Comunhão dos Santos
Conheci alguém que, como eu, enxerga nas frestas das armaduras.
O lugar de fala era dele, então eu ouvi sobre as minhas sombras.
Assenti, e isso pareceu incomodar.
Quem vê o que não é óbvio costuma se orgulhar de sua perspicácia.
Eu não, só vejo o que precisa ser visto, e quando vejo demais do que não me serve, desvejo. Não me adianta colecionar as falhas & sombras dos outros, me torna mais amargo…
Pois bem, espantou-se de eu me conhecer mais do que julgou saber de mim. Assim, me revelei.
Falei das sombras e da trajetória. Assustou-se um pouco mais. Era mais do que ele tinha percorrido. Era mais do que ele sabia ser possível. Me olhou diferente.
Olhou para quem me trouxe ali e pediu indicação: quem era? de onde veio?
De repente eu já não era um estorvo, mas uma espécime interessante.
Isso também me interessou. De repente eu já não estava perdendo o meu tempo, mas lidando com alguém que conseguia me ver.
Deixamos nossas pretenções e preconceitos de lado e nos encaramos entusiasmados.
Contei um caso que não comento publicamente. Os olhos dele brilharam.
Ele me contou uma história que ninguém ali tinha ouvido. Me senti recompensado.
Nos cortejamos como fazem os nossos: uma mão que afaga & uma mão de adaga. E não mais medindo terreno, mas na dinâmica de reconhecimento das dualidades.
Ele me olhou emocionado, e suas lágrimas limparam o meu coração. Esse crédito eu dou a ele: pouquíssimas vezes vi alguém tão turrão derramar uma lágrima sincera que descarregou o campo de todos os presentes. Aquele homem encontrou em nós, pessoas de outra tradição, irmãos de caminho.
Abraçou-nos com um carinho que foi recíproco e entusiasmante.
Chamou aos meus companheiros de “hermanos”.
Despediu de mim como “maestro”.
Sussurrou algumas palavras no meu ouvido que não convém reproduzir. Eu não preciso de mais essa vaidade. Só de ter sido visto já me basta.
Independe de em que lugar do mundo estamos, do idioma que falamos, da tradição que seguimos: se estamos alinhados com a Lei, reconhecemo-nos.
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