Postagens

Logro

Perséfone colhe narcisos ao colo Logo, abaixo do solo Quando eu era Eros Menos que cupido, eu era tentação Um convite, um sorriso, toda a atenção Brincadeiras que são levadas a sério Quão estéril é o homem ausente de graça? Só deslumbra quem se engraça Eis o olhar que se amacia Passo em falso, alto e baixo, Aos ouvidos, poesia Mas fui anjo displicente Fiz sem pares meus devotos Feri com o arco a mim próprio Já não caço por aí E das mulheres que toquei Restou-as tanta fantasia Quem diria? Outro dia... Bem sabias: não voltei.

Especiarias & Expiações

- Eu não vou mais voltar aqui. - Conseguiste um emprego decente? - Não, mas vou escrever a minha história. - Tem cuidado, meu filho. A procrastinação é a maldição da vossa geração. - Agora que terei tempo livre não acho que sofra desse mal. - Pois é aí que te enganas. Tempo é como o sono: quanto mais tens, menos tens. - Esse é o seu “boa sorte”? - Eu tenho as minhas maneiras de falar-te dos anseios que tomam o meu coração. - Quão comovente! - Não sejas frio, meu jovem. Talvez tenhas tuas divergências, mas é com o teu patrão e não com a pessoa que agora fala-te. - O senhor tem razão, eu não quis ser rude. - Por muito tempo foste parte de minha família, estando no íntimo de minha rotina. Não vejo uma forma de estar mais próximo de alguém e por isso quero dizer-te que a tua partida nos alivia. Mas também nos preocupa um bocado. - E por que razão? - O alívio é parte de ver um próximo atirar-se ao seu sonho. Essa é a parte bela da vida, é o que nos enche os olho...
Eu tenho que refrear meus fluxos de pensamento. Às vezes eles me atropelam no meio da avenida e eu nem anotei a placa [de esmeralda].

Costelas V

Soube dar vida sabida de si assobiando a canção lida a qual, só de lembrar, sorri sorria “e se” e seus delírios infantis tons anis de poesia martírios em jasmins “bem-me-queres” jazem as pétalas ao solo pequena Ceres fugaz como a primavera recolhe-se ao colo a vida ainda é sépia a noite ainda é sono a casa um castelo, a cama um trono... mas a cidade sempre será séria e o mundo, monótono.

Costelas IV

Sereno severo silêncio Alento à alma Saúdo à calma e me sento Sagrado sortimento Qual amálgama! Prefiro aos tons pasteis Romances em papéis Capa dura, coração mole Emoções são montanhas russas Relacionamentos são carrosséis Sou um parque de diversões fechado Em um porquê de dimensões extensas Cordas tensas, coração calado Desfruto meu manjar, alheia aos pecados, Faço jus à minha crença Sou esfinge e sou quimera Sou Bela e Fera sem bula Adula & Venera: "Decifra-me ou devoro-te!" Eis a GULA.

O Décimo Terceiro Ovo

De repente aquela súbita vontade de comer omelete. Dez horas da manhã e eu nunca gostei dos americanos, mas hoje é um dia à parte. E quando abro a geladeira para pegar os ovos noto a bizarrice: um deles brilha. Nada muito chamativo ou fosforescente, mas era um ovo nitidamente diferente dos demais, um pecado. Pego o ovo com cautela pensando poder estar podre, e qual a minha surpresa também com seu peso estranho. Que ovo pesado! E apesar de tudo, não tinha qualquer cheiro diferente dos outros. Fico pensando se ele não é de outra granja, se a Paula, minha esposa, não quis fazer uma gracinha e comprou alguns produtos mais finos para alguma receita especial ou algo do tipo. Descarto a hipótese, é a Dona Júlia, nossa secretária, quem vem fazendo as compras alimentícias e ela não gosta de coisas caras, quem dirá ovo chique. - Alô, Dona Júlia? - Ô Seu Luiz! Tava mesmo pensando no senhor. O trânsito agarrou aqui, ônibus cheio, mas eu já tô chegando, viu? - Sem problemas. Mas me co...

O mar não recusa o rio

Entrego-me às ruas da cidade sob o Sol da manhã. A brisa leve conduz meu velejar em meio a outros navios, distraídos, mas não com a paisagem. Não digo que perdem o melhor, pois não sei deles. Aliás, não digo nada, nem mesmo o que acho que sei por que também acho que não vem ao caso. Nada é preciso, exceto navegar. O vento da manhã não uiva, ele sussurra doce e suave, mas a maré brava ofusca seus dizeres com movimentos bruscos. O mar não está para peixe, quem dirá para banhistas. Deixo o timão solto, livre de minhas mãos. Quem é o capitão perante a condução dos ventos? Aprecio o velejo sereno. As crianças são meus cúmplices, elas navegam melhor do que seus acompanhantes, com um sorriso no rosto que me diz já terem voltado de meu destino com o tesouro que busco. Seu cumprimento silencioso é um presságio, a benção que dispensam àqueles de alma grande. Aos demais, sua indiferença típica, que dói estranhamente. Já me doeu, não mais. Retribuo um sorriso que é apenas um ensaio, e...