A Coragem de Sentir é o que Nos Mantém Vivos

Texto de Isabela Siqueira para o episódio #56 do Páginas Abertas - Empatia, Bondade Amorosa & Aprendizado Transpessoal




Como nos relacionamos com a nossa capacidade de sentir? Diante e sob a realidade que vivemos, como lidamos e tratamos do sentir? Um botão de liga e desliga soa tentador? Um controle absoluto, pois a depender de onde partimos, sentir, seja lá o que for, é um problema? Quem produz o que sentimos? Qual é a nossa soberania sobre a nossa capacidade de sentir? Ou talvez prefiramos uma máquina de sentimentos que regule o que somos capazes, ou toleramos, sentir? A ponto de nos tornarmos incompetentes o suficiente para sermos dominados por outrem que determine o que sentimos? Qual é a fonte do que sentimos? De onde vem o substrato das nossas emoções?

Sentir é, talvez, nossa maior habilidade e poder! E sentir nos conecta imediatamente com o nosso corpo, porque sentir passa pela experiência de ter um corpo, nós somos capazes de localizar o amor, a alegria, a tristeza, a raiva, o medo no corpo (não quer dizer que sempre sejamos capazes de conseguir) ... Seria o corpo o território do sentir? O nó na garganta, o aperto no peito, o frio no estômago, o arrepio, o coração sambando no peito, sentimos a temperatura da água que bebemos, sentimos cheiros, gostos, ouvimos, vemos... São traduções que nosso corpo faz do que sentimos. No episódio passado sobrevoamos, do ponto de vista da neurociência, nossas habilidades de empatia reativa e empatia cognitiva, falamos de contágio psíquico e o quanto o sentir nos localiza. Sentir é uma interpretação encarnada. A experiência com o outro nos atravessa, e ao atravessar esse território cheio de cicatrizes, memórias, defesas, alegrias, há uma espécie de filtragem a partir do que nos tornamos. E por isso podem haver distorções entre o que o corpo sente e o que acontece, podemos ser tragados pela repetição de comportamentos, muitos deles aprendidos como estratégias de sobrevivência, muitos deles já existiam antes da nossa existência, e vamos então conhecendo a verdade da nossa história em contato com o mundo. Talvez sejamos rapidamente levados a acreditar então que a razão se torna superior ao corpo, mas eu acredito humildemente, que não há superioridade ou hierarquia do corpo sobre a razão ou o espírito sobre o corpo ou qualquer dessas definições. A ação da nossa alma/espírito é também ação no corpo e o que é paixão no corpo, é por sua vez, paixão na alma. Estamos aqui falando de agir, o que nos impele a ação seria então nossas emoções? Emocionar é um verbo do latim que significa: mover para fora, deslocar. Mas antes, vamos aqui definir algumas coisas das quais abordaremos a seguir: afeto e emoção. Afeto é o impacto do mundo sobre o nosso corpo e a emoção é a tradução, a qualificação, e a tradução psíquica e cultural do afeto. Sabe quando diante de seres incognoscíveis somente choramos, ou gargalhamos? Essa é a inscrição da cultura, logo, a limitação da nossa capacidade de traduzir o afeto que nos atravessa em nome de emoção, nos falta vocabulário, pois esse vocabulário está circunscrito na cultura. Diante do inédito, perdemos o controlo. Logo a emoção é uma estrutura que organiza o afeto, mas não o contém, pois ele toma forma a partir do nosso repertório, o afeto é uma força caótica, no sentido de que pode ser “organizada” ou traduzida, mas nunca dominada.

Então se pensarmos que o afeto é uma força que nos impele a ação e depende da nossa capacidade de traduzi-lo, e essa tradução é construída a partir da nossa experiência, essa experiência vai construindo esse território que será atravessado pelo afeto... Podemos ter então cartografias de automatismos, cronicidades, de um sujeito que se tornou insensível a vida diante de altas exposições a violência e sofrimento? Seria o fascismo a cartografia de uma existência baseada no medo, na raiva e tristezas constantes, crônicos, que modulam sujeitos ressentidos, vingativos, amedrontados, covardes e apaixonados pelo poder? E por se tornarem crônicos, os fazem acreditar que essa é a única experiência possível com a vida? Essa cronicidade se traduz em uma calcificação desse território, uma rigidez cognitiva que se torna impenetrável e insensível. Sentir se torna uma ameaça depois de tanta exposição ao absurdo da vida individual e coletiva. Nos tornamos monocromáticos, zumbis, inflamados, rígidos, existências que perderam a capacidade a variação, como uma resposta repetitiva e automática de uma vida que diante da tragédia se recusa a admitir que a sua experiência e manifestação de seus afetos (aprendidos na cultura, na família, nas próprias experiências) não dão mais conta da realidade e precisam caminhar em direção a própria soberania. Se o afeto é a variação da nossa capacidade de agir, e a cartografia é manifestação dele a partir do nosso repertório, o fascismo atua justamente como um dispositivo de captura e regulação dos afetos. Ele não é exclusivo de uma estrutura de poder, ou de grandes líderes, mas antes, a estrutura de poder é um sintoma de uma sociedade, de indivíduos obliterados pelos seus microfascismos. O fascismo é um feitiço que mente para nós sobre a realidade. Ele queima as pontes que nos ligam uns aos outros. O fascismo é uma forma de desconexão com a vida.

Ele nos enfeitiça pela nossa dor, nos define somente pelo nosso sofrimento, nos ensimesma diante da diferença, e assim nos tornamos conservadores, acuados. Ele captura nosso afeto e circunscreve cartografias beligerantes, nos consome, e nos ilude com a falsa sensação de força e poder baseada na destruição do outro. Pois perdemos a capacidade de nos conectar com aqueles que também forjados em uma realidade hostil, se rebelam em uma indignação criativa, preferem criar um mundo novo apesar tragédia, para além de alternativas infernais, sujeitos que se recusam em ser capturados por esse feitiço. Fazem de sua existência uma ação ativa contra o envenenamento de seus corpos e suas almas, cultivam diariamente a retomada da saúde e da soberania de si sobre a forma como lidam com o que os afetos produzem em si, se recusando ao automatismo do contágio. Que apostam no encontro, na diferença, na alteridade, que buscam construir cartografias que traduzem afetos de alegria, de potência, de transformação, afetos que são capazes de dissolver o medo, e devolver ao corpo a alegria e a confiança na vida. Perceba, eles nunca venceram, eles nunca não vão vencer, e eles sabem disso, o projeto é nos capturar e nos aprisionar pelo medo, pela tristeza, pelo ódio, de modo que não sejamos capazes de imaginar outros mundos, de sonhar com outras existências, de produzir outras vidas. Como diz o Falcão: “Pra quem tem fé a vida nunca tem fim.”

Talvez faça sentido pensar que podemos ser guardiões do fluxo vida, o que devemos vigiar é se a vida encontra em nós passagem para existir, se sustentar e se multiplicar ou, se em nós, ela se ensimesma, se embota, se desconecta e empreende numa ode ao medo, a tristeza, ódio e a própria destruição.

“A arte é uma ameaça ao fascismo, porque o fascismo é a falência da imaginação”.

- Isabela Siqueira

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