segunda-feira, 24 de março de 2014

Orvalhada


- Mestre, há uma questão que anda me inquietando...
- Isso é bom, menino.
- É, e eu acho que o senhor poderia me auxiliar...
- O que lhe perturba?
- Os outros.
- Bem, isso não é bom...
- Não, espera, deixe-me explicar... A forma como os outros conduzem a vida deles me angustia.
- Isso também não é bom.
- Não, Mestre, é o seguinte, eu sinto que as pessoas são descartáveis, sabe?
- Não...
 - É que, sei lá, eu sofro com a futilidade, a superficialidade, o desinteresse de todos. O mundo anda sendo insuficiente para mim e há um vazio no meu íntimo, um vazio crescente.
- Meu filho, escuta, você é suficiente?
- Como assim, Mestre?
- Filho, se há um vazio no seu íntimo é por que você é insuficiente para si próprio. Como poderiam outras pessoas preencherem o vazio que é seu?
- Mas meu vazio é involuntário.
- Isso é uma crença sua. E deixe-me lhe contar algo: se a gente alimenta muito nossas crenças, passamos a chama-las “fatos”, e então “verdades” e, depois, fica perigoso.
- Perigoso por quê?
- Por que depois a gente pensa que é suficiente para o mundo.
- E não somos nem para nós próprios.
- Isso, por que falta-nos o silêncio.
- O senhor acha que eu deveria falar menos?
- Não, de forma alguma, menino.
- Então o que o senhor está sugerindo?
- Que você pratique mais o silêncio. E isso não quer dizer que você deva falar menos, quer dizer que você deve ser mais.
- Eu ainda não sei se eu entendi...
- Sabe, meu filho, uma forma fácil de se manter em silêncio é a distração. O assobio é também uma das vozes do silêncio, a palma-de-uma-mão-só é o sopro do silêncio; a abstração em geral conduz à transcendência, mas abstrair-se ante ao Caos exige o domínio da inquietude. Qual vazio resta ao transbordar-se? A dúvida cede à calmaria, esvanece-se, endireita-lhe os pontos de interrogação. Assim! , vê?
- Vejo! Acho...
- Dúvidas são oportunidades e o silêncio é o proveito. O vazio é o desperdício e é o fardo do egoísta; pois aquele que volta à si é generoso consigo, mas aquele que alimenta suas dúvidas ao invés de saciá-las, este não busca respostas, mas sim, sustento para seus vícios.
- E a inquietude é uma oportunidade, então?
- A inquietude como estímulo é uma oportunidade de transcendência. A inquietude como postura é escape, desperdício, acúmulo de vazio, entropia.
- A quietude através da inquietude, então? É isso?
- Para outros pode parecer um tanto paradoxal, não é? Mas é a exata metáfora do Pelicano Sagrado. Sabe, menino, ter o Caos Primordial como um bloco único é assumir que o princípio do Todo é negentrópico. Não existem caminhos que fujam ao repouso!
- E a recusa?
- A teimosia, filho, é a expressão da ignorância. Quando se deixa, no entanto, de “não-saber”, e este é um passo definitivo, passa-se a atuar com sapiência. Há os atrasos, claro, mas não há o que realmente desvie a marcha das almas. Se formos mais longe, mesmo os atrasos são inconcebíveis por serem, de todo, previsíveis. É uma sintropia, afinal! O vigésimo primeiro arcano do tarot.
- O Mundo. É como se tudo fosse sagrado, como se cada pequena coisa estivesse em seu devido lugar. Seria um princípio elevadíssimo de autossuficiência...
- Este é O Repouso, a quietude da qual falávamos. E acho que a nossa conversa termina aqui! Já não há mais nada que eu possa lhe elucidar, nenhum princípio maior do que este...
- Espera! Mas por quê é ruim que eu almeje o melhor para os outros?
- Ah! Você deve almejar o melhor para os outros! Não deve, no entanto, almejar o melhor pelos outros. O divino, filho, é cada um; e cada um sabe o que esperar por si. E aquele que se impacienta é imaturo, e é ignorante, e é inquieto, pois não compreende o ritmo alheio e nem o seu próprio, quem dirá o ritmo do Mundo.
- Entendi.
- E então?
- Bem... o que eu posso fazer para mudar a realidade dos outros?
- A realidade é mental. Ensine-os a manipular suas próprias mentes e você os ensinará a mudar suas realidades.
- Mas, Mestre, como eu posso lhes ensinar a lidar com suas mentes?
- Você não pode ensinar, filho, eles é quem devem aprender!
- E há algo que eu possa fazer?
- Sempre há o silêncio. Vê?
- Vejo...



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