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A Floresta

Os ouvidos, apurados, tateiam o som. Ela o persegue. São passos lentos, mas firmes, que regem um suspense, uma curiosidade que lhe cai bem. E cada vez que nota as notas ela adentra ainda mais àquela floresta. Anda tão distante de si que demora a reparar nas sombras dançantes, a valsa que toma a flora em seu desabrochar. A garota se estupefaz! A vida brota em cada poro e a cor surge de todo canto e tudo sugere-se tão convidativo e contagiante que seus pés que recearam pisar nas silhuetas das árvores não se demoram, adiantam-se. O gato em seu encalço, busca os fiapos que escapam da bolsa à tiracolo. A costura movimenta-se ao vento e faz com que o animal entretenha-se atrás da garota. A música deixa seu rastro, inclusive no rosto da menina, em um sorriso de fascínio e na determinação em alcançar a origem do sonido Os raios de sol sobrevivem à cúpula das árvores e clareiam o local. Acima da cabeça da garota, um céu esverdeado formado pelos tantos galhos que se entrosam e se enrosca...

Estou morto.

E confesso, foi no terceiro dia longe de ti. quem diria que a eternidade é composta de setenta e duas horas?

Inconstante

Da meia noite ao meio dia sou narcisista e admiro cada uma de minhas manias. Do meio dia à meia noite sou persistente em me livrar de todas elas

Lacuna

- Faltando alguma coisa? Falta, o garçom sabe pela expressão. A princípio falta a coragem para admitir. Depois faltam lembranças que vêm fugindo dele há uma semana, o amor próprio que não foi encontrado nas redondezas do bar, algumas explicações a receber, confissões a fazer e a sobriedade tomada à força pela bebida. Falta a mulher que o colocou ali, os amigos que não o acompanharam e o dinheiro que o tiraria dali. Enfim. -Falta outra dose.

Banho

A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi pegar todas as coisas que haviam passado pelas mãos dela e colocar no cesto de roupas sujas. Já não mais suportava seu cheiro. Como sempre, nesses fins de noite que se confundem com o início de um novo dia, fui tomar um banho para esfriar a cabeça. Eu precisava lavar todas as marcas que ela tinha me deixado e a água quente do chuveiro é meu terapeuta preferido. O estranho é que eu não quis mais sair do banho. E ali fiquei, olhando para o teto vendo a fumaça subir e a água descer. Pelo ralo. É, vendo a água descer pelo ralo.

Boneca

teus lábios tremem. e tua garganta está inchada, entalada com o desejo de se explodir nas palavras nela amarradas. teus olhos, suaves, fechados. E eu vou lembrar-te mais uma vez que escorrem lágrimas pelos cantos... teus cabelos com a essência do costume. cheira-me bem. e te sujas o rosto de preto e vermelho para sair e deixas aí eternamente. Por que te borras? Na fotografia, com esses pingos carregados com quem você luta para afastá-los. E quem te deu corda hoje? tuas frases decoradas, está preparada para dizê-las? tuas frases decoradas, está preparada? tuas frases preparadas, está? está?

Orador

Discurso da Escola Técnica de Formação Gerencial de Belo Horizonte, Terceiro Ano B Insaciável! E eu poderia terminar este diálogo por aqui. As palavras cessariam e o silêncio duraria mais tempo do que o discurso propriamente dito. Insaciável! Que assim é o ser humano por si só e foi assim que os pude sentir, meus jovens amigos, durante os três anos de estudos que se concluem. Insaciáveis por não se contentarem! Que o conhecimento nunca bastou e a necessidade sempre foi escandalosa para ser calada. E não me refiro à dificuldade de agradá-los, mas muito pelo contrário, à receptividade! Que todas as palavras - de nossos mestres, colegas, amigos - sempre foram muito bem-vindas, ainda que com a malícia da interpretação que nos foi cobrada logo no início do curso. Insaciáveis, vocês, por serem empreendedores de si próprios. De estarem sempre buscando o melhor e de não medirem esforços ao se comprometerem a uma causa. E com toda essa perseverança se fizeram necessários ao mundo. ...