O Acordo dos Inteiros
É impossível viver uma relação compulsória comigo - não há nada que eu abomine mais do que estar em presenças constritas ou involuntárias. Ninguém me deve nada, assim como eu não devo nada a ninguém. Ninguém deve se sentir obrigado a nada para comigo, assim como eu não me sinto e não me permito ser constrangido por nada e nem ninguém. Todas as minhas relações prezam pela liberdade das partes de quererem, efetivamente, estarem onde estão e agirem por si. Eu preciso me relacionar com sujeitos inteiros, e não com casualidades & automatismos. Meus compromissos não são casuais, eu não me sento num bar para jogar conversa fora porque encontrei um antigo conhecido por acaso na rua. E também não incluo um estranho na minha conversa para fazê-lo se sentir mais à vontade num ambiente em que ele se encontra avulso. Eu não sacrifico o meu conforto pelos demais. Minha intimidade é cara, e tem mais valor pra mim do que para qualquer outra pessoa. É por isso que eu só me relaciono com quem faz questão da minha presença. Por que eu também faço questão de presença do outro, e a reciprocidade é o acordo de dois inteiros que sabem de si. Isso me faz menos acessível? Não, pelo contrário, os que me conhecem dizem que agora conseguem me acessar, que me perscrutam em profundidade e inteireza. Que se sentem à vontade para também serem quem são comigo. Que ótimo, eu não aceito menos. Assim como eu também não sou capaz de me abrir de tal forma para um curioso ou um verborrágico vestido de simpatia. Vejo suas máscaras, vejo seus rostos, vejo o seu vazio, e quando os encaro se encolhem e se intimidam. É quando eu deixo de ser interessante e me torno a ameaça ao seu hiato descarado. Às vezes a minha inteireza afiada atravessa a carência inexpugnável de quem esbarrou em mim por acaso. E eu peço desculpas? Não, eu continuo andando. Levantam do chão, se recuperam do susto, esbravejam consigo mesmos e, às vezes, até tentam me alcançar, culpando o ritmo dos passos e a impenetrabilidade da minha conduta. Eu não paro. Porque, como eu disse, eu não dou ouvidos a casualidades, e não converso com metades.
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