Da importância ficou tristeda anotação sistemática como recurso para o despertar



Há alguns anos atrás eu me deparei com uma frase do estimadíssimo autor Jorge Adoum em que ele dizia que “a primeira virtude ser desenvolvida pelo buscador é o Discernimento.”

Eu taquei nessa sentença e a contemplei profundamente. Era uma verdade. E era uma verdade óbvia e que se distinguia do “saber, ousar, querer e calar”, ou da vontade como instrumento de potência do sujeito. Ela não propunha poder, mas sabedoria.menos do que isso até, ela propunha apenas capacidade reflexiva… Só que “discernimento”, o vocábulo, infere algum mínimo critério de manejo da relevância, ou seja: quem discerne, quem diferencia, julga. E quem julga o faz por critérios, por valores, por parâmetros. E quando Jorge Adoum propõe esse discernimento, essa capacidade de julgamento, ele está propondo a forja da Verdade, da sintonização do sujeito com a Anima Mundi, como o sagrado, com os critérios metafísicos que conduzem absolutamente todos os Mestres. E que os adeptos buscam integrar em si.e que os iniciados contemplam e discursam a respeito. E que os buscadores tateiam e se indagam: “seria essa a verdade?!”

A proposta do desenvolvimento do discernimento é muito justa. Diferente do poder, que para ser exercido precisa de desigualdade, o discernimento faz os sujeitos mais iguais entre si, pois ele atua na diferenciação das esferas: “o que é meu e o que é do outro?”, “o que é pertinente e o que não é?”, “estou agindo de forma justa ou me sobrepondo aos demais?”

Como dissemos, o discernimento é reflexivo, e ele precisa ser conquistado, ele não pode ser herdado.ele não é transferível, mas ele pode ser estimulado e inspirado.

Foi diante dessa frase que eu confirmei a importância da prática da anotação sistemática. E aqui eu preciso definir esse termo: a anotação sistemática se difere da anotação ocasional. “Sistemática” vem de “sistema“, que é a proposta de um método, de uma estrutura, mas sobretudo, de uma regularidade.então quem anota sistematicamente o faz levando em consideração critérios definidos por si.e esses critérios se insinuam nos registros e geram um produto chamado “Discernimento”. Ou seja, as práticas mágicas, o trabalho, os relacionamentos, forma como se lida com o corpo, com a comida, com medicamentos ou qualquer outro tema vai produzir maior consciência sobre essa relação sujeito-tema, isso gerará não só insights, mas maior autonomia na gestão de si.

É muito importante explicitar a diferença entre uma reflexão mental e a reflexão escrita. A mente possui poucos limites e aceita flexibilizações que a linguagem não acompanha. Mas, justamente, se não temos palavras para descrever como nos sentimos ou o que pensamos, será que teremos recursos para manifestar aquilo que idealizamos? Se não conseguimos descrever nossos sonhos, será que algum dia deixaremos de sonhá-los e os executaremos, de fato?! o filtro da linguagem é muito importante, pois é ele quem nos mostra de forma mais clara o nosso potencial de traduzir o mundo.e aqui não estamos nos referindo à erudição e à riqueza de vocabulário, mas sim à capacidade de comunicação, de expressão, de tradução do que é apenas imaterial, e portanto, é intangível aos demais. 

Existem linguistas com um exímio domínio do português, mas que falham em acessar e traduzir seus anseios e idealizações. E existem analfabetos que possuem grande poder de trânsito entre seus aspectos internos e conseguem comunicar - e manifestar! - sua vontade usando a linguagem que possuem.

Em outros palavras, a anotação sistemática não está preocupada em escrever “certo“ ou “bonito“, mas em elencar pontos de observação sobre o próprio sujeito. Pontos esses que, n necessariamente, escapam da sua observação ordinária e cotidiana.e esse tipo de observação, esse tipo de análise, se faz cada vez mais urgente conforme nossa atenção mingua coletivamente, e nos tornamos cada vez mais automatizados.

Escrever para despertar.

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