quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

KALLISTI


Um dia disseram a Narciso que ele tinha um cheiro próprio, inebriante.
Encantado com o elogio, ele estranhou: tínhamos cheiro?
Sim, todos temos cheiro, mas o dele era tremendamente maravilhoso.
Que era uma pena que ele não sentisse seu próprio perfume: sublime!
E que a tragédia da vida fosse essa: não poder sentir-se por inteiro. 
Que essa incompletude era terrível, mas que para Narciso devia ser pior!
Que se ele pudesse, algum dia, da forma como fosse, que prova-se a si!
Mas vaidade exaltada é feito punhal, se perde aos veios da carne;
Quando já não bastam espelhos, contorcem-se os reflexos agoniados
À Narciso faltaram sentidos para se exprimir.

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