A primeira noite escura da alma
A primeira noite escura da alma
Devia ser meados de agosto de 2009 ou 2010. Eu estava sozinho, caminhando por uma praça, na madrugada de uma sexta-feira, em Belo Horizonte. Eu tinha despedida dos meus amigos, enquanto andava de volta para casa um súbito pensamento percorreu a minha cabeça: “caramba, já faz muito tempo que não acontece uma tragédia na minha vida. Quando será a próxima?”
Esse pensamento veio em negrito. Você sabe do que eu estou falando, ele era diferente dos demais, parecia sublinhado.veio em primeira pessoa, mas não parecia que eu tinha pensado aquilo. Pelo menos não organicamente.
Uma semana depois, saindo com esses mesmos “amigos“, eu tomo um tombo na rua e ralo metade do meu rosto no chão.levanto com a cara toda ensanguentada e com aquele mesmo pensamento e quando anda na minha cabeça… Seria a vida cíclica? Estaria fadado as contínuas desventuras prodigiada pela minha imaturidade & inconsequência juvenil? Valia a pena o meu brado rebelde para ser aplacado pela minha própria insensatez? Ali eu comecei a achar que não. Aquele tombo doeu mais na alma do que no rosto. E me fez encarar no espelho as minhas duas caras, a minha ilusão se descascando para que eu pudesse ver o quanto eu estava machucado por dentro, e o quanto a minha sensação de insuficiência me fazia flagelar-me e me autodestruir. E nesse momento eu percebi que esse também era o retrato das minhas companhias: jovens talentosos, sim.inteligentes e com um ótimo repertório — externo —, mas presunçosos, arrogantes e completamente sem perspectivas. “NO FUTURE”. Não falávamos, mas era como vivíamos. E, de repente, eu me dei conta de que não mais queria viver assim. Não fazia mais sentido. Eu não queria ter que cair para aprender. Não eram acidentes. Eram sinais de um desequilíbrio cambaleante que vinha se arrastando por anos. Enxergar essa perspectiva fez com que eu me sentisse burro. Logo eu, tão vaidoso da minha habilidade cognitiva, me senti um tapado que pela primeira vez começava a se situar na vida.
Nessa época eu já era praticante de magia, e achava que isso também era espiritualidade. Como todo estudante presunçoso, eu me sentia autossuficiente e nem sequer cogitava a possibilidade de pedir ajuda para alguém, quanto menos ter um professor para o caminho. E isso tornou a vida um tanto mais árdua. Eu já tinha consciência de que meu estilo de vida eram sustentável, mas eu não fazia ideia do que precisava mudar. Pior: eu não tinha sequer as referências do que seria o “correto” ou o “adequado”. Só me sentia em dívida comigo mesmo e insuficiente perante a vida. E foi nesse momento que as coisas começaram a mudar: porque se vocês têm incomodado e não sabe para onde ir, então você precisa meditar. Você precisa traçar um plano, estudar possibilidades, mapear caminhos, entender as circunstâncias ao seu redor, entender como o mundo funciona para, então, caminhar. E foi o que eu fiz: eu parei tudo e comecei a estudar espiritualidade de verdade. Ler livros, buscar novas abordagens religiosas, me abster de álcool, de carne, de amizades, de programas. Eu reduzi todos os tópicos que eu achava que poderiam me influenciar para poder testá-los um por um, empiricamente.e, é claro, eu também não tinha ainda uma boa habilidade para analisá-los, então é óbvio que essa pesquisa era enviada. É óbvio que eu estava criando julgamentos com base no achismo descabido. Eu ainda não sabia o que era bom para mim. Eu acho que essa frase é muito importante. A gente não >descobre< o que é bom para a gente, a gente cunha essa noção em conformidade com o que a gente quer ser, em consonância com a nossa auto imagem e projeção. E essa noção muda - e tem que mudar! - ao longo do tempo. Porque o que era bom para mim antes já não o era agora. E o que foi bom para mim nessa época, já hoje não me satisfaz.
A história é penosa e continua, mas que nos cabe até aqui é o entendimento de que a primeira noite escura da alma advém do confronto consigo, de reconhecer suas próprias ilusões, de deixar de ser enganado por si e perceber as incongruências na própria narrativa — e viver a crise existencial de se reexaminar: seria a minha vida uma mentira? Qual é a verdade então?
Bem, não percamos a verdade religiosamente para não criarmos outra ilusão.nos contentemos, por enquanto, a dissolver as teias e espantar os insetos, para tornar habitável o cômodo onde assentaremos o nosso ser. Depois expandimos os quartos e refinamos a limpeza. Por enquanto, varrer e espanar.
Comentários
Postar um comentário
Comentários?