Bondade pressupõe Força
Ontem no consultório eu falei uma frase que ficou ressoando dentro de mim, porque ela foi uma conclusão de muito tempo de auto reflexão e contemplação da vida.
“Para ser bom é preciso ter estrutura. Para ter um coração bondoso, para conseguir sustentar a doçura que é natural e inerente a algumas pessoas, é preciso ser forte, é preciso ter cacife para bancar a bondade. De outro modo ela é confundida com vulnerabilidade e com fraqueza, e os oportunistas enxergam na generosidade uma brecha para as suas perversidades.”
Eu estava diante de alguém com um coração bom e era visível & explícito. Esse tipo de pessoa não insinua as suas virtudes, não se faz de santo, não tem uma narrativa elaborada para justificar por que age como age. Pelo contrário, apenas são assim. E geralmente, acreditam que todos pensam e agem como eles, com o mesmo caráter & sinceridade. Eu vi essa pessoa e eu senti saudades de mim, de quando eu era ingênuo e a força ainda não tinha se tornado uma necessidade tão pungente.
Depois desse encontro eu fiquei pensando nesse lugar que o mundo se tornou - ou que sempre foi e eu nunca o tinha visto de forma tão crua…
Eu não acredito na lei do forte. Não acho que seja uma lei universal, não acho que o indivíduo esteja no centro do universo. Eu acredito que o desenvolvimento é necessariamente congregador, que a evolução é coletiva, que só há ganho real de poder quando ele é compartilhado, e que a força pela força é só uma medição de si, uma comparação vazia. Quem persegue força, colhe solidão. Mas para sustentar o amor é preciso, sim, ser forte. Força, portanto, como meio, como estrutura, como delimitação da misericórdia e da generosidade.
Eu fiquei pensando que é mais fácil ter amor dentro de si para poder desenvolver força e ser comedido com o poder, do que já ser forte e ter que disciplinar a si mesmo a ponto de conseguir desenvolver amor genuíno. Talvez seja mais fácil crescer para sustentar a beleza em si, do que ser grande e buscar desabrochar essa beleza interna…
E não é que não haja esperança para aquele que é intrinsecamente forte, mas ele será cortejado e seduzido para outros caminhos que lhe prometem muito mais do que a expressão da virtude de sua autenticidade, caminhos que lhe ofertam realizações diversas e a jura de um bom emprego de seus recursos, a ideia de estar destinado a ser poderoso e reinar pela sua força natural. É mais fácil cumprir com a inércia da conveniência humana e chamar a isso de destino, do que reordenar as circunstâncias mundanas e assumir um verdadeiro destino espiritual.
No final das contas eu acho que a força está muito mais em assumir quem se É de fato e sustentar a sua presença no mundo do que em um ou outro atributo físico ou psíquico que parecem destacar alguns indivíduos e torná-los mais aptos a uma ou outra tarefa eventual.
Quem pesa a balança contrapõe a pena e o coração, então a força almejada tem que ser mais leve que o vento para não corromper a bondade & a generosidade que realmente dão lastro & corporeidade ao centro de amor que pulsa a vida.
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