terça-feira, 23 de maio de 2017

Espelhado

Eu e ela, ela e eu 

quase sinônimos,

de perto diversos


Todos meus versos

e meus heterônimos 

enamorados dos seus.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Plástica do Costume


Irreprimível fluxo de criatividade! Tenho textos para mais de mês, para cumprir essa mesquinha aposta que fiz comigo e que não levo tão a sério assim, tendo visto a qualidade das últimas produções.

Independente disso, finjo cumprir minhas responsabilidades e como Fernando Pessoa dizia, poeta que finge é poeta que sente, assim eu sinto muito.


Às vezes penso que essa vida de escritor me mal-acostumaria, mas vejo que já o estou e escrevi muito pouco para tanto...


quinta-feira, 4 de maio de 2017

O contrate enfatiza o rude

O homem, 

assim como o espelho,

quanto mais polido

melhor reflete a indelicadeza alheia.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Chave Teórica


A referência é a diferença

entre a compreensão do sutil

e a interpretação literal.

sábado, 22 de abril de 2017

O brilho do Incognoscível

 

Uma Estrela que reluz no horizonte 

brilha de maneira incompreensível

aos olhos da maioria dos homens.


Mesmo assim, encantados, eles não deixam de a admirar.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Abóbada de Cristal


A Torre que traga o desnecessário 

Perfura o véu da Noite Escura

E profana o altar do conveniente.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Inflexão do Saber

As vias do Conhecimento geralmente conduzem a Pontos sem Retorno.

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"Só de você saber que ele sabe o que ele não sabe que você sabe que ele sabe já mostra que o moço sabe bastante, não é? Pois confia na sabedoria do moço que vocês têm muito para trocar."

quarta-feira, 29 de março de 2017

Provérbios da Desigualdade

 

Julgar é dividir. 

Só se faz justiça por referências.

A vaidade é a raiz da parcialidade.

Dois homens nunca chegam à mesma Verdade por palavras.

Autoridade é revestimento de fragmentos de convenção. 

A força convence.

A burocracia é uma ferramenta de protelações providenciais.

Toda reprimenda é uma catarse pessoal.

A linguagem reprime a expressão.

Nenhuma sentença abrange qualquer situação.

Cada ponto tem sua pausa particular. 

Mas isso é privilégio. Pois tudo é reticente. 


quinta-feira, 23 de março de 2017

Perímetro Meticuloso



Não tome o impessoal por apático,

sob pena de confundir 

dissolução com receio.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Autoexistente


Autodomínio é a ciência da compreensão e reformulação das impressões que  os estímulos lhe provocam.

Estímulos que podem ser internos ou externos; Impressões que se dão por ressonância, e só ressoa o que de alguma forma possui afinidade; provocações que por definição são sedutoras e convidativas.

Autodomínio, portanto, é a capacidade de refrear reações, convertê-las em (não-)ações e  perceber todos os seus desdobramentos.


O ser é a extensão de seus atos. De certa maneira somos responsáveis por toda e qualquer influência que produzimos, embora quase sempre sequer desconfiemos até onde vamos...

quinta-feira, 2 de março de 2017

Inquisição Íntima

Há duas perguntas urgentes que precisam ser respondidas:


A primeira é "quem é você?

e a segunda é "quem você pensa que é?"


O que é arbitrário é sempre mais fácil de se responder, porém não nos contenta.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Comunhão em meio ao caos minúsculo

Calar é a quarta virtude porque resguardar a palavra significa gestar a oportunidade.


O silêncio não omite, ele apenas não revela: é um reflexo de quem o observa e o eco de quem o contempla. Eis pois por que dizem que o calar é consentir: insensíveis! não enxergam além de si e em seu incômodo julgam o vazio...

O lábio cerrado é o pleroma inefável.


É da imprevisibilidade do cão que não ladra que o incauto busca respostas num oráculo vão. O silêncio é essa entrelinha inescrita num pretensioso destino que acreditam os lunáticos;

é a sutil lacuna no convencional, a possibilidade pura que precede a linguagem. A seta retesada e pontual.


O silêncio é de ouro, como dizem.

E quem diz é de prata...


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Das Posturas


Aos 16 anos de idade eu treinava artes marciais. O treino começava às 19:00 horas em ponto e se você chegasse atrasado você tinha que dar 50 voltas correndo em torno do tatame. Meu pai quem me levava, eu sempre chegava atrasado, o mestre sempre cobrava da gente essa disciplina , então duas vezes por semana eu corria e corria e corria, até cansar. O que estava em jogo não era a vaidade do mestre, a pontualidade para com a aula dele, mas sim o compromisso com aquilo pelo qual ele devia zelar. Aquela Arte era o sagrado, e como seu representante, a ele cabia o papel de nos cobrar essa percepção do mundo. O mestre sempre foi perfeito em sua postura.

Hoje, aos 26, eu trabalho num templo. O horário é o mesmo, 19:00 horas em ponto, mas eu já não dependo de ninguém para me locomover. Independente de qualquer imprevisto, às 19:00 horas a mestra está na sala, no templo. Mas ela não quer saber se você chegou 18:00 ou 20:00, não há nenhuma cobrança, advertência ou punição, nenhuma palavra é proferida. O compromisso continua sendo o mesmo, o ambiente é tão sagrado quanto, mas cada um administra os seus horários e a forma como encara suas obrigações. É claro que uma pessoa que não tem uma postura  condizente com o ambiente mais cedo ou mais tarde é afastada, mas não há qualquer preocupação em controlar diretamente a disciplina dos adeptos. A mestra é perfeita em sua postura.

A diferença entre a mão esquerda e a mão direita está na rigidez e na complacência. Uma orienta o discípulo a enxergar o que precisa ser trabalhado e lhe faz encarar de frente os seus erros até que ele seja apto a administrar a si mesmo. A disciplina é cobrada a cada passo e o sucesso só vem por meio do esforço contínuo. 

A outra exige a mesma disciplina e o mesmo esforço, mas a cobrança é implícita e sutil. O indivíduo tem uma maior ilusão de liberdade, mas ele precisa ser perspicaz e auto-centrado, pois parte-se do princípio que o adepto é passível de gerir-se e de lidar com suas obrigações. E se a incapacidade é atestada ele simplesmente deixa de integrar a tradição.

Ambos os sistemas se complementam e são interdependentes, de tal maneira que é preciso equilibrar confiança e disciplina na busca da qualidade do compromisso. O mesmo se dá no caminho solitário em que os mestres são as circunstâncias da vida e o discípulo inapto alterna entre inércia e aprendizados dolorosos até ser capaz de gerir a sua vida de maneira aceitável. E é somente com alguma dedicação que é possível qualquer progresso  e isso se faz nítido e lógico ao passo que se adquire maturidade.

Imprevisto e acaso são como o profano nomeia sua miopia, são termos para amenizar a incompetência que sua própria consciência tenta lhe fazer ver. Mas assim é o caminho, e ele é perfeito em sua postura.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Torpor

De alguma forma nossas substâncias, práticas  e relações

são propositalmente abusivas 

para podermos sustentar nossa eterna síndrome de mártir.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Das Serpentes que nos Conduzem por Florestas e das Noites Escuras da Alma



Esses dias sonhei com um irmão meu. Mas eu sou filho único e tenho esse péssimo hábito de levar palavras ao pé da letra, valores muito a sério e ser firme quando os outros não são. Síndrome de Saturno. Assim me fiz homem e se me explico demais é para ser um pouco menos sisudo do que meus atos parecem ser.

Entretanto, poesia. E o coração dos poetas ama desmedido, quiçá seja essa a dor de mensurar. Bendito é o inefável e assim permanece Absoluto. E eu, mero mortal, contemplo o amor e rio das condições em que nos colocamos por insegurança e insensatez. A ignorância é mesmo a causa do sofrimento.

Neste sonho uma naja conduz-me pela floresta por caminhos obscuros até uma clareira de onde surge este estupefato amigo, alegre por reencontrar-me e poder me abraçar. Eu, paralisado, sinto em seus braços o aperto da própria serpente, numa conciliação mais que repentina e que me sufoca, embora haja amor. Recíproco. Em desespero, só o que eu quero é fugir e só o que eu faço é chorar, como um menino traído no enlace de um adulto que quer calá-lo, como um soluço que não se torna frase alguma e cala entalada.

Acordo com a garganta seca e a ferida aberta e ainda penso no alívio agridoce que sinto, no abraço que exala frustração e arrependimento, mas que não diz nada com a própria boca. Algo de covardia, de receio de rejeição... Acordo pensando que esse não é um pesadelo, eu não tenho pesadelos. Esse é um daqueles sonhos cristalinos que nos espelham a alma e nos confrontam num apelo direto a rever o que somos, o que fazemos, o que sentimos. Eu sei o que é, mesmo assim o sonho insiste.

Acordo, tomo uma água e anoto o sonho. Depois internalizo e escrevo o texto. Este texto, uma missiva vaga de entrelinhas estreitas, ilegíveis ao insensível. O coração que não sangra não lê um ponto onde não tem. E talvez seja esse o problema do invisível: há quem queira ver tanto que acaba por enxergar o que quer. Por isso é problemático lançar luz sobre fatos: se por um lado iluminamos os detalhes, por outro projetamos sombras. Uns enxergam um convite, outros um insulto. E eu conservo o silêncio pois não é de meu feitio falar demais.

 

sábado, 7 de janeiro de 2017

Da Arte de Contar Sementes


O Japamala surgiu na região da Índia, há quase 5 mil anos, mas alcançou rapidamente inúmeras escolas de conhecimento e tradições religiosas pelo mundo inteiro que o adaptaram conforme suas crenças. O termo Japa significa "murmurar, repetir" e Mala significa "cordão ou conta". Assim sendo, ao pé da letra Japamala seria "repetir em um colar de contas". Em outras palavras, uma espécie de oração em série, como são os mistérios do rosário cristão.


A técnica de usar um japamala para se entoar mantras e orações repetitivamente permite que não se precise contar cada oração, inibindo assim a ação da mente racional. O afastamento do eu-analítico durante a oração permite que o praticante alcance com maior facilidade estados de consciência alterados que conduzem ao Êxtase e à iluminação progressiva. 


Os mantras são fórmulas de libertação da mente ("man"=mente, "tra"=libertar) de condicionamentos, traumas e formas pensamento que limitam o ser. O hábito de entoá-los, bem como salmos e orações, visa ao fortalecimento espiritual e psíquico do indivíduo, além de trabalhar funções específicas como proteção, compaixão, prosperidade, entre outras propriedades.


Com a prática o Japamala vai imantando-se com a energia da oração e tornando-se um objeto sagrado e de vibração singular. A fé, o amor e a devoção do praticante fixam-se em cada conta e as pequenas esferas tornam-se um repositório de poder pessoal, consagrando o mala como um excelente objeto de proteção também para o uso cotidiano.


É comum encontrar Adeptos que consagrem um Mala para cada mantra, imantando as contas com aquela energia específica, de tal maneira que apenas o ato de se vestir o Mala, incorpora-se as virtudes daquele mantra. Assim, o praticante pode ter um Japamala exclusivo para cantar à prosperidade, outro para a sabedoria e pode vesti-los em ocasiões que ele precise daquela energia junto a si. O cordão torna-se uma extensão do sagrado, uma verdadeira ferramenta religiosa.


Há Japamala dos mais diversos materiais e cores, porém o número de contas costuma variar apenas entre os denominadores de 108: 27, 36, 54 e o próprio 108, que é o modelo completo e mais comum de se achar. Num Mala, há algumas contas diferentes que servem como subdivisões, e há uma única conta central, chamada de Meru, que une as duas extremidades e marca o início e o fim do ciclo. Esta é uma conta sagrada e pode ter seu tamanho maior que as demais, simbolizando sua importância.


O número 108 é particularmente importante dentro da cultura indiana e há inúmeras curiosidades acerca dele. Para nós, no entanto, convém apenas dizer que ele simboliza o infinito, o grandioso, e por isso é tido como o número ideal de repetições para que um mantra alcance uma eternidade simbólica. É interessante pensarmos que como múltiplo de 9, o maior número natural, todos os seus denominadores também resultam 9, sendo este o ciclo da sabedoria e o caminho da iluminação. 


E não é que o povo tem razão ao dizer que "quem canta, seus males espanta"?!