Sobre Portais Interdimensionais e suas Implicações

Nessa terra de grande extensão, em que comumente se julga já se ter visto de tudo, um ou outro mistério se desvela em ocasiões extraordinárias. Um desses mistérios é a existência de portais interdimensionais. Passagens materiais, físicas, que dão acesso a outros planos e permitem contatar seres que não habitam essa nossa realidade consensual.

Esses portais são pontos de intercessão entre as realidades, ou seja, são nodos de uma rede que fazem com que um evento que ali ocorra repercuta por várias outras dimensões e planos de existência. Basicamente, o que se conjura ali acaba se tornando um evento canônico em várias linhas temporais distintas. É, portanto, um ponto de aglutinação de força, e para acessá-lo é preciso que essas nossas várias realidades estejam minimamente alinhadas. Se não estiverem, o processo de sincronização poderá ser catártico, e o indivíduo comumente será confrontado pelos contrastes e faltas de suas várias versões. É como refletir-se e enxergar não o que poderia ter sido, mas o que deveria já se ter feito. Ou compreender exatamente quais vícios que se possui podem levar à sabotagem e ao desmoronamento de si.


Quando se vive uma vida coerente e alinhada com a própria Essência, esse reflexo íntimo costuma ser uniforme, e há muitos pontos de unanimidade, tornando o indivíduo “canônico”, ou seja, estável e previsível. Essa previsibilidade não é monótona, mas sim uma consagração das virtudes e do perfil daquele ser. Ele é o que é em todos os pontos do tempo e do espaço, independente das circunstâncias e possibilidades.


Embora muitos desses portais se encontrem ao alcance público, posicionados em áreas turísticas que podem ser acessadas por qualquer pessoa interessada, a grande maioria deles se encontram etericamente fechados e só podem ser abertos mediante certos rituais e, também, sob a posse de certas chaves espirituais. Isso significa que há uma cerimônia específica para abrir tal passagem, mas que há também alguns requisitos internos para atravessar efetivamente a porta. Dois indivíduos em um mesmo grupo podem ter experiências completamente diferentes, de maneira que um possa acessar e transitar livremente por essa porta e o outro se sentir impedido, ou transitar com algumas restrições e limites. E isso se dá pela configuração e pelo trabalho interno de cada um. É o que estamos chamando aqui de chaves espirituais. 


Esses portais podem ser atravessados fisicamente, embora essa não seja a forma mais fácil ou indicada de utilizar desses pontos de força. A travessia material traz uma série de implicações filosóficas que não discutiremos aqui, como a questão da conservação do corpo físico ou da possibilidade de retorno e suas condições. Esse tipo de experiência, embora seja possível, é quase mitológica e não nos cabe explorar nesse texto. O que nos importa aqui não é a travessia física ou astral, mas o uso do portal como Áxis Mundi, como ponto de conciliação das realidades e, portanto, de conciliação entre as nossas várias versões, e também entre o nosso passado e o nosso futuro. O portal é um prisma em que podemos nos avaliar de múltiplas perspectivas diferentes e obter noções claras de quem realmente somos, do que fomos, e do que viremos a nos tornar. E, a partir dessas visões e de seu entendimento, transformarmo-nos ou nos consagrar efetiva e definitivamente. 


Há ainda uma última consideração importante para quem deseja usufruir da experiência de confronto com o seu reflexo essencial íntimo que é: olhar para si sob múltiplas perspectivas é uma oportunidade ímpar de autoconhecimento e de elaboração de quem se é - ou se quer ser -, mas esse processo ainda está enviesado pela nossa autorreferência, seja ela local, ou extradimensional. Entretanto, quando se tem a possibilidade de acessar nossos registros íntimos, o lastro e o legado que construímos em cada linha temporal, ou ainda contar com o depoimento de nossos iguais, ou, sobretudo, de inteligências superiores que nos acompanham e que podem atestar e validar os fatos que observamos, aí sim temos real dimensão de quem somos, e aí sim temos a possibilidade de atualizar os nossos planos. Porque, às vezes, o que estava reservado para a gente é pequeno e limitado perto do que realmente podemos fazer. E essa é uma excelente oportunidade de tornar-se o que se é integralmente. 

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