terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Aborto


Haviam duas maneiras de resolver aquela situação: ou esperava o trem do dia seguinte ou ia-se caminhando até o destino final. Nietzsche diz que “de duas coisas uma é mais necessária que a outra” e eu digo que entre duas escolhas, uma deve ser mais sensata.
De fato, o local para onde ele devia rumar era um pouco distante daquela estação, mas seu avô o ensinara desde pequeno que tragédias só acontecem com quem se encontra inerte e que estar em constante movimento é ter controle do próprio destino. Em outras palavras, ele se pôs a andar pois era o que o manteria bem consigo mesmo.
Sabia das vantagens de esperar, mas dominava o verbo com tal maestria que chegara à conclusão de que tratava-se de um estado de espírito. Sidarta o entenderia muito bem e aprovaria suas decisões, e foi isso que lhe deu ânimo para começar sua caminhada.
A princípio pensou na hipótese de ir andando pelas estações, percorrendo o caminho do trem até o horário de pegá-lo aonde quer que fosse. Depois descartou esta possibilidade pois não queria ir pelas margens do trilho. Já que ia se desviar da rota original, que fizesse de sua maneira: iria ter por uma estrada de terra que conhecia haver perto dali e aproveitaria a ocasião para verificar se uma certa encruzilhada permanecia intrigando-o. Era caminho para seu destino e uma oportunidade para lidar com a nostalgia.
A história era antiga, mas estava vívida em sua memória. Morava ainda com os avós e sua turma de garotos sempre esteve muito inclinada a fazer longos passeios naquela região. Saiam cedo para uma direção qualquer e andavam a esmo até a hora do sol se pôr. Os garotos adoravam aventurar-se pelos terrenos, inventando brincadeiras e conhecendo novos lugares. Foi numa dessas vezes que se depararam com a referida estrada de terra e resolveram investigá-la.
Andaram pela trilha por bastante tempo sem avistar qualquer passante até que depararam-se com uma encruzilhada no meio do nada. Não havia sulcos de carroças ou marcas de passos senão as que eles próprios deixavam e eles também não tinham a menor noção de onde aquela outra estrada à frente deles poderia vir e para onde rumava. O grupo estava curioso, mas dividido: haviam os que insistiam em investigar e outros que relembravam as horas, afirmando que deveriam voltar para casa. Por fim, decidiram voltar no dia seguinte para matar sua curiosidade.
Chegando o garoto comentou suas descobertas com seu avô que conhecia muito bem a região, perguntando-o aonde levava aquela estrada. O avô lhe contou que havia sim uma estrada de terra que ligava um vilarejo distante à uma cidade próxima da casa deles, mas que não existia qualquer cruzamento de estradas, mesmo por que aquela região era deserta. E que se houvesse alguma cidadezinha ou fazenda para se dar o luxo de ter uma estrada que a ligasse a algum outro município esta estrada teria que passar pela cidade em que estávamos localizados, já que era naquela direção que se encontravam as cidades principais.
O garoto ficou intrigado e afirmou que tinha visto o cruzamento das estradas e perguntou se aquela estrada não poderia ser a entrada de uma propriedade privada da região. O avô reagiu com uma gargalhada dizendo que ninguém quer atrair atenção de passantes para suas casas, ainda mais quando se mora tão distante de outras pessoas. Disse ao garoto que conhecia a região bem melhor que ele e que quando moleque também explorava todos os cantos da cidade com a turma de sua idade, exatamente como ele estava vivenciando sua infância.
Não dormiu direito, ansioso com o dia seguinte. Havia alguma coisa de extraordinário na descoberta que ele fizera e esperava solucionar o que era. A manhã seguinte, no entanto, reservou-lhes chuva e no outro dia a cidade interrompeu seus afazeres para uma comemoração qualquer, de forma que ele teve de refrear seus planos e os ânimos dos garotos acalmaram-se. Só voltaram às suas aventuras três dias depois já não muito empolgados com a ideia de andarem tanto sem pista alguma para no fim descobrirem não se tratar de nada demais. Foi com esse pensamento que resolveram encerram a busca e conservar a magia do local em suas memórias. E o pobre garoto, contrariado, acatou a decisão do grupo e esqueceu o local. Até então.
Não demorou muito para chegar à estrada de terra. Seus passos eram largos e lépidos e sua curiosidade aumentava seu ritmo. Seguia pela estrada antiga que ligava a cidade de onde vinha à um vilarejo perto de onde ia e, sinceramente, não fazia a menor ideia de onde se encontrava a encruzilhada.
Seu destino era sua casa. Vivia sozinho no interior e cansara de ir a pé das pequenas cidades ao redor para lá por estar sempre atrasado para pegar o trem. Ônibus não chegavam ao seu vilarejo, eram caros e por isso não compensavam, e aquele velho trem tinha horários muito inflexíveis, então sempre acabava andando. A antiga estrada de terra ligava a cidade de onde vinha à um vilarejo perto de onde ia e achou interessante tomá-la. Seus passos eram largos e lépidos e logo estava trilhando a estrada em direção à encruzilhada, sob a luz do luar pleno.
Aquela lua cheia lhe soava uma bela metáfora para descobrir os véus daquele mistério que permanecera tanto tempo desacordado em sua memória e que só agora despertara-se uivando e clamando aquela investigação. Cinco anos depois e o rapaz não sabia quão forte era sua sede.
Andou mais de duas horas pela trilha até avistar no horizonte uma paisagem familiar. Seu coração começou a bater mais rápido e ele diminuiu o ritmo de seus passos aos poucos até chegar ao local. Era a encruzilhada da qual se lembrava, mas ele não se atreveu a atravessá-la. Sentou-se diante dela e se permitiu descansar um pouco, observando o terreno em que se encontrava.
Depois de um tempo levantou-se. Hesitou, mas deu um passo e estava no meio dos dois caminhos. Aí checou um rastros no chão e novamente não havia nada: nem pegadas, nem sulcos, nada. Pensou em caminhar na outra trilha cujo seu avô dizia ser inexistente e quase o fez, mas no último momento decidira-se precipitado. Ele achou que não havia esperado o suficiente. Concluiu que seus pensamentos não haviam maturado. Julgou-se um tolo e fez o caminho de volta até a primeira estação e adormeceu esperando o trem.
Ele nunca mais acordou. 

3 comentários:

  1. Nietzsche E Deleuze citam muito as "bifurcações", essas que aparecem no nosso caminho e quando aceitamos-nas, nos levam à outras construindo acontecimentos nos fazendo chegar a lugares desejados, ou não, mas sempre impulsionando nossos passos de maneira até insconciente e aleatória. A partir daí tudo é possível e surpreendente.

    Quando houver uma bifurcação na estrada, escolha um caminho.

    ps: ótimo blog, ótimo texto. Adorei (:

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    1. Adorei seu comentário! eu sou da opinião de que quando se tem uma bifurcação, na verdade tem-se 72 caminhos a serem escolhidos.
      Gostei do seu blog também e aviso que serei uma presença constante! :)

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  2. Interessante! Sempre encontramos encruzilhadas na vida... Mas nem sempre temos coragem ou Vontade o suficiente para escolher... Gostei do blog...

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