Um brinde aos que me desconhecem




Tem uma sensação, que me é sempre muito prazerosa, que é quando as pessoas “descobrem” quem eu sou.


Explico: às vezes eu sou só um personagem que elas conheceram casualmente, em algum passado distante, ou por qualquer coincidência do destino, que ainda não possui nenhum tipo de classificação ou julgamento particularmente relevante. 

E, de repente, a pessoa me escuta falar sobre espiritualidade com o meu encanto usual; ou percebe a forma como outras pessoas se referem a mim e aos meus projetos; ou tem contato direto com parte do que eu produzo; ou consegue enxergar através da minha aura de discrição e me “vê” realmente. 

Eu não sei descrever a sensação de ser reconhecido, mas é como um encaixe. A conversa muda de tom, se torna mais dinâmica e autêntica, é sensível e é recíproca. Mas não é só isso… Dá para saber quando se está conversando com alguém que nos viu de fato, e quando a conversa é com alguém que está alheio de si - e do outro. 


Quando nós somos “vistos”, nós também percebemos quem está por detrás dos véus do interlocutor. Muitas vezes esses véus não são propositais como os meus, mas só se acumulam circunstancialmente. E esse desnudar recíproco cria uma atmosfera de intimidade que nos permite acessar com profundidade assuntos que demandariam tempo e/ou confiança. E é isso que me interessa.


Acho que eu sempre fui profundo demais. Nunca consegui render assuntos banais. Visto máscaras, animo personas variadas, mas não consigo simular o interesse pelo despropósito. E nessa inadequação de que tudo precisa ser profundo, e nessa sensibilidade exacerbada com a qual eu me sentia constantemente profanado, eu criei essa aura de discrição - que nada mais é que uma expressão do meu egoísmo com a minha intimidade. Eu não a empresto para estranhos. Ela não pode ser tomada à força. É imune a manipulações (verbais, emocionais e mágicas), e também não se rende ao jogo de afinidades. A conexão comigo não se dá por gostos em comum, mas pelo reconhecimento mútuo. 


Nessa brincadeira de observar o mundo eu aprendi a “ver” com naturalidade. E eu me divirto quando sou “visto” e reconhecido. 


Alguém, desavisado, pode achar que eu me tenho em muita alta conta. O leitor não estaria errado. Eu também posso me “ver”, e não preciso de espelho para isso. Eu sei quem eu sou. É por isso que não empresto a minha intimidade para qualquer um. E é por isso que há quem desgoste de mim gratuitamente. Por almejar tanto algum vínculo e não o obter, toma o outro partido e se indispõe. Mas que se fodam. Não é como se eu não tivesse munição & disposição para liquidar quem quer que se preste ao papel de enxerido :)

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