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Dois minutos de conversa

uns dois minutos de conversa viriam a calhar. claro que para uma conversa de esquina está muito bom: um assunto rápido, comum, público. mas se as palavras se emendam e vão puxando outros temas, tantos que nem cabem no imaginário por serem espontâneos demais, daí eu sugeriria uma cafeteria onde as almas se acalmam. penso se tratarem de alívios e simplesmente isso. Que garçons são charmosos a carregarem uma xícaras de café e as cadeiras são poltronas em um fim de tarde. E, ah! qualquer papo-furado é poesia por aquelas bandas. E nos chamam de poetas quando escolhemos nossa mesa...

De mãos vazias

Recebeu-me em seu quarto vazio no meio da noite. Vivi de visitas inesperadas ao longo desses últimos meses. E ainda que, agora, de volta ao lar – devo acrescentar, por tempo indefinido – minha cama me estranha e se murcha ao receber meu corpo encolhido na madrugada gelada. Sussurrou-me algumas palavras confortantes entrecortadas pela boca apoiada nos joelhos. Sentava-se no encontro das paredes, ao lado do espelho, mas o evitava com certo repulso. A cabeça baixa já não era novidade e as histórias que um dia se fizeram de sonífero agora, todas esquecidas. Resolveu se desfazer delas por completo. E ali estavam, nas páginas amareladas, rasgadas no chão do quarto. Quase nem fico. Que o passado bate forte e se perco o controle sou eu o dominado. Mas o tenho, meu anfitrião, de volta à origem, rendido, como um garotinho em plena prenda no canto da sala de aula. Que devaneios o devoram e o tempo o humilha, por castigo ou simples prazer. Apesar de aflito, mantenho-me calado: sei que o Deus do Te...

João

Tens em teu cabelo encaracolado o cheiro da embriaguez e faz parecê-la amável a quem escuta as palavras que ecoam de seus lábios. Tens em tua voz o timbre da segurança e atormenta tuas amantes quando anuncia suas descobertas – que sabem não ser tão dono assim de si. Tens em teu olhar o brilho de um menino que tudo pode. E só eu mesmo para saber o quanto podes. Que és livre e belo, mais que qualquer outro, para poder se lançar ao mundo sem pés atrás ou planos B. Tens em teus passos o mundo a desmoronar; e tudo depende do seu humor. Que às vezes é você quem causa o estrago, e se orgulha e sorri com a sinceridade que nunca presenciei em ninguém mais. Mas às vezes, quando dias cinzas, encara o abismo e se lança na fuga. E compensa em horas intermináveis passadas na sua, nossa, realidade paralela. Aos olhos de uns a inexistência. A outros, mais sensíveis, a insanidade. Que amar assim nunca foi compreensível a ninguém. No entanto, dentro de uma casa, pintamos as paredes de verde e espreitam...

Devaneios Tempranos

Quando saio de casa levo comigo apenas o dinheiro do ônibus de volta. Sei bem sobre retornos: fatigantes. Há o alívio, claro, de se ter para si só, de volta à sua origem, sem competições com as vozes circundantes ou preocupações com as frivolidades alheias, porém o desânimo. Que não fui feito para isso não! De saber aonde é o ponto final, sem surpresas e que se tudo correr bem, se ao meu lado estiver o que chamam de sorte , toda, toda do mundo, será, então, apenas mais um regresso incólume.

Rodeios

O aborto da voz, O nó na garganta, A queda da caneta, O risco, a rasura. A adoção de reticências... Aos impetuosos o rasgar do papel, calar-se de súbito. Aos tímidos o enrubescer; Aos colecionadores mais uma peça, causo! Quantas cartas já não chegaram aos seus destinatários?
Releio as palavras, agrupo meus deslizes, passo tudo a limpo. Preocupo-me com a legibilidade: perco minutos analisando-a com olhares de estrangeiro ... “Já posso trancá-la na gaveta.”

Habitual

Eu sou suas unhas ruídas e o arrependimento ao olhar o esmalte colorido. Sou toda a ansiedade pelo dia de amanhã, a indecisão da roupa e o relógio implacável. Sou essas pupilas cheias, transbordantes, que querem se derramar sobre ponteiros para que se deitem mais rápido. Sou a última, penúltima, antepenúltima... Sou as páginas do seu caderno rabiscado na madrugada. Sou bocejo e a incapacidade de dormir. Sou insônia e serei olheiras. Sou eu quem atende o telefone às quatro, quatro e meia da manhã... Do outro lado da linha só há o respirar. O velho timbre do desespero.