele que alimenta suas dúvidas ao invés de saciá-las, este não busca respostas, mas sim, sustento para seus vícios.
- E a inquietude é uma oportunidade, então?
- A inquietude como estímulo é uma oportunidade de transcendência. A inquietude como postura é escape, desperdício, acúmulo de vazio, entropia.
- A quietude através da inquietude, então? É isso?
- Para outros pode parecer um tanto paradoxal, não é? Mas é a exata metáfora do Pelicano Sagrado. Sabe, menino, ter o Caos Primordial como um bloco único é assumir que o princípio do Todo é negentrópico. Não existem caminhos que fujam ao repouso!
- E a recusa?
- A teimosia, filho, é a expressão da ignorância. Quando se deixa, no entanto, de “não-saber”, e este é um passo definitivo, passa-se a atuar com sapiência. Há os atrasos, claro, mas não há o que realmente desvie a marcha das almas. Se formos mais longe, mesmo os atrasos são inconcebíveis por serem, de todo, previsíveis. É uma sintropia, afinal! O vigésimo primeiro arcano do tarot.
- O Mundo. É como se tudo fosse sagrado, como se cada pequena coisa estivesse em seu devido lugar. Seria um princípio elevadíssimo de autossuficiência...
- Este é O Repouso, a quietude da qual falávamos. E acho que a nossa conversa termina aqui! Já não há mais nada que eu possa lhe elucidar, nenhum princípio maior do que este...
- Espera! Mas por quê é ruim que eu almeje o melhor para os outros?
- Ah! Você deve almejar o melhor para os outros! Não deve, no entanto, almejar o melhor pelos outros. O divino, filho, é cada um; e cada um sabe o que esperar por si. E aquele que se impacienta é imaturo, e é ignorante, e é inquieto, pois não compreende o ritmo alheio e nem o seu próprio, quem dirá o ritmo do Mundo.
- Entendi.
- E então?
- Bem... o que eu posso fazer para mudar a realidade dos outros?
- A realidade é mental. Ensine-os a manipular suas próprias mentes e você os ensinará a mudar suas realidades.
- Mas, Mestre, como eu posso lhes ensinar a lidar com suas mentes?
- Você não pode ensinar, filho, eles é quem devem aprender!
- E há algo que eu possa fazer?
- Sempre há o silêncio. Vê?
- Vejo...