terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Excede!


O que define o mau perdedor é o apego. Quando a vitória justifica qualquer meio, a derrota é simplesmente inaceitável. O problema da não-aceitação, no entanto, é que a vida é ilimitada e toda vez que a contornamos ela excede os limites e nos mostra sua exuberância. 

É isso que o mau-perdedor não enxerga.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A Virtude do Êxtase

 Tomar o extraordinário como corriqueiro nos faz mais cinzas. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Vaivém


A fé remove montanhas,

A má-vontade as move de volta.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Da "explicitude" das exigências


Não se pode alcançar uma meta invisível.

Ao delimitarmos tornamos o sutil mais palpável. 


sábado, 11 de novembro de 2017

Concordia

Como podes discordar de mim, se concordo contigo em absoluto?!

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Desacerto

As pessoas falham conosco, nós falhamos com as pessoas.

Tudo bem, ainda somos humanos. Tudo se acerta.

domingo, 22 de outubro de 2017

Nota sobre a Desordem


Não há nada que esteja fora de seu lugar e não há um ser que não possua um código próprio para lidar com seus símbolos.

A desordem é o limite da compreensão de um ante a multiplicidade de linguagem dos outros. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Anseios

Não queira que as pessoas notem a sua importância na sua ausência.

Isso não te faz importante, te faz um quebra-galho.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Auto-Imagem Sombreada

Às vezes, de uma forma muito curiosa, a gente conhece uma pessoa igualzinha a nós: ainda que não seja nosso sósia e não se pareça em nada em absoluto, observamos os mesmos hábitos, o mesmo jeito de falar, uma postura perante ao mundo muito semelhante à nossa, à quem nós somos. Eu desconfio que isso se passa, eventualmente, com todos nós, embora nem sempre sejamos capazes de notar tais reflexos ou associá-los. 

O que eu acho o mais curioso, no entanto, é que a nossa capacidade de julgar se altera drasticamente: ao nos darmos conta da oportunidade de confrontarmo-nos percebemos quanta admiração e quanto desprezo nutrimos por nós mesmos. Esses momentos de pequenos embates ideários são decisivos para que percebamos a forma como nos comportamos e, às vezes, até a forma como negamos e persistimos em um ceticismo quanto às características que não queremos nos enxergar.

Tais estranhos, tão familiares, passam em nossas vidas como um susto, um pequeno cisma em nossa compreensão da realidade. Mas sua presença é tão impactante que acabam por formular uma memória que temos de nós mesmos: são as sombras que compõe a nossa auto-imagem e que se arrastam em nossos pensamentos quando somos pouco gentis e indelicados conosco. Sombras essas bem palpáveis e que delineiam muito nitidamente o Abismo entre o que acreditamos ser ideal e o que somos de fato ante todo este potencial.

Mas é importante ponderamos que a frustração conosco mesmo é fruto dela própria e se alastra indistintamente. Não há Prometeu que seja capaz de carregar qualquer fogo que seja sem estar inflamado por um ideal que, em essência, é ele mesmo. E ao nos incorporarmos de tudo aquilo que acreditamos ser essa essência, adquirimos uma espécie de auto-confiança inabalável, um orgulho sincero que espelhado e projetado nos demais nos produz admiração. Assim as sombras de nossa auto-imagem já não são mais sombras, ou ainda que sejam, já não nos perseguem. Damos conta de sermos quem somos e de nos enxergar num estranho. E podemos  compreender, por fim, que a relação com este estranho, que somos nós mesmos em última instância, é a nossa única oportunidade de manifestar aquele potencial que aparta o ideal do imediato. No fim das contas o mundo é mesmo um reflexo do que somos e o diabo que lhe pintamos é bem parecido com a gente...

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Devoto de Mim

Comprometer-se consigo mesmo é assumir-se por inteiro.
A dedicação não vem por partes, não existe a segregação do sagrado: tudo o É, e este é o ideal da percepção, a laboriosa obra do espírito.
A percepção é uma pedra bruta a ser burilada, e conforme ela toma forma, o mundo se revela como o É de fato.

sábado, 23 de setembro de 2017

O Tino Mágico

 As vezes a ignorância assume tais proporções que se torna indelicada. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Tetragrammaton


Quem menos tempo tem

menos tempo tem.

A insatisfação é viciosa.


Sobriedade é atenção plena:

onde está sua consciência 

neste exato instante? 


Qualquer hipótese é embriaguez.

O pensamento é um delírio,

no máximo acerca-se de reflexos...


A resposta é desimportante,

o relevante é a firmeza da fala

tal como o tom de um Mestre Zen.


Leva-se tempo para se ter tempo

Eis a obra da percepção.

- há mais entrelinhas do que linhas.


É o não-dito a morada da Essência

(                                                          )

Assim, não a palavra, mas o som.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Prioridades


Os avôs levam as crianças à escola

Nesse mundo de pais sem tempo

Estes são os ecos da eternidade.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O tempo como desculpa universal


- Como andam os escritos?

- Ando meio sem tempo...

- Sem tempo? É uma daquelas desculpas universais, não é?

- É...

- Eu fico pensando quando exatamente passamos a nos deixar controlar pelo relógio.

- Acho que foi no momento em que convimos que uma jornada de trabalho deveria ter um tempo mínimo. Desde então se tornaram preciosas as horas restantes...

- Preciosas não, que nem as percebemos. Mas as tratamos como se fossem para não nos obrigar a nada que nos exija esforço.

- É uma boa desculpa, não é?

- O quê?

- O tempo.

- Ah sim. E é incrível que seja tão convincente...

- Afinal quem tem tempo?

- Mas me diga: por que você parou de escrever?

- Não é que eu tenha parado, eu apenas diminuí o ritmo.

- Por quê?

- Eu me disse que era porque eu vinha mantendo um diário regularmente e por lá eu transbordava sem lirismos... a verdade é que eu andei meio displicente comigo mesmo. Quer dizer, eu sinto falta destes bancos, das conversas, do ambiente...

- Você é sempre bem vindo.

- Eu me sinto como se fosse.

- Pois eu te espero aqui amanhã, ok?

- E se eu não conseguir?

- Eu vou te esperar.


domingo, 20 de agosto de 2017

O Sábio Apazigua o Jardim


Penso

tanto que tenciono-me

alongo-me em reticências

que nunca se tornam palavras

mesclam e embrulham-se mudas

fazendo este embaraço que aqui 

escarro:

*!


Ai, 

que se eu tivesse a minha idade

o meu talento, a minha sabedoria,

eu não me preocupava tanto

aliás, eu não me preocuparia

com nada absolutamente.

Se eu tivesse visto o que eu vi

vivido o que vivi, enfim, 

nem aqui cabe.

A tolice dos jovens é um direito

caro, porém inalienável.

Portanto fica assim, 

só esse conselho: tudo é perfeito.


Cerimônia Rodrigo & Raquel

Faze o que Tu Queres Há de ser o Todo da Lei

O Amor é a Lei, Amor sob Vontade


Amor este que é incondicional, ou seja, que não se condiciona, que não se define por meio das situações e por isso é constante. E sendo constante, transcende qualquer limite, por que É o que É, e não qualquer outra coisa. Amor, com letra maiúscula, abrange todos os seres, todas as situações, todas as experiências, já que sob sua ótica não há qualquer adversidade, não há oposição, não há inimizade, tudo está em comunhão! E ao Amor só cumpre sua natureza última: amar.


Amar não é um desafio, é um privilégio! A capacidade de amar é inerente a todo e qualquer ser humano! E quando falamos de Amor, falamos do que é Vasto, do que transborda, da substância que é capaz de abranger a tudo, desde os mais simples ou complicados eventos do cotidiano até as cerimônias mais sublimes que nos despertam os sentidos e elevam o nosso espírito!


Carlos Drummond de Andrade diz que "Amar se aprende Amando" e é incrível como uma frase tão curta sintetiza toda a essência do Amor! Pois o Amor é o aprendizado e para que aprendamos qualquer coisa precisamos ser voluntariosos, estar dispostos, abertos, não à informação apenas, mas ao outro. Todo aprendizado exige um vínculo emocional e talvez o tempo torne difícil aprender coisas novas por que talvez, de alguma forma, compliquemos o Amor. Este é um convite para nos descomplicar!


Amor sob Vontade! Pois também o Amor deve estar em conformidade com o Propósito Maior. “Que seja feita a Vossa Vontade, Assim na Terra como no Céu”. E é Deus, como entendemos, Quem designa a cada ser o seu propósito íntimo, a sua Verdadeira Vontade, aquilo que ao perseguirmos e executarmos ao longo de nossa vida faz a nossa Essência brilhar. É como nos diz um livro de infinita sabedoria: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”, e quando uma estrela está em sua trajetória perfeita, nenhum outro astro colide ou se interpõe em sua rota e ela cintila e reluz mais forte.


Rodrigo soube amar Raquel desde o primeiro dia em que a conheceu. E Raquel viu em Rodrigo algo inexplicável, diferente de tudo o que ela já tinha visto. Mas, para além do deslumbre, o reconhecimento, tantas eram as semelhanças que possuíam. É a afinidade que dita o ritmo dos relacionamentos e é o respeito que o consolida. No final das contas trata-se da diplomacia de dois infinitos em comunhão e é como se diz: “Não há laço que possa unir os divididos senão o amor”.


É o respeito que nos permite preservar a individualidade do outro para que cada um possa cumprir a sua Verdadeira Vontade com a amplitude de suas particularidades sagradas. A preciosidade está nos detalhes, pois o que parece inócuo para um pode ser um tesouro para o outro e é a compreensão que dá as dimensões de quão vasto o mínimo pode ser. Compreender é expressar simultaneamente sabedoria e amabilidade. Quando somos capazes de enxergar o sagrado também nos contrastes transcendemos os limites de nossa zona de conforto. Assim passamos a conviver em harmonia com tudo o que nos cerca. É assim que aprendemos a Amar.


Rodrigo e Raquel, que o Amor de vocês não conheça restrições! Que unidos vocês possam ser ainda mais radiantes e felizes e que possam iluminar um ao outro sempre. Não há adversidades para aqueles que encontram em cada vírgula de cada frase uma nova oportunidade para a compreensão. Assim, que vocês possam aprender a amar amando!


Amor é a Lei, Amor sob Vontade!


12/08/2017

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Perceber é Apreciar

Acariciamos o mundo e mal nos damos conta.
Mas quando damos, extasiamos.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Das Frustrações da Mulher Invejosa

A imaturidade anda de mãos dadas com a autocomiseração.

O ser que mima a si mesmo é permissivo em sua ignorância.

Assim, é insuportável a visão de seu reflexo torto: o mínimo vislumbre de sua frustração resulta na indisposição com o espelho!

O injustiçado, sempre injustiçado, crucifica os outros em busca de legitimar sua lamúria.

Mas quão extensa é sua sombra? Parece sempre vagar ao ocaso, pálido e trêmulo, receoso de encarar-se de frente e descobrir-se o quão pequeno.

Mais vale que tenha mesmo pena de si.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Conto do Apego

Se o capitão permanecer ao leme

Durante toda a viagem

É certo que o navio naufrague.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Grande Insight

A Grande Obra é um caminho estético cujo objetivo é o aprimoramento absoluto da percepção.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Tamanho dos Detalhes

As pequenas delícias nos ensinam sobre o deleite,

Os pequenos desastres nos ensinam sobre tolerância.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

terça-feira, 6 de junho de 2017

Indisponível

"Mas como eu saberei que você terá tempo para mim, se você não tem nem tempo para si?", respondeu a sábia donzela às investidas do falso altruísta.

Touché, ela sabia mais das estações do que ele.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

Espelhado

Eu e ela, ela e eu 

quase sinônimos,

de perto diversos


Todos meus versos

e meus heterônimos 

enamorados dos seus.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Plástica do Costume


Irreprimível fluxo de criatividade! Tenho textos para mais de mês, para cumprir essa mesquinha aposta que fiz comigo e que não levo tão a sério assim, tendo visto a qualidade das últimas produções.

Independente disso, finjo cumprir minhas responsabilidades e como Fernando Pessoa dizia, poeta que finge é poeta que sente, assim eu sinto muito.


Às vezes penso que essa vida de escritor me mal-acostumaria, mas vejo que já o estou e escrevi muito pouco para tanto...


quinta-feira, 4 de maio de 2017

O contrate enfatiza o rude

O homem, 

assim como o espelho,

quanto mais polido

melhor reflete a indelicadeza alheia.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Chave Teórica


A referência é a diferença

entre a compreensão do sutil

e a interpretação literal.

sábado, 22 de abril de 2017

O brilho do Incognoscível

 

Uma Estrela que reluz no horizonte 

brilha de maneira incompreensível

aos olhos da maioria dos homens.


Mesmo assim, encantados, eles não deixam de a admirar.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Abóbada de Cristal


A Torre que traga o desnecessário 

Perfura o véu da Noite Escura

E profana o altar do conveniente.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Inflexão do Saber

As vias do Conhecimento geralmente conduzem a Pontos sem Retorno.

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"Só de você saber que ele sabe o que ele não sabe que você sabe que ele sabe já mostra que o moço sabe bastante, não é? Pois confia na sabedoria do moço que vocês têm muito para trocar."

quarta-feira, 29 de março de 2017

Provérbios da Desigualdade

 

Julgar é dividir. 

Só se faz justiça por referências.

A vaidade é a raiz da parcialidade.

Dois homens nunca chegam à mesma Verdade por palavras.

Autoridade é revestimento de fragmentos de convenção. 

A força convence.

A burocracia é uma ferramenta de protelações providenciais.

Toda reprimenda é uma catarse pessoal.

A linguagem reprime a expressão.

Nenhuma sentença abrange qualquer situação.

Cada ponto tem sua pausa particular. 

Mas isso é privilégio. Pois tudo é reticente. 


quinta-feira, 23 de março de 2017

Perímetro Meticuloso



Não tome o impessoal por apático,

sob pena de confundir 

dissolução com receio.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Autoexistente


Autodomínio é a ciência da compreensão e reformulação das impressões que  os estímulos lhe provocam.

Estímulos que podem ser internos ou externos; Impressões que se dão por ressonância, e só ressoa o que de alguma forma possui afinidade; provocações que por definição são sedutoras e convidativas.

Autodomínio, portanto, é a capacidade de refrear reações, convertê-las em (não-)ações e  perceber todos os seus desdobramentos.


O ser é a extensão de seus atos. De certa maneira somos responsáveis por toda e qualquer influência que produzimos, embora quase sempre sequer desconfiemos até onde vamos...

quinta-feira, 2 de março de 2017

Inquisição Íntima

Há duas perguntas urgentes que precisam ser respondidas:


A primeira é "quem é você?

e a segunda é "quem você pensa que é?"


O que é arbitrário é sempre mais fácil de se responder, porém não nos contenta.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Violentamente Só

As pessoas irritadas nos provocam para que compartilhemos de seu veneno.
Parece que a raiva acentua sua solidão...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Comunhão em meio ao caos minúsculo

Calar é a quarta virtude porque resguardar a palavra significa gestar a oportunidade.


O silêncio não omite, ele apenas não revela: é um reflexo de quem o observa e o eco de quem o contempla. Eis pois por que dizem que o calar é consentir: insensíveis! não enxergam além de si e em seu incômodo julgam o vazio...

O lábio cerrado é o pleroma inefável.


É da imprevisibilidade do cão que não ladra que o incauto busca respostas num oráculo vão. O silêncio é essa entrelinha inescrita num pretensioso destino que acreditam os lunáticos;

é a sutil lacuna no convencional, a possibilidade pura que precede a linguagem. A seta retesada e pontual.


O silêncio é de ouro, como dizem.

E quem diz é de prata...


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Das Posturas


Aos 16 anos de idade eu treinava artes marciais. O treino começava às 19:00 horas em ponto e se você chegasse atrasado você tinha que dar 50 voltas correndo em torno do tatame. Meu pai quem me levava, eu sempre chegava atrasado, o mestre sempre cobrava da gente essa disciplina , então duas vezes por semana eu corria e corria e corria, até cansar. O que estava em jogo não era a vaidade do mestre, a pontualidade para com a aula dele, mas sim o compromisso com aquilo pelo qual ele devia zelar. Aquela Arte era o sagrado, e como seu representante, a ele cabia o papel de nos cobrar essa percepção do mundo. O mestre sempre foi perfeito em sua postura.

Hoje, aos 26, eu trabalho num templo. O horário é o mesmo, 19:00 horas em ponto, mas eu já não dependo de ninguém para me locomover. Independente de qualquer imprevisto, às 19:00 horas a mestra está na sala, no templo. Mas ela não quer saber se você chegou 18:00 ou 20:00, não há nenhuma cobrança, advertência ou punição, nenhuma palavra é proferida. O compromisso continua sendo o mesmo, o ambiente é tão sagrado quanto, mas cada um administra os seus horários e a forma como encara suas obrigações. É claro que uma pessoa que não tem uma postura  condizente com o ambiente mais cedo ou mais tarde é afastada, mas não há qualquer preocupação em controlar diretamente a disciplina dos adeptos. A mestra é perfeita em sua postura.

A diferença entre a mão esquerda e a mão direita está na rigidez e na complacência. Uma orienta o discípulo a enxergar o que precisa ser trabalhado e lhe faz encarar de frente os seus erros até que ele seja apto a administrar a si mesmo. A disciplina é cobrada a cada passo e o sucesso só vem por meio do esforço contínuo. 

A outra exige a mesma disciplina e o mesmo esforço, mas a cobrança é implícita e sutil. O indivíduo tem uma maior ilusão de liberdade, mas ele precisa ser perspicaz e auto-centrado, pois parte-se do princípio que o adepto é passível de gerir-se e de lidar com suas obrigações. E se a incapacidade é atestada ele simplesmente deixa de integrar a tradição.

Ambos os sistemas se complementam e são interdependentes, de tal maneira que é preciso equilibrar confiança e disciplina na busca da qualidade do compromisso. O mesmo se dá no caminho solitário em que os mestres são as circunstâncias da vida e o discípulo inapto alterna entre inércia e aprendizados dolorosos até ser capaz de gerir a sua vida de maneira aceitável. E é somente com alguma dedicação que é possível qualquer progresso  e isso se faz nítido e lógico ao passo que se adquire maturidade.

Imprevisto e acaso são como o profano nomeia sua miopia, são termos para amenizar a incompetência que sua própria consciência tenta lhe fazer ver. Mas assim é o caminho, e ele é perfeito em sua postura.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Torpor

De alguma forma nossas substâncias, práticas  e relações

são propositalmente abusivas 

para podermos sustentar nossa eterna síndrome de mártir.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Das Serpentes que nos Conduzem por Florestas e das Noites Escuras da Alma



Esses dias sonhei com um irmão meu. Mas eu sou filho único e tenho esse péssimo hábito de levar palavras ao pé da letra, valores muito a sério e ser firme quando os outros não são. Síndrome de Saturno. Assim me fiz homem e se me explico demais é para ser um pouco menos sisudo do que meus atos parecem ser.

Entretanto, poesia. E o coração dos poetas ama desmedido, quiçá seja essa a dor de mensurar. Bendito é o inefável e assim permanece Absoluto. E eu, mero mortal, contemplo o amor e rio das condições em que nos colocamos por insegurança e insensatez. A ignorância é mesmo a causa do sofrimento.

Neste sonho uma naja conduz-me pela floresta por caminhos obscuros até uma clareira de onde surge este estupefato amigo, alegre por reencontrar-me e poder me abraçar. Eu, paralisado, sinto em seus braços o aperto da própria serpente, numa conciliação mais que repentina e que me sufoca, embora haja amor. Recíproco. Em desespero, só o que eu quero é fugir e só o que eu faço é chorar, como um menino traído no enlace de um adulto que quer calá-lo, como um soluço que não se torna frase alguma e cala entalada.

Acordo com a garganta seca e a ferida aberta e ainda penso no alívio agridoce que sinto, no abraço que exala frustração e arrependimento, mas que não diz nada com a própria boca. Algo de covardia, de receio de rejeição... Acordo pensando que esse não é um pesadelo, eu não tenho pesadelos. Esse é um daqueles sonhos cristalinos que nos espelham a alma e nos confrontam num apelo direto a rever o que somos, o que fazemos, o que sentimos. Eu sei o que é, mesmo assim o sonho insiste.

Acordo, tomo uma água e anoto o sonho. Depois internalizo e escrevo o texto. Este texto, uma missiva vaga de entrelinhas estreitas, ilegíveis ao insensível. O coração que não sangra não lê um ponto onde não tem. E talvez seja esse o problema do invisível: há quem queira ver tanto que acaba por enxergar o que quer. Por isso é problemático lançar luz sobre fatos: se por um lado iluminamos os detalhes, por outro projetamos sombras. Uns enxergam um convite, outros um insulto. E eu conservo o silêncio pois não é de meu feitio falar demais.

 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Da Arte de Contar Sementes


O Japamala surgiu na região da Índia, há quase 5 mil anos, mas alcançou rapidamente inúmeras escolas de conhecimento e tradições religiosas pelo mundo inteiro que o adaptaram conforme suas crenças. O termo Japa significa "murmurar, repetir" e Mala significa "cordão ou conta". Assim sendo, ao pé da letra Japamala seria "repetir em um colar de contas". Em outras palavras, uma espécie de oração em série, como são os mistérios do rosário cristão.

A técnica de usar um japamala para se entoar mantras e orações repetitivamente permite que não se precise contar cada oração, inibindo assim a ação da mente racional. O afastamento do eu-analítico durante a oração permite que o praticante alcance com maior facilidade estados de consciência alterados que conduzem ao Êxtase e à iluminação progressiva. 

Os mantras são fórmulas de libertação da mente ("man"=mente, "tra"=libertar) de condicionamentos, traumas e formas pensamento que limitam o ser. O hábito de entoá-los, bem como salmos e orações, visa ao fortalecimento espiritual e psíquico do indivíduo, além de trabalhar funções específicas como proteção, compaixão, prosperidade, entre outras propriedades.

Com a prática o Japamala vai imantando-se com a energia da oração e tornando-se um objeto sagrado e de vibração singular. A fé, o amor e a devoção do praticante fixam-se em cada conta e as pequenas esferas tornam-se um repositório de poder pessoal, consagrando o mala como um excelente objeto de proteção também para o uso cotidiano.

É comum encontrar Adeptos que consagrem um Mala para cada mantra, imantando as contas com aquela energia específica, de tal maneira que apenas o ato de se vestir o Mala, incorpora-se as virtudes daquele mantra. Assim, o praticante pode ter um Japamala exclusivo para cantar à prosperidade, outro para a sabedoria e pode vesti-los em ocasiões que ele precise daquela energia junto a si. O cordão torna-se uma extensão do sagrado, uma verdadeira ferramenta religiosa.

Há Japamala dos mais diversos materiais e cores, porém o número de contas costuma variar apenas entre os denominadores de 108: 27, 36, 54 e o próprio 108, que é o modelo completo e mais comum de se achar. Num Mala, há algumas contas diferentes que servem como subdivisões, e há uma única conta central, chamada de Meru, que une as duas extremidades e marca o início e o fim do ciclo. Esta é uma conta sagrada e pode ter seu tamanho maior que as demais, simbolizando sua importância.

O número 108 é particularmente importante dentro da cultura indiana e há inúmeras curiosidades acerca dele. Para nós, no entanto, convém apenas dizer que ele simboliza o infinito, o grandioso, e por isso é tido como o número ideal de repetições para que um mantra alcance uma eternidade simbólica. É interessante pensarmos que como múltiplo de 9, o maior número natural, todos os seus denominadores também resultam 9, sendo este o ciclo da sabedoria e o caminho da iluminação. 

E não é que o povo tem razão ao dizer que "quem canta, seus males espanta"?!